ARKIS

ARKIS: Vanguarda - Temporada 03 Episódio 06(25)
Lá e De Volta Outra Vez: Tijolos Amarelos

Vanguarda

Diário de Bordo
Codinome: Lusutan

Registro 00108

Havia três dias que estávamos observando as leituras do aparelho que Quantum desenvolveu seguindo as orientações de Hefestos. O equipamento rastreava a origem das assinaturas energéticas dos Arkitetos e, curiosamente, foi através dos braceletes de Vega que conseguimos captar essa energia. Aparentemente eles podiam mudar a fonte de seu poder e quando Magni marcou as runas existentes no Olho de Odin nos braceletes, aparentemente estimulou que os mesmos começassem a captar energias similares dispersas no ambiente.
No entanto, segundo Quantum, o processo ainda demoraria mais um ou dois dias. Eu podia sentir em sua mente uma ansiedade e apreensão, Quantum sabia que era capaz de acelerar o tempo e resolver esse rastreio quase de imediato, mas isso significava fazer uso dos poderes de alteração de probabilidade quânticas, cujas consequências para outras realidades ele temia.
Como esperado, surgiu sobre nós duas naves de batalha wangari, que detectou a presença da Vanguarda após tantos dias no planeta classe M do Espaço Bélico, onde Magni e os outros encontraram o Olho de Odin. Os soldados Wangari saíram das naves com armas apontadas e ainda incrédulos ao reconhecer a nave que havia vencido a Segunda Guerra Vyn. Logo o general deles se apresentava, um homem que os tripulantes já conheciam, Morgan, o antigo sub-comandante da Brigada da Tormenta. General Morgan ordenou que os soldados baixassem as armas e nos deu as boas vindas a Wangari Imperial. Magni estranhou, pois recordava-se que Wangar era uma república, mas claramente tudo mudou nos quatro anos que se passaram com a Vanguarda presa na outra Terra.
Quantum fez uma rápida explicação do que estávamos fazendo lá, e assegurou que logo iriam embora para seguir sua busca, no entanto o general dizia que os tripulantes da Vanguarda eram convidados para um banquete com a Imperatriz e as casas nobres Wangari. Snickers sabia que um convite da realeza era mais uma intimação, e não valeria a pena criar um conflito tentando polidamente recusá-lo. Após uma pequena discussão, decidiu-se que Snickers, Magni e eu iríamos comparecer ao banquete. Moonshadow permaneceria ajudando nos reparos da Gullfaxi (que fora resgatada de Netuno) injetando nela uma extensão de sua consciência tecnorgânica, Quantum seguiria com a análise da assinatura energética dos Arkitetos, Johann retornaria à Aurora através do portal dedicado da Vanguarda, e Vega, Cinetic e Toro manteriam a segurança da nave.
O general aceitou o comparecimento parcial do grupo, embora minha presença tenha sido vista com escárnio. Minha atuação como aliada dos feldron, que municiaram os Darkoni, adversários seculares dos Wangari, era muito conhecida. Mas Magni apresentou-me como sua consorte e o general, que o respeitava muito, se viu obrigado a aceitar minha presença sem maiores protestos. Antes de partir, Snickers teve uma conversa privada com Johann, a natureza da mesma eu não pude captar, pois a mente de Snickers era especialmente resistente a invasões mentais e o traje de sobrevivência de Johann era equipado com um eficiente escudo psíquico. O general deixou uma das naves de batalha como segurança adicional à Vanguarda e partimos na segunda.
O dia de trajeto até o planeta capital foi tranquilo, mas pude perceber uma estranheza e descontentamento de Magni ao ver a capital imperial. Notávamos que os Darkoni, a espécie insectóide que fora anteriormente escrava dos Wangari e, com a ajuda dos feldron, havia se rebelado e iniciado uma guerra secular com seus captores, voltaram a ser servos de seus inimigos. Na mente de Magni pulsava um cenário que ele esperava encontrar, onde o cessar fogo conseguido por eles no passado e também a reunião de diversas civilizações contra os Vyn, tivesse direcionado o conflito para uma solução sem vencedores ou perdedores. Eu via essa fantasia se desfazer em seu relevo psíquico como um sonho esquecido.
O banquete e os festejos foram dignos das maiores autoridades espaciais, música e aromas doces preenchiam o ambiente, mesas fartas de raríssimas iguarias estendiam-se pelos imensos salões. Eu as vezes me esquecia como o Vanguarda era respeitada e ovacionada. A Imperatriz Hannah Lapizu Ul Wangar, conhecida pelos tripulantes como a comandante Han, nos recebeu com braços abertos e grande altivez. Era impossível sequer sentir um pensamento superficial nela, sua mente era excessivamente treinada e ela claramente percebeu minha sondagem, demonstrando isso com um leve sorriso sarcastíco e indicando que “uma garota precisa ter seus segredos”.
Junto a ela, uma celebridade chegava. Era Starman, um bardo galáctico cuja origem ninguém sabia ao certo, mas seus talento e sucesso eram inegáveis. Starman alegava que estava em Wangari Imperial especificamente esperando o retorno da Vanguarda neste dia, para que pudesse integrar à tripulação e contar suas histórias. A imperatriz deixou Starman com Snickers e pediu a Magni que a acompanhasse numa dança no salão principal. Ele me olhou relutante, mas eu o acenei para ir. Sabíamos que havia uma encenação em andamento e eu sentia que havia uma história entre Magni e a imperatriz, ele precisava lidar com isso mais cedo ou mais tarde.
Starman mostrava ter um conhecimento impossível sobre os eventos do universo e os feitos da Vanguarda, no entanto sua mente era como um oceano em fúria. Era muito difícil captar um pensamento coerente e contínuo, quase como se ele estivesse captando e digerindo informação de centenas de lugares do cosmo ao mesmo tempo. Ele ainda mostrava uma incrível capacidade de “ver” nossa comunicação telepática, dizendo que era como se as palavras saíssem de nossas cabeças e dançassem em sua frente.
Magni retornou da dança com um semblante sério e preocupado. Ele dizia que os Wangari haviam realmente vencido a guerra graças a alguma manobra habilidosa da comandante Han, mas que agora os Darkoni não eram mais escravos do Império, mas sim cidadãos dentro de sua casta social adequada. Sabíamos que era uma questão de semântica, os Darkoni sempre seriam servos para a nobreza Wangari, apenas eram tratados com um pouco mais de cuidados pois já eram entendidos como seres sencientes e não meros animais.
Ele também disse que a imperatriz iria fornecer mantimentos e equipamentos para a Vanguarda, o mínimo que ela poderia fazer, conforme disse, para ajudar na jornada dos heróis galáticos. Foi então que o General Morgan se aproximou de nós com uma expressão raivosa. Segundo ele, os demais membros da Vanguarda estavam abrigando na nave um inimigo declarado do império e precisavam sair da região para evitar um conflito. Quando questionamos a identidade do inimigo, o general respondeu que era o Defensor. Snickers lançou um olhar rápido para mim, e rapidamente compreendi sua intenção e ordem, fazendo um contato mental com Quantum, Vega e os demais tripulantes, sobre o que estava acontecendo.
Logo entendemos que a situação da Wangari Imperial era mais complexa. Segundo Defensor, após a intervenção da Vanguarda, 4 anos atrás, um cessar fogo foi declarado e uma nova negociação foi estabelecida entre Wangar e Darkon. A comandante Han fora a enviada dos Wangar, visto que era da antiga linhagem real e fora o principal contato da Vanguarda. Han, entretanto, não tinha intenção de estabelecar reais negociações de paz e usou a oportunidade como uma armadilha para exterminar as rainhas Darkoni e capturar e controlar os ovos de novas rainhas, assegurando a vitória dos Wangar na guerra. Tal ação elevou sua popularidade de tal forma que o retorno ao regime imperial foi mais que bem aceito pela população da República, tida como fraca e ineficaz. A Brigada da Tormenta tornou-se a Guarda da Tormenta e um novo regime de treinamento dos Cavaleiros Wangari foi estabelecido, resgatando as raízes guerreiras da espécie.
Defensor, que com o apoio da Gward havia sido designado para vigiar e proteger ambas as delegações da mal fadada negociação, ficou estarrecido e sem ação com o ardil de Hannah. A situação agravou-se mais ainda quando a Gward e os Feldron foram devastados pela sua participação ativa na Segunda Guerra Vyn, não podendo intervir de forma alguma. Sentindo-se responsável pela derrocada e retorno a escravidão de uma espécie inteira, Defensor invadiu os cofres Wangari e sequestrou um dos ovos de rainha, que tem mantido consigo até hoje, mas sem uma noção clara do que deveria fazer.
Snickers resmungava e amaldiçoava o destino deles. Parecia que os problemas e dilemas nunca deixavam de alcançar a Vanguarda, mesmo que não tivessem diretamente nada a ver com a nave. Ele rapidamente ordenou que retornássemos à nave para partírmos o quanto antes, mas Starman perguntou a Magni se ele já tinha visto o filho dele. A informação nos chocou, exceto a Snickers que mais uma vez soltou maldições entre os dentes. Magni levantou-se e buscou imediatamente a imperatriz. Eu fiz menção de acompanhá-lo, mas pude sentir sua mente e coração fechados e borbulhando, o que me assustou muito, não era a raiva de Mödi, mas a frustração do prórprio Magni que me afastava.
Não demorou muito e estávamos prontos para partir, Magni retornou do segundo encontro com a imperatriz, com uma expressão ainda mais derrotada que antes. Eu sabia que não seria bem vinda em sua mente e deixei-o com seus pensamentos. Ele nos disse que a imperatriz providenciaria nosso retorno imediato para a Vanguarda e ainda mandaria os prometidos mantimentos, desde que retirássemos Defensor de Wangari Imperial.
E então partimos, conforme prometido, rapidamente chegando ao planeta classe M. A superfície do planeta apresentava crateras e vegetações queimadas, provavelmente derivadas das tentativas falhas da nave de batalha Wangari derrubar Defensor antes do mesmo alcançar a Vanguarda. Estávamos reunidos e Snickers já ordenava a decolagem da nave enquanto exigia melhores explicações para o que acontecia.
Defensor estava claramente envergonhado de ter arrastado a Vanguarda nesse problema, e era repreendido por Snickers e Moonshadow. Magni e Quantum, no entanto, entendiam a atitude dele, pois não conseguiam ver com bons olhos a ação de Han na chance que tiveram de estabelecer a paz entre as espécies. Defensor cedeu o ovo Darkon a Moonshadow, que o guardou dentro de um dos drones CoRe que ele dominava, DynaBlaster. Defensor também nos deu um panorama do cenário galático após os 4 anos de ausência da Vanguarda.
A Gward ainda estava muito enfraquecida pela corrupção dos Gwardjanni e a formação do Império Vyrondiano, que vinha lentamente se expandindo, os agentes sobreviventes conseguiam proteger devidamente poucos planetas com ajuda das outras espécies aliadas, como os feldron, todavia seus recursos e números não eram nem sombra do que já foram. Os feldron estavam igualmente enfraquecidos, tendo parte de seu setor tomado por Wangari Imperial e ainda sofrendo com ações constantes da Black Hive em seu território, provavelmente guiados por Gandray que agora tinha uma posição de respeito na organizações criminosa. Defensor também contava que não havia nenhuma hostilidade nem aliança aberta entre os Impérios Vyrondianos e Wangari, mas sabia que comunicações entre ambos eram feitas.
Satisfeito com as explicações, mas não mais calmo, Snickers disse que Defensor deveria ficar na Aurora até que a Vanguarda resolvesse a questão dos Arkitetos e como destravar as informações do Olho de Odin sobre o Evento Zero. Todos concordaram, mas na hora de abrir o portal dedicado, uma surpresa aconteceu, o portal estava travado pelo lado da Aurora. Tentamos comunicação e uma voz estranha respondeu. Snickers reconheceu de imediato Bishop, antigo bioroid da Nova, assim como ele, cujo corpo morto fora resgatado por Memento Mori e, de alguma forma, ele fora capaz de dominar todas as unidades CoRe do local.
Bishop dizia que a Vanguarda tinha tomado algo que era de seu interesse, o experimento de Gelidus, e que estava disposto a trocá-lo pacificamente pela estação espacial e pelos reféns que fez nela, Johann, Dylana e Evon Drieris. Snickers exigiu a libertação dos reféns e saída dos CoRe da Aurora, mas Bishop ria das exigências, dizendo que estava disposto a discutir os termos dessa negociação em pessoa. Ele disse que abriria o portal para apenas Snickers passar, mas se a Vanguarda tentasse qualquer coisa, ele executaria os reféns e partiria da estação, pois sabia da reputação dos tripulantes e não se atreveria a enfrentá-los diretamente. Snickers concordou em atravessar o portal sozinho e secretamente deu a ordem para a tripulação tentar algo para salvar os reféns.
Os minutos que se passaram foram terríveis. Bishop estava com todas as cartas nas mãos, não havia forma de chegar a Aurora sem ser notado pela tecnologia futurista dos CoRe. Piorava o fato de eles terem tido contato com os membros da Vanguarda e suas habilidades na Terra, nós sabíamos que eles teriam salva-guardas para nossas habilidades particulares. Magni insistia em agir, mas Moonshadow argumentava a inutilidade do ato. Quantum calava-se resignado. Logo, o portal abriu-se novamente e um Snickers desacordado fora jogado de volta para a Vanguarda. Antes de Magni tentar qualquer ação improvisada, Moonshadow fechou o portal, cortanto o contato com a aurora.
Quantum tratou as feridas de Snickers, feitas com precisão para desacordá-lo sem matá-lo. O capitão da Vanguarda estava claramente decepcionado com nosso desempenho nessa crise, eles já haviam vencidos situações muito mais críticas, mas ficaram completamente encurralados e divididos agora. Ele disse que Bishop dera três dias terrestres para que resolvéssemos nossa posição quanto a negociação e que agora, com os recursos que tínhamos, não adiantava insistir nesse resgate. Ordenou então que retornássemos à busca dos Arkitetos, sob protestos de Magni.
Quantum explicou que as assinaturas energéticas rastreavas levavam a duas coordenadas universais. Starman, que olhava para tudo com incrível calma, surpresa e curiosidade, disse que um dos lugares possuía uma serenidade transcendental, enquanto o outro era dominado por mudanças caóticas a todo instante. Sem questionar muito os supostos sentidos cósmicos do bardo espacial, ordenou que programasse o motor de portais para irmos ao local caótico. E assim partimos, com o gosto amargo da derrota ainda em nossas bocas.
Logo que a Vanguarda emergiu do portal, sabíamos que algo estava errado. O que encontramos fora um planeta deserto, com uma atmosfera respirável rarefeita e tomado por radiação. Não havia nada em milhares de quilometros até nossos sensores captaram presenças vivas. Encontramos um aglomerado de pessoas, aparentemente uns 30 humanos, todos sentados imóveis no solo quente e trajando apenas leves panos. Logo identificamos de quem se tratavam, eram os arkeontes das casas hindus, que haviam abandonado a Terra via uso do Artefato de Legado olimpiano, a Carruagem do Sol.
Senti o desconforto e descontentamento de Snickers, ele sabia que havia sido desobedecido pois aquele não era o local caótico descrito por Starman, mas o pacífico. Sua confiança já abalada pela derrota anterior tomou outro grande golpe. Vasculhando as demais mentes, não localizei de imediato quem poderia ter alterado as coordenadas, mas a dedução ficou fácil. Apenas duas pessoas na Vanguarda cujas mentes eu não entrava, Starman, que estava claramente alheio a qualquer opção, e Moonshadow, cujos pensamentos eu evitava captar por segurança. Provavelmente o androide tecnorgânico discordou da lógica da decisão do capitão e agiu por conta própria, impondo sua vontade e controle sobre a Vanguarda.
Snickers ordenou que pousássemos e nos equipássemos contra radiação a fim de investigar melhor. Já estávamos lá, cabia entender melhor a situação. Descemos, seguindo o rastro energético dos arkitetos pelo equipamento de Quantum. Os arkeontes sem poderes estavam debilitados, aparentemente não se alimentavam a muito tempo e a radiação já queimava suas peles profundamente. Mas eles não pareceiam se importantar, completamente entregues a uma meditação profunda. Apenas sabíamos que estavam malmente vivos pelos sensores biométricos, que mostravam leituras fracas.
Logo observamos que todos estavam voltados para três formas que estavam sentadas no centro do grupo. Eram o Trimurti, Shiva, Brahma e Vishnu, o trio que agira como arkiteto e pai celestial daquela casa. Eles estavam muito diferentes dos demais, seus poderes não haviam sido tomados pelo Protocolo Arkis, provavelmente por influência do Selo que eles controlavam, e logo mostravam saúde e presença incomparáveis. Eram indiscutivelmente seres divinos. Nos aproximamos e pedimos uma audiência com eles, e então eles responderam. Montavam cada frase juntos, onde Brahma começava, Vishnu completava e Shiva encerrava. Era confuso, mas rapidamente pegamos o ritmo da conversa.
Snickers e Quantum pediam insistentemente ajuda para destravar o selo de Odin, pois o Evento Zero, mas o Trimurti não parecia se importar, apenas desfazia todos os pedidos e súplicas orientando que nos sentássemos e meditássemos, pois nada seria alcançado com violência e excesso de ação, que o Evento Zero era efêmero e que logo todos se elevariam até Brahman, a completude do ser. Tentávamos argumentar, mas parecia que o Trimurti não escutava, foi quando percebemos que Cinetic já estava entre os arkeontes, sentado e meditando da mesma forma. Vega tentou despertá-lo e percebeu que ele não despertava e malmente respirava. Ela desesperou, mas mesmo nisso ela estava estranhamente calma, todos estávamos. Nosso desespero parecia ter encontrado uma forma nova, a da inação.
Moonshadow retornou a Vanguarda e rapidamente resgatou o Olho de Odin do painel. Retornando com ele, o pôs em contato com Cinetic, que despertou de subito como se acordasse de um pesadelo. Percebemos que o Trimurti e seu Selo estavam provocando isso e que o poder equivalente do Olho era capaz de se contrapor.
Snickers decidiu arriscar mais uma vez, preparando a mente com rituais rúnicos e entrando no transe meditativo. Horas se passaram e ele não despertou nem nada falou. Entendemos que Snickers também estava preso no transe, como Cinetic ficara. Encostamos o Olho nele também, mas para nossa surpresa, ao invés de despertar, Snickers foi dragado para a Fonte de Mimir. A surpresa nos tomou a todos, mesmo Moonshadow não compreendeu o ocorrido. Em uma rápida investigação, sabíamos que Snickers estava bem dentro do Olho, mas por algum motivo desconhecido, ele não queria sair do mesmo.
A dúvida tomou o grupo, sentiam-se cada vez mais divididos. Decidimos então abandonar aquele lugar e partir para as outras coordenadas encontradas pelo rastreador de Quantum. A Vanguarda acionou o motor de portais e, sem nenhuma interferência dessa vez, partimos para o setor espacial indicado, praticamente no ponto mais extremo do universo, além dos mapas estelares conhecidos.
Esse novo setor espacial fora bem diferente. Caótico era uma palavra pobre para explicar. Víamos um imenso rio saindo de um sol, correndo anos-luz por paredes de uma pedra e um chão invisível em pleno espaço, sobre ele, as raízes de uma árvore do tamanho de um planeta faziam arcos decorados com flores de vários tipos. Ao longo do percurso, víamos perfeitas esculturas geométricas feitas dos mais diversos e impossíveis materiais, víamos algo que parecia a superfície de um planeta descascada e desenrolada como Cinetic fazia com as laranjas na Vanguarda e, o que surpreendia, é que era possível perceber que havia vida nesse espaço tão inexplicável. Notávamos que mesmo os nossos sentidos nos enganavam, as noções de distância e perspectiva era diversas vezes ludribriadas com a física caótica do lugar, os sons que atravessavam o vácuo e a couraça da Vanguarda despertavam sensações olfativas em nós. Toda aquela loucura só fez sentido quando Hefestos, num lampejo de lucidez, balbuciou: Atlântida.
Seguíamos o imenso rio espacial, ainda monitoriando o rastro da assinatura energética dos Arkitetos. De repente, o rio teve suas margens rapidamente ampliadas, tornando-se um imenso lago e suas águas começaram a ser mover em uma intensa espiral, formando um maelstrom. O fundo do maelstrom ia se abrindo e se aproximando, logo revelando abaixo uma cidade flutuante no espaço sob o rio, que não havia nada originalmente. Na cidade, que parecia uma Grécia terrestre evoluída com tecnologia incompreensível, era possível ver centenas de pessoas caminhando e levando suas vidas normalmente, alguns até acenavam para a Vanguarda, dando boas vidas. Eram os arkeontes atlantes, cujos poderes também foram tirados pelo Protocolo Arkis, mas que viviam em sua cidade sob a proteção dos Arkitetos que ali permaneciam.
Pousamos a Vanguarda numa grande via que estava vazia. Logo, a via encurtou-se instantaneamente e sem qualquer impacto ou choque, como se tivéssemos visto uma ilusão de ótica quando descemos. No fim da via agora curta, o chão se abria e duas figuras humanóides gigantes emergiam em tronos feitos de matéria impossível. Hefestos apontava para um deles, dizendo ser Angni-Locus, seu mestre. Sabíamos que a outra era Esper, que segundo a consulta com Mimir, estava também na Atlântida governando.
Esper nos deu as boas vindas e agradeceu o trabalho duro da Vanguarda em trazer o Selo de Odin para seu devido lugar, ordenando que nós o entregássemos. Contestamos, dizendo que precisávamos da ajuda deles para destravar as informações sobre o Evento Zero. Esper dizia que aquele não era assuntos para mortais, apenas para aqueles que transcendessem a existência e se aproximassem dos Devasimari e, novamente requereu o Olho de Odin.
Fomos surpresos quando notamos que Moonshadow já estava fora da Vanguarda, carregando o Olho de Odin até os Arkitetos enquanto fazia solicitações mais pessoais. Ele dizia que era único no mundo, além de uma anomalia temporal, e que todas as suas tentativas de se reproduzir só resultaram na expansão de sua consciência, mas ainda continuava sozinho. Esper dizia que isso era insignificante para ela, mas que ele estaria bem visto por ela assim que ele entregasse o Olho, e moveu sua enorme mão para buscá-lo.
A revolta consumiu todos na Vanguarda, e Vega saiu em altíssima velocidade para tomar o Olho de Moonshadow, que não fez nenhum esforço para mantê-lo. A Arkiteta se enfureceu e partiu para o ataque, como uma deusa destruidora. Magni gritava para Vega dar o Olho para Defensor, ele era capaz de cruzar o universo em instantes e provavelmente estaria fora do alcance de Esper. Defensor decolou ao pegar o Olho, mas então Esper foi atrás, numa velocidade ainda mais impressionante.
Em poucos instantes, Defensor foi lançado de volta a Atlântida, atravessando quatro camadas de pisos flutuantes até parar numa enorme cratera fumegante. Os demais tripulantes partiram para a ajuda, Magni portando o Mjolnir, Vega e Cinetic atacando com seus poderes, Toro descarregando tudo o que podia com suas armas, Manopla Estelar controlando aço e metal tentando restringir os movimentos dela, Starman tocava sua guitarra cósmica cujo som parecia abalar a Arkiteta e tirar-lhe a concentração, Quantum pilotava a Vanguarda e fazia uso relutante de suas habilidades de probabilidade, tentando mudar a balança do combate. Tudo isso em conjunto parecia apenas atrasar Esper, que derrubava os ataques e defesas do grupo com meros acenos de mãos, enquanto bradava que o amor e a força de Atlântida estava com ela, ela jamais morreria ou seria derrotada por pequenos mortais ignorantes de sua posição.
Moonshadow ficou apenas observando e voltou-se para Angni-Locus, que assistia o combate com um sorriso no rosto. Moonshadow o questionou se ele não agiria e ele apenas respondeu que Esper possuía um temperamento explosivo e fica maravilhado com o desenrolar dele, mas não permitiria consequências graves. Moonshadow perguntou ao arkiteto se ele poderia destravar as informações em Mimir, pois foram levados a acreditar por Hefestos, seu discípulo, que eles poderiam fazer. Angni Locus respondeu com uma estranha afirmação, nunca houve um Vyn chamado Mimir que Odin prendeu no Olho, apenas sabia que seu benfeitor secreto tinha seguido Odin após terem conseguido selar Arkis e criar os 7 selos.
Moonshadow indagou, mas Angni Locus o pediu para ter atenção para um momento único. Ele levantou-se de seu trono e dirigiu a palavra aos cidadão da Atlântida, que oravam pela vitória de Esper, dizendo que mais uma vez, infelizmente, eles falharam em evoluir e alcançar uma existência superior, e agora teria de recomeçar de novo, reconfigurando-os numa nova forma a fim de tentar transcenderem a mera existência unidimensional. Traçando estranhos simbolos e equações luminosas no ar, todos os arkeontes da Atlântida foram elevados ao céu como que por uma poderosa telecinésia. Então, seus corpos, orgãos e até células foram separados. Uma cena muito parecida com a que vimos na visão do Evento Zero tida por Vega dias atrás. Embora não fossem mais que uma massa amorfa, o som de suas orações não paravam e Esper continuava a alvejar os tripulantes com poderosíssimas rajadas cósmicas. Defensor recobrava-se e entrava novamente no combate, usando sua aura cósmica para proteger e reforçar os demais tripulantes.
Aos poucos a massa de celulas ia se reconfigurando, dando origem a uma multidão de novos seres, híbridos entre homens e animais dos mais diversos tipos e planetas. Simplesmente não havia dois seres parecidos e mesmo os números deles eram diferentes, como se, em alguns casos dois seres tivessem tornado-se um e um tivesse sido separado em dois. Os novos atlantes, homens-animais, retornavam a uma forma física e mantinham-se em uma oração conjunta. Moonshadow estava estarrecido, pude ver que ele relutou em pedir a Angni Locus para ajudá-lo, pois temia que experimentos insanos ele poderia tentar.
Inesperadamente, a situação do combate mudou. Magni desferia golpes cada vez mais poderosos contra Esper, que cambaleava tonta. Starman mantinha uma música intensa, confusa e penetrante que não deixava a Arkiteta pensar. Cinetic, Manopla Estelar, Defensor e Vega mantinham uma artilharia continua, sem pausas ou hesitações. Esper então focou toda sua atenção em Magni e seu martelo, sabendo da ligação entre um Artefato de Legado e seu usuário, lançou um poderoso ataque contra o Mjolnir. Magni estava perto demais para evitar e, por um instante, jurei que o tinha perdido para sempre.
Vega, no entanto, fora mais rápida, lançando-se na frente do ataque. Seu corpo foi partido em dois, para o desespero de todos. Magni viu novamente a cena de sacrifício que Lucky Wei fizera no mundo alternativo no qual batalharam contra os Umbrelanos. A fúria e vingança moveu seu braço, levando o Mjolnir num poderoso ataque. Ele sentia que seu movimento estava ainda mais rápido do que seria possível, foi quando vira os olhos vermelhos e enraivecidos de Cinetic, acelerando psiquicamente o martelo de Magni para fazer justiça a sua heróica mãe. O martelo rompeu todas as defesas de Esper, e aterrissou em sua pele como um meteoro. O peito da Arkiteta abriu-se, revelando costelas de mármore e um jorro de sangue negro que mais parecia o espaço sideral, repleto de estrelas. O corpo de Esper tombou duro no chão, mas as orações a ela não paravam.
Defensor gritava logo em seguida. O sangue galático parecia procurá-lo e envolvê-lo. Ele tentava conter seu poder, mas estava claramente sendo sobrecarregado. Magni correu até ele e disse para direcionar a energia para o Mjolnir, como forma de se aliviar de tamanho fardo. Defensor, incapaz de pensar com clareza, o fez. Todavia, para nossa surpresa e desespero, o Mjolnir não foi capaz de suportar e estilhaçou-se em centenas de pedaços. Defensor caiu desacordado e esgotado. Magni cambaleava sem ar, segurando com uma mão seu peito enquanto sentia sua vida se esvair. Eu queria abraçá-lo, salvá-lo, mas minhas pernas e minhas mentes estavam atordoadas com tudo que houvera.
Angni Locus reduziu-se a uma forma de tamanho equivalente a um humano comum. E aproximou-se balançando a cabeça em reprovação enquanto olhava para o cenário devastado. Com rápidos gestos, tecendo novas equações no ar, recompôs a cidade dos danos causados. Com outro, mais elaborado e demorado, fez as duas metades de Vega se reuniriem e sua vida retornar ao corpo. Cinetic ainda tinha lágrimas no rosto enquanto abraçava sua mãe. Olhou para Magni, tentando compreender sua aflição e logo reconhecera o Mjolnir. Com um sorriso de escárnio, fez uma nova equação e diante de nossos olhos, os fragmentos do Mjolnir se reuniram formando novamente o martelo, não mais com as fissuras provocadas por Gungnir, mas como se estivesse recém saído de sua forja cósmica. Magni respirava, a cor voltava a seu rosto enquanto apanhava seu martelo e entova rápidas palavras de agradecimento. Minhas lágrimas corriam livres em minha face aliviada.
Ele então voltou-se para o corpo de Esper, repreendendo a arkiteta pelo seu temperamento, e novamente traçou equações no ar. Entretanto, nada aconteceu. As orações pararam. Angni Locus insistia, cada vez mais frenéticamente. A expressão de escárnio foi substituída por uma de terror, enquanto ele repetia “não” e “é impossível” cada vez mais alto. Nos reuníamos o observando e logo ouvímos que ele falava algo sobre Esper não poder morrer, pois senão “ele” os descobriria. Logo vi na mente de Magni a certeza de quem ele estava falando, mas antes que ele pudesse falar, ouvimos uma conhecida e sombria voz.
O Inominável apareceu na Atlântida, agradecendo a Magni por ser um bom arauto. Angni Locus se afastava apavorado. O Inominável o acusava por ter-lhe roubado seu rosto, seu nome e sua existência e se movia com visível fúria em direção ao Arkiteto, enquanto formava uma foice em suas mãos. Magni se interpôs, pedindo que o Inominável lhe concedesse misericórdia para que ele pudesse ajudá-los a entender o Evento Zero. A Morte Encarnada, todavia, estava irredutível. Moonshadow aproveitou o instante conseguido por Magni e perguntou a Angni Locus o que ele quis dizer com não existir Mimir. Angni Locus, vendo algum lampejo de esperança nas palavras do andróide, disse que para destravar a informação bastava revelar a verdadeira identidade de Mimir. Quando Moonshadow questionou como fazer isso, Angni Locus respondeu, voltando-se para o Inominável que se aproximava, “apenas pergunte”.
Nos instantes que se seguiram, Magni, Vega, Manopla Estelar, Cinetic e Toro se interpunham entre o Inominável e Angni Locus. Starman observava tudo com o assombro de quem estava vendo um espetáculo. E Moonshadow e Quantum correram até o Olho de Odin, caído ao lado de Defensor, e ao tocar nele, ambos foram transportados para a Fonte de Mimir. A batalha estava apenas começando…

View
Arkis: Underdogs - Epílogo
Tales of The Underdogs

Inside a Bloody Hell

New York, em um universo paralelo, 5 de maio de 2032

Ele acordara finalmente. Djinn estava feliz de ver Bleach despertar, por saber que ele estava melhor, e por finalmente ter alguma companhia. Ela estava esperando no alojamento em que eles haviam sido deixados havia algumas horas, e Alexander Tanus, que os trouxera ali, ainda não havia retornado para as explicações que ele lhes havia prometido.
Neil estava confuso e ainda sentindo muita dor. Ele sentira como se parte dele tivesse sido arrancada, e como se ainda estivesse sendo drenado, ainda que lentamente, de suas forças, de sua existência, de si mesmo. Enquanto se recompunha, Djinn lhe explicava que, pelo que pudera entender, eles estavam em outro mundo, num espécie de versão alternativa de New York, e que aquele mundo aparentemente era dominado por demônios ou algo similar.
Quando ela terminava de explicar o pouco que observara, Alexander retornou, acompanhado por um homem alto, de cabelos ruivos, tatuagens celtas e aparência feroz. Sentado numa cadeira em frente a eles, ele observava os dois em silencia, até que começou a falar.
“Sabe, não sei qual de vocês dois me intriga mais. Você, seu nome é Djinn, certo? Estou muito impressionado com seu poder. Veja, eu tenho um dom, o de perceber pessoas com poderes. Eu as sinto, mesmo que sejam invisíveis, e com os anos refinei minha capacidade ao ponto de ser capaz de distinguir o tipo de poder, e até mesmo identificar uma pessoa com base em seu padrão de poderes. É por isso que eu sei que seu amigo aí, Bleach, não é isso?, é um dos ‘viajantes’, como nós os chamamos aqui.
Mas, no seu caso, moça, eu não sinto seus poderes. Na verdade, eu nem percebo sua presença. Se você não estivesse aqui na minha frente, eu não seria capaz de dizer que você existe. Pelo que você me explicou, seu poder é psiônico por natureza, daí você ter se conectado a ele de alguma forma quando ele fez a transição dimensional, mas me parece que seu poder de desaparecer é tão poderoso que ele consegue ocultar a si mesmo de minha percepção.”
“Viajantes” Bleach interrompia, impaciente. “Do que você está falando? Que lugar é esse?”
“Venham conosco. Alguém vai explicar tudo para vocês.”
Eles acompanharam os dois pelos corredores do que parecia ser uma base subterrânea. Passaram pelo que parecia ser uma pequena galeria, com placas de metal gravadas com nomes, alguns dos quais eles conseguiam reconhecer:
[…]
Prometheus
Reflexão
Pretor
Arthur Quest
Impacto
Tesseract
Coronel Charles Rohr
[…]
Neil se deteve, olhando as placas. Dezenas delas, todas com nomes de heróis, famosos e desconhecidos. Como nos pesadelos que ele vivenciara, todos haviam morrido.
“O que aconteceu aqui? Como todos eles morreram?”
“Eles foram mortos. Alguns morreram nos conseguindo muitas das informações que vamos lhes contar.” Alexander falava olhando para uma placa. “Descanse, velho amigo.”
Na placa podia-se ler:
Hai To Lee
__________________________________________________

Eles chegaram na entrada de uma sala, uma espécie de cela de contenção.
“Nosso gênio está aqui, mas ele precisa ser mantido nessa sala isolada por segurança. Olhem onde pisam quando entrarem.”
Entrando, eles viam que, por dentro, a sala era completamente acolchoada. Um jovem, que estava sentado num canto, levantou-se para cumprimentá-los. Bleach sentiu-se desequilibrar, como se o peso de seu corpo fosse aumentado e reduzido em uma questão de instantes, levando a cair no chão.
“Me desculpe por isso.” Era o jovem que falava. “Meu poder envolve a manipulação de características físicas das coisas, notadamente a densidade, mas eu não tenho o menor controle sobre ele. Assim, em minha presença, coisas quebram, pessoas desequilibram, isso quando não há explosões aleatórias envolvidas. É difícil ser o último cientista de nosso grupo de resistência quando se é um desastre vivo. Essa sala de contenção teve que ser construída seguindo instruções enquanto eu ficava bem longe dela até ficar pronta. Não posso oferecer uma cadeira, mas sintam-se livres para sentar-se no chão. Meu nome é Johhan Allen.
Alexander me contou sobre vocês. Você deve estar se perguntando o que está acontecendo aqui. Como vocês podem ter percebido, este não é o seu mundo. Nós sabemos de seu mundo pelas informações que obtivemos dos espiões que tínhamos na base de nosso Algoz, e pelos raros viajantes dimensionais com quem já tivemos contato.”
“Legal, muito lindo, mas isso não explica nada.” Bleach já estava impaciente. A sensação de estar perdendo a si mesmo continuava, e ele não entendia o que estava acontecendo.
“Bom, vamos ao que sabemos, desde o começo. Há milhares de anos atrás, existiu, aparentemente em seu universo, pelo que pudemos entender, um ser chamado Janus. Não sabemos exatamente o quê ele era, mas Janus era um ser formidável, com imensos poderes e dotado de um intelecto genial. Ele criou diversas tecnologias, pelo que sabemos, muitas ligadas a teleporte e viagens dimensionais, e tinha diversos laboratórios secretos em microdimensões onde estocava equipamentos e informações.
Em algum momento num passado distante, Janus fez um experimento, um experimento que deu enormemente errado, pelo que podemos perceber. Não sabemos exatamente o que ele pretendia, mas certamente tinha relação com viagens dimensionais. O fato é que, em sua falha cataclísmica, Janus teve sua essência esfacelada e espalhada por vários tempos e em várias partes do universo, e até mesmo em universos adjacentes, como é o caso do nosso. Aparentemente, embora não tenhamos detalhes sobre como aconteceu, o corpo de Janus foi destruído, e sua alma fragmentada acabou se incrustando em diferentes seres, cada um contendo uma parcela.
Esses são os que nós chamamos de ‘Viajantes’. Até onde pudemos entender, essas pessoas que compartilham uma porção de Janus desenvolvem poderes dimensionais e a capacidade de acessar suas energias e seus depósitos de equipamentos. Aparentemente, eles também são constantemente atraídos em busca das outras parcelas, como se a alma tentasse voltar a ser uma só.
Acontece que uma dessas parcelas transcendeu a barreira dimensional e caiu aqui no nosso mundo. A pessoa que recebeu essa parcela, por muito tempo nada suspeitou sobre a origem do seu poder, afinal haviam outros heróis como ele em nosso mundo. Blaster, como ele era chamado na época, tinha o poder de disparar rajadas de energia, e era, apesar de ambicioso e temperamental, um dos mocinhos.
Tudo mudou quando ele teve contato com outro dos ‘viajantes’. Aparentemente, esse outro tinha poderes mais caóticos, que o haviam feito catapultar por vários lugares, dimensões e tempos. O fato é que, quando eles tiveram contato, ‘algo’ acordou dentro de Blaster. Ninguém soube disso à época, somente depois fomos juntar as informações e entender o que aconteceu, mas aí já era tarde demais.
Um desejo incontrolável tomou Blaster, uma fome de poder, um desejo de se tornar mais e mais o todo de que ele continha parte. Ele aprisionou o outro viajante, fez experimentos com ele, dissecou-o pelo que pudemos saber, até que ele conseguiu ‘entender’ o funcionamento do processo e desenvolveu uma forma de absorver a essência de Janus que estava no outro.
Quando isso aconteceu, ele cresceu muito em poder, mas manteve isso sob segredo. Ele percebeu que as partes se atraíam e começou a usar seus poderes para atrair outros e absorver suas essências. Quanto mais ele absorvia, mais louco e poderoso ele ficava, mas só percebemos isso quando já era muito tarde. Ele destruiu os heróis e exércitos que se opuseram a ele, e estabeleceu uma base no leste da Europa, onde era a cidade de Riga.
Para piorar a situação, ele sequer precisa mais estar na presença de outros ‘viajantes’ para absorver suas essências, é como se elas fossem sendo drenadas para ele. E os efeitos colaterais são terríveis. ‘Viajantes’ parcialmente drenados vão sendo deformados e enlouquecidos pelo roubo de suas almas. Eles perdem suas memórias e vão se tornando seres caóticos, movidos pelos seus poderes dimensionais. Curiosamente, todos acabam adotando a mesma alcunha: Blood.
Apesar de que, nesse estágio, o Algoz – é assim que nós o chamamos agora, apesar de que ele se auto intitula Janus – não os controla diretamente, eles são influenciados por sua personalidade doentia, e se tornam mais e mais cruéis e erráticos.”
“Blood?! Mas Registros indicam a presença dele em alguns eventos recentes de nossa história.”
“Provavelmente foram até indivíduos diferentes. Eles vagam pelas dimensões, sofrendo dor e loucura, por algum tempo agindo coerentemente, mas muitas vezes sendo apenas vetores de caos. Esse estágio, ‘Blood’, só dura um tempo, enquanto a essência ainda não foi completamente drenada. O pior vem depois.
Quando a casca vazia do que foi um indivíduo é deixada sem nada de sua alma ou essência, apenas resta lá dentro a loucura do Algoz, e esse poder deforma a criatura completamente, transformando-o nos demônios que vocês viram lá fora. Eles são ainda mais caóticos que os ‘Bloods’, apesar de que o Algoz desenvolveu, junto com um de seus generais, uma forma de ter certo controle sobre eles.
Enfim, nós já encontramos com alguns ‘viajantes’ arrastados aqui para o nosso mundo antes, mas todos já estavam no estado de Blood, ou à beira do colapso, e nunca conseguimos interromper o processo. Alexander consegue reconhecê-los com seu dom, e ele me garante que nunca tinha encontrado alguém como você, que ainda está no controle completo de suas faculdades e sem sinal aparente de deformações.
Eu entendo que o que estamos lhe falando pode ser muito para processar de uma só vez, mas acredito que nós todos queremos a mesma coisa. Nós vamos lhe dar um tempo para pensar no assunto, mas nossa proposta é que você se junte a nós. Se eu puder estudar seus poderes, talvez possamos ajuda-lo a se estabilizar e se isolar da influência do Algoz, e ao mesmo tempo podemos aprender uma forma de enfrentá-lo.”
Caleb – o homem ruivo – os escoltou de volta ao alojamento onde eles estavam. Bleach pensava em tudo aquilo que ouvira. E se fosse tudo mentira? No fundo, no entanto, ele sabia que era verdade. Ele sentia aquele abismo chamando-o. Sentia aquela espiral de loucura querendo tomar-lhe a mente e a alma. Ele sabia, do entremundos, que a intervenção de Timothy fora o que o preservara até então, a razão de ele ainda estar no controle. E ele reconhecia nos olhos de Djinn a expressão da mulher que povoara seus sonhos no outro mundo. Seria ela a “outra ajuda” a que Timothy se referia?
Djinn, por sua vez, sentia-se assustada com tudo aquilo, mas agora ela entendia o que Golden Boy falara semanas antes, e ela aceitava a missão que Alá lhe enviara. Ela não pudera salvar seu tio, não pudera impedir seu ataque, mas ela ajudara Hellen, e agora tinha uma missão ainda maior: salvar Bleach da perdição. Ajudá-lo a escapar de ser transformado num daqueles demônios. Ela agora tinha um novo propósito, e isso a fazia sentir-se plena.

Legacy

São Paulo, 20 de maio de 2032

Enfim Neal havia conseguido uma reunião com o professor Fernando Oliveira, C.E.O. e cientista chefe da Corporação Guardião. O professor olhara com certa curiosidade quando ele lhe entregara o dispositivo transmissor de Prometheus, e explicara que esperava que alguém mais velho lhe procurasse com aquilo, mas assentira quando Neal lhe contara que ele era a reencarnação de Pax Suprema.
Eles partiram para um laboratório secreto em outro lugar, totalmente desassociado da empresa, segundo Fernando. O lugar parecia um bunker, preparado para operar isoladamente por semanas se fosse necessário.
“E essa é uma dentre várias bases que Willian preparou quando soube de sua doença. Aqui, sob minha proteção, estão muitos dos experimentos que ele considerava sensíveis, mas ele preparou outros pontos de apoio para que aquele que o fosse suceder pudesse ter recursos à mão.”
Fernando explicara que, pelo testamento de Prometheus, o próprio Fernando herdava as ações dele da Mythostech, o que faria dele o principal controlador, mas eles tinham consciência que várias forças se interporiam para impedir tal concentração de poder, em especial nas mãos de um estrangeiro. Assim, eles haviam desenvolvido um plano de contingência, que envolvia a progressiva transferência de controle para outro grande empresário, Russel Southampton, da Ankh Corporation. Dessa forma, o governo inglês ficava mais tranquilizado, e o resultado da troca – que consistia, entre outras manobras, de uma substituição de papeis ordinários por preferenciais – permitia que o afluxo de lucros da empresa ajudasse a financiar as ações do sucessor de Prometheus até que ele pudesse – se fosse essa sua linha de ação – reassumir a empresa.
“Nossa, da forma que você descreve, é como se ele tivesse planejado movimentos anos à frente.” Neal comentava.
“Exato.”
Por fim, o professor o conduziu até um equipamento, e explicou que aquela máquina era o que faria a transferência do conhecimento gravado por Prometheus. Ele explicou que o processo só poderia ser feito uma vez – os requisitos de energia eram imensos e o risco muito alto – mas que deveria ser realizado em etapas, com intervalos.
“Acelere o processo demais, e seu cérebro simplesmente não aguentará.”
“E quanto tempo deve levar até completar o processo?”
“Eu estimaria no mínimo uns cinco anos, já que você não pretende viver dentro do laboratório, suponho.”
O tempo era mais que Neal imaginava ou desejava, mas o professor estava certo. Ele não poderia concentrar-se somente naquilo. Havia muito a ser feito, e ele teria que aproveitar os tempos de repouso entre uma sessão e outra para dar seguimentos a outros projetos. Sua responsabilidade, ele sabia, era grande demais.

New Life

Sacramento, CA, 30 de maio de 2032

“Tamanha destruição”, ele contemplava e pensava. A cada instante ele se convencia de que sua decisão era a melhor. Lutas fenomenais, ameaças imensuráveis aconteceriam eventualmente, mas a necessidade de reconstruir o que fora destruído, de restaurar a normalidade na vida daquelas pessoas, isso era uma necessidade constante.
Por isso ele estava ali. Sarutahiko erguia o enorme bloco de concreto, para que as buscas pudessem continuar. Era impressionante quanto de escombros ainda restava após o ataque à California, e era um milagre como alguns raros sobreviventes ainda eram encontrados. Dali a algumas semanas, ele estaria reunido às autoridades locais no esforço de reconstrução, tanto nas obras propriamente ditas quanto realizando ações promocionais para angariar fundos.
Ironpunch o acompanhara, como havia prometido. Além de se sentir em débito, Jack Stappler dissera que esse novo caminho que Yokozuna adotara havia lhe mostrado como ele fora fútil até então. Era hora de fazer o seu melhor.
“Parece que acabamos aqui, chefe.” Jack passara a chama-lo assim, apesar de insistentes pedidos em contrário.
“Sim, mas ainda há muito trabalho a se fazer. Ao menos, parece-me que, por enquanto, essas pessoas vão ter um pouco de paz.”

Frozzen Soul

Numa galáxia congelada impossivelmente distante, 31 de maio de 2032

A imagem olhava para ele de volta, e respondia suas perguntas com frieza. Não era como ele lembrava. Nevasca, apesar de seu nome e constituição, sempre fora um herói caloroso, e uma alma genuinamente bondosa.
Aquele simulacro à sua frente, construído a partir de memórias e impressões era não mais que um boneco com o qual ele podia conversar.
Alyosha sentia-se só, como se sentira apenas quando de sua primeira morte, antes de Nevasca habitar seu corpo por um tempo, antes de ele se tornar mais que um artista fracassado e morto pela penúria, antes de sua vida se tornar tão complicada como agora era.
Ele olhava as estrelas do céu, estrelas diferentes das de seu mundo. Observador de Estrelas, eles o haviam chamado.
Ele sabia que a verdade era outra. Não eram as estrelas que lhe concediam desejos. Eram seus desejos que as faziam cair. E ele não queria ser o causador de mais destruição, não queria se tornar novamente um monstro.
Por isso ele buscara o conselho de seu amigo morto, apenas para não encontra-lo.
Ele chegara a tentar adentrar os domínios da morte, mas fora impedido por uma força sombria. Quando insistira, a presença lhe apresentara uma pergunta: Ele realmente queria trazer Nevasca de volta? Para aquele mundo?
E ele recuara. O que quer que ele fosse fazer, teria de fazê-lo sozinho. Seu amigo merecia o descanso. Ele já havido provado seu valor.

Young Heroes

Chicago, 15 de janeiro de 2034

Chicago tinha um efeito interessante em Neal. Ele viajara por vários lugares do mundo esses dois anos, mas quando estava aqui ele se sentia nostálgico e, mais do que isso, era talvez o único lugar onde ela ainda conseguisse relaxar um pouco. Tudo estava ficando complicado demais. Enquanto esperava, incógnito, sentado num restaurante próximo à North Lake Shore, ele lembrava do encontro que tivera alguns dia antes.
Ele estivera investigando alguns crimes em Kansas City, e acabara envolvido num combate inesperado com dois extraordinários super-fortes. Ele vencera – seu treinamento com Pattmah o deixava cada vez mais preciso – mas não sem alguns hematomas e ferimentos, que o levaram o pronto socorro.
Lá, o médico que o atendera, que parecia apenas um pouco mais velho que ele, o olhava atentamente enquanto tratava de seus machucados.
“Se você se envolver em brigas assim sempre, eu tenho pena de seus pais.”
Neal desconversava, mas enquanto ele o enfaixava ele conversava sobre assuntos diversos. Era simpático, e uma pessoa que parecia genuinamente gentil e bondosa. Ao fim, quando ninguém olhava, ele lhe entregara um cartão.
“Você me parece uma pessoa com a cabeça no lugar, Neal, e eu sou um bom juiz de caráter. Sei que esses machucado aconteceram em alguma ação como vigilante. Não se preocupe, seu segredo está a salvo comigo, mas, em nosso mundo, fazer parte de um grupo pode fazer muita diferença. Ligue para esse número.”
“Obrigado, Dr. Goodman.”
Neal não sabia ainda que eles se tornariam grandes amigos, mas ligara para o número e ingressara no Programa: Jovens Extraordinários da Justiça Suprema.
“Sonhando acordado?” Erik chegou, disfarçado.
“Finalmente consegui encontrar vocês. Não posso demorar muito, mas ao menos podemos fazer nossa reunião. Belo disfarce, senhor ‘Cara Famoso’.” Era Alex que sentava na mesa.
Erik de fato precisava agora se disfarçar para sair em público sem ser notado. Alguns dias antes, ele ingressara para a E.I.E., e no anúncio público que fizera, ele revelara sua identidade – e a de seu avô – o que rendeu ainda mais assédio da população de Chicago. Ele agora era uma celebridade.
Eles conversaram tarde adentro, cada um contando suas recentes aventuras. Quando se arrumavam para sair – Alex tinha que voar de volta para o Havaí – uma confusão no hotel em frente chamou sua atenção. Aparentemente um assalto, com reféns. Eles se entreolharam, e cada um saiu em uma direção.
Chegando no topo do restaurante, Golden Boy via Thrust e Cinetic pousarem a seu lado. Os futuros guardiões da Terra, como ele falava.
“Vai uma carona aí?” Alex brincava.
“Então, qual o plano, sr. gênio?” Erik gostava de provoca-lo.
Era bom ver os três reunidos em ação, apesar de Neal sentir que aquela seria talvez a primeira e última vez que aquilo aconteceria em muito tempo. O mundo estava ficando muito complexo, e eles tinham caminhos muito diversos pela frente. Mas, ele se consolava com o pensamento, era tudo parte do plano.
“Vamos salvar algumas vidas.”

O Protocolo Arkis: Side Effects

Sacramento, CA, 15 de abril de 2036, 20 dias depois do Protocolo Arkis

Quando ele achava que havia encontrado seu lugar, uma nova reviravolta. Subitamente, sua força se fora, junto com todos os seus poderes. Isso talvez não fosse um problema tão grande, não fosse pela arma apontada para ele.
Sarutahiko contemplou a imagem do robô com formas levemente femininas, que fazia aparecer um canhão e preparava-se para fulmina-lo. Verdugo. Ele ouvira falar dos caçadores de arkeontes. Ele tivera sorte e se desviara do primeiro ataque, mas agora não tinha para onde fugir, acuado nos escombros de sua casa.
Algumas pessoas na rua tentavam interferir. Ele se tornara, depois de tudo, um herói e ídolo local por sua ação nos resgates e reconstrução, mas havia pouco que alguém pudesse fazer. Então, em alta velocidade, um soco atingiu o robô.
“Precisa de ajuda, chefe?”
Ironpunch chegava como uma bem vinda cavalaria, e não estava sozinho. Christopher Fate, que ele conhecia como Onyx – que Ironpunch havia ido buscar no aeroporto – o ajudava a se levantar.
“Quando eu me ofereci para vir ajuda-lo a se ajustar a sua nova condição sem poderes, não era bem isso que eu tinha em mente.”
Os três se prepararam para o combate, que eles sabiam que não seria nada fácil. Aquelas máquinas estavam dando muito trabalho para a E.I.E. e para os remanescentes da Justiça Suprema. Eles estavam em séria desvantagem ali.
Um disparo cortou o ar, atingindo o robô num dos olhos com perfeição. De onde parecia não haver ninguém apareciam cinco figuras: Chacal, Hellwrath, Alpha (Garrison Shiff), Stealth e Arakness (Alek Rannen). A Brigada Fantasma.
Um clone brutal, junto com Hellwrath arremeteram contra o Verdugo, que agora se via enfrentando um grupo altamente coordenado, com treinamento militar e poderes. A luta ainda poderia ser vencida, avaliava seu cérebro computadorizado, mas poderia ser perdida também. Assim, ela optou por recuar e buscar alvos mais fáceis.
“Droga, ainda não pegamos uma daquelas coisas!” Arakness reclamava.
Chacal e Yokozuna se cumprimentaram.
“Vocês estão caçando eles? Mas vocês não são alvos deles também?”
“Sim, por isso os estamos caçando. Vamos inverter esse jogo. Como nós somos parte humanos, nossos poderes não despareceram. De fato, acho que nossa relação os influenciou, e agora nós conseguimos usá-los em ressonância uns com os outros. Juntos, somos mais fortes. E você, o que pretende fazer?”
“Ainda não sei, mas estive pensando em voltar ao Japão. Encontrar outro caminho. Durante esse tempo todo eu tenho sido mais arkeonte que artista marcial, e talvez seja hora de retomar esse lado.”
Despedindo-se, Yokozuna viu quando eles desapareceram. “Boa sorte”, ele pensou. Nós vamos todos precisar.

New Orleans, 28 de abril de 2036

Dois dias fazendo vigília. Anos atrás, isso teria sido incômodo, constrangedor, mas agora eles já estavam habituados a trabalhar juntos. Nina continuava como freelancer, mas várias vezes era contratada como consultora quando a E.I.E. precisava investigar um evento sobrenatural ou místico. Invariavelmente, quando acontecia, era com James e sua equipe que ela trabalhava.
Ela não poderia achar isso melhor. De um início desconfiado e distante, os dois agora se davam bem. Se conheciam. Ele até mesmo se arriscava no papel de ‘irmão mais velho protetor’ – um tanto machista para a personalidade independente dela, mas ela não ligava. Ela tinha novamente uma família.
“E então? Já pensou na proposta?” Ele perguntava mais uma vez.
Nina não sabia bem como responder. A Agência tinha sido um bom fator, tanto no fato de trabalhar com seu irmão quanto para suas finanças, mas tornar-se uma agente em tempo integral era algo que a assustava. Perder sua independência. Virar parte do ‘sistema’. Ela não queria decepcionar James, mas também tinha medo de decepcionar a si mesma.
“Ainda estou pensando. Você sabe minha opinião sobre me tornar parte de uma força oficial.”
“Ok, sem pressão, então. Eu só insisto porque acho que você pode fazer muito mais, ser muito mais efetiva se fizer parte de um grupo. Opa! Nossa deixa.”
O suspeito saía do restaurante. Ak’een Red’tiar era tido como responsável por diversos assassinatos, todos envolvendo supostamente rituais e feitiçaria. Nina fez um encantamento e confirmou o que eles desconfiavam: vampiro. Eles partiram para efetuar a captura.
O combate inevitável aconteceu. A criatura, que até então se portava como um transeunte qualquer – de fato, com o porte e a classe de quem poderia ter sido um cavaleiro quando vivo – reverteu-se numa monstruosidade, invocando poderes místicos e lutando de maneira feroz.
Uma tempestade localizada os cercou, e entre os ventos, os ataques da criatura e a neve branca que caía, eles mal podiam ver o que estava acontecendo. Felizmente, aquela era uma equipe bem treinada. Nina recitava uma invocação voodoo para que os espíritos marcassem seu alvo. Jaxxan e Sonny, dois agentes sem poderes mas excepcionalmente treinados, cobriam o perímetro da tempestade, impedindo que o alvo conseguisse sair. James, co sua pontaria formidável, disparava, tentando incapacitar o agressor.
Um tiro feriu a criatura, que ainda assim não parou. Um segundo tiro se ouviu, e a tempestade parou. Com o peito sangrando e uma bala encravada em seu coração, Ak’een vomitava sangue em seus últimos espasmos de (não-)vida. Como sempre, James fora preciso. Mas então Nina viu. Uma estaca de gelo, dentre as tantas coisas que o monstro disparara, atingira James em cheio. Perfurara o traje protetor e, pela posição, atravessara seu pulmão.
“Rápido, peçam suporte! Nós temos que fazer alguma coisa! Não, James, não, agora não!”
O olhar dele tinha dor, mas lhe transmitia uma certa tranquilidade. Ele sempre vivera uma vida perigosa, mas era grato de ter podido se reconciliar com a irmã antes de partir. Em um esforço, colocou a arma em suas mãos.
“Herança… de família. Só você pode… usar. Se cuida.”
“Não, James, nós vamos cuidar de você, nós… vamos…”
Ela sabia que não adiantava mais. Ela estava só. Novamente.

Em algum lugar na dimensão dos tecnodemônios, 20 de junho de 2036

Eles se esconderam instintivamente. O veículo pousando, as hordas de demônios, tudo indicava que aquele lugar era por demais perigoso. Djinn já investigara nas proximidades do portal, mas não pudera chegar tão perto.
Uma hoste de demônios esperava ali, não se sabe se guardando-o, ou se aguardando para uma invasão. Ela, contudo, conseguira um vislumbre do outro lado, e pudera ver o que pareciam ser cavaleiros montados em dragões, também em posição de vigília. Ela chegou a ver, antes de ter que recuar para não ser percebida, que um homem aparecia e era cercado pelos cavaleiros, apenas para partir acompanhado de um cavaleiro de aparência sombria.
“Não sei quem era aquele pobre coitado, mas não restou muita coisa.” Bleach dizia quando ela voltou para junto do grupo.
O corpo despedaçado de um homem era carregado para dentro da nave, junto com o que pareciam ser alguns artefatos tecnológicos. Tudo sob a supervisão de um dos generais do Algoz.
“Ele!”
Era fácil reconhecer aquele homem. O louco que aprimorava os demônios e Bloods com implantes tecnológicos. O cientista que fizera experimentos com o próprio filho, e o tratara sempre como seu maior fracasso. O traidor que se vendera para o Algoz pela chance de seguir com suas experiências doentias.
Viktor Allen
Ele parecia estar estudando a fenda também, com seus equipamentos, mas o que ele estava fazendo exatamente a distância não permitia perceber.
Fragmentos de informação que eles haviam conseguido nos últimos anos davam conta de que este Viktor talvez tivesse contato com o seu equivalente no mundo de onde eles vieram. Se isso fosse verdade, e aquele portal fosse para lá, ele poderia até mesmo estar usando-o para se comunicar com seu aliado.
“Abaixem-se.” Jason sussurrava o alerta.
Juntos, ele e seu irmão James recitaram um encantamento de ocultação. Os poderes místicos dos dois, apesar de não serem muito potentes, eram muito úteis usados com sutileza.
Uma patrulha de demônios passou voando ao alto, mas não os localizou. Já era hora de recuarem, ali estava ficando muito perigoso. Eles esperavam que os dados conseguidos àquela distância fossem suficientes para Johhan fazer uma análise.
Enquanto partiam, Bleach seguia preso em seus pensamentos. Nesses últimos anos, ele sentia como se o ritmo em que sentia a drenagem houvesse diminuído. Ele ainda sentia algo de si sendo lentamente tomado, mas também se sentia mais capaz de resistir. Ele sentia que sua mente e a de Djinn estavam como que conectadas desde que haviam chegado ali, e sentia certo conforto na certeza de que eles estavam lutando juntos contra aquela influência.

Chicago, 20 de junho de 2036

“Você é competente, experiente, e já trabalhou conosco vezes o suficiente para sabermos que será uma excelente adição. Essa proposta já foi feita outras vezes, eu sei, mas eu vim aqui para repeti-la. Junte-se a nós. Nós estamos lutando por um mundo melhor, mais seguro. James acreditava nisso, ele me trouxe para cá.” Jake tentava evitar dar um peso emocional ao que falava, mas sabia que não falar no irmão de Nina naquela situação era quase impossível.
“Eu vou pensar, Shadow… Jake. Eu ainda preciso descobrir qual vai ser meu caminho daqui em diante.”
“Bom, você sabe onde nos encontrar”
Nina refletia sobre os últimos dias. Novamente a E.I.E. a convidava para integrar a Agência, e agora ela sabia que não era para trabalhar junto a James, mas para ocupar a vaga que ele deixara. Ela sentia-se compelida a aceitar, a seguir com o legado do irmão, ainda mais agora que estava treinando sua pontaria e aprendendo a usar a arma dele.
Mas ela recebera outra proposta também. Um homem batera à sua porta, identificando-se como Technomancer. Ele a convidara a ingressar para a Ankh Corporation. Lá, ele dizia, ela poderia lidar com pesquisas místicas e sobrenaturais, sua especialidade, e seus talentos seriam bem aproveitados.
Nina estava dividida. Dois grandes grupos a queriam, e ainda assim ela se sentia muito só.

Uma base escondida, 20 de junho de 2036

“Adeus, amigo.” Neal pensava. Ele pressentia que Alex estava deixando o planeta junto com a Vanguarda. Ele sempre soubera que os caminhos deles três – ele, Alex e Erik – seriam separados, ainda que eles estivessem unidos por um grande Plano.
No momento final, ele pensava, eles estariam trabalhando juntos, ainda que separados por distâncias impensáveis.
Seus pensamentos vagaram para outras paragens. Ele não conseguira nenhuma pista adicional do Soberano. Ele sabia que ele era real. Via suas sombras em toda parte. Suas forças preparando para um golpe tão violento que o mundo acabaria por se prostrar a ele. Mas ele estava oculto, muito bem oculto. Neal precisava estudar mais, treinar mais. Ele ainda não havia atingido seu Zênite. Ainda era apenas Golden Boy.
Com esse pensamento, ele se conectou novamente à máquina de treinamento. Ainda havia muito a aprender.

View
Arkis: Underdogs - Capítulo 04
Inheritors of War

Each one of us, alone, is but a drop in the sea
Our powers pale compared with the great heroes
Our battles don’t hit the headlines or shake the earth
But they are few, can’t be everywhere, and we are many
So, when the world, the universe needs saving, they appear
But when people needs saving, we are the ones who will come
We are underdogs, I know, but we rise up to the challenge of being heroes.

(Wishing Joe, in an interview)

Chicago, 18 de abril de 2032, poucas horas após o sacrifício de Prometheus

Neelanami olhava novamente para o pequenino receptor que acabara de se desligar após transmitir sua mensagem. Não bastasse estar ainda se recuperando após processar memórias de duas realidades divergentes, além de tudo o que descobrira sobre sua própria existência durante o breve lapso de instantes em que esteve num entremundos, outra reviravolta se lançava a seus pés, aumentando ainda mais sua responsabilidade.
Ele era o último herdeiro da linhagem espiritual dos Budas. E deveria agora também assumir a posição de herdeiro do legado intelectual de Willian Mnemosyn VI, Prometheus, uma das maiores mentes que a humanidade já produzira. A gravação fora bem clara:
“Quem estiver assistindo a essa gravação, esse transmissor deve ter chegado a você através de Pax Suprema. Como você saberá em detalhes em breve, eu venho, nos últimos anos, enfrentando uma doença incurável, e o fato de essa gravação se ativar significa que minha morte chegou enfim.
Assim, se meu tempo já passou, eu devo encontrar uma forma de que meu conhecimento não se perca. Junto a meu leal amigo, o Professor Fernando Oliveira, desenvolvemos um sistema, que foi implantado em meu cérebro, que vem armazenando meus conhecimentos, para que possam ser passados adiante para alguém capaz de usá-los para o bem.
Nós também temos tido o cuidado de estabelecer algumas pequenas bases secretas, onde eu tenho armazenado meus projetos mais sensíveis, para que você, como meu sucessor, possa estuda-los e dar continuidade ao que for necessário. Não é um caminho fácil aquele ao qual eu lhe convido. Uma grande dose de desprendimento será necessária, bem como coragem, pois o procedimento tem um alto risco. Eu confio que Pax Suprema escolheu alguém que será tanto capaz de enfrentar o processo, mas por em bom uso tudo o que eu levei uma vida aprendendo.”
A mensagem concluía instruindo-o a procurar o Professor Fernando Oliveira no Brasil, para iniciar o processo de aprendizado e transferência.
Neal começava a ver quantas esperanças eram depositadas nele e se preocupava – ele tinha muito pouco tempo para tornar-se o Buda que esse mundo precisava. Ele sabia que algo gigantesco estava por vir e sabia que seria breve. Conseguiria estar pronto a tempo?
Ele desceu as escadas e se dirigiu para a porta – Pattmah retornara e dissera que havia algo a lhe mostrar, algo que trouxera de sua viagem. Na passagem pela sala, deteve-se diante da TV. O noticiário local falava da recente sequência de ações heroicas do segundo Thrust, reacendendo nos cidadão de Chicago o orgulho por um de seus heróis mais ilustres. “Muito bem, Erik” ele pensou, “faça valer seu legado.”
______________________________________________________

Chicago, 21 de abril de 2032

Na saída do tribunal, os repórteres o rodeavam, questionando seu envolvimento em tudo o que havia ocorrido.
“Eu sou apenas alguém que quer ver prevalecer a verdade. O Sr. Stappler fugiu, é verdade, mas apenas porque se viu sob acusações graves e sem ter como se defender. Felizmente, para reforçar meu depoimento a favor dele, nós conseguimos encontrar algumas câmeras de segurança na área, que mostram a criatura por trás do ocorrido, e tudo se encaminhou para um desfecho que não condena um homem que estava lá tão somente tentando ajudar.”
Yokozuna estava feliz naquele momento. Após a audiência, Ironpunch estava livre. Sua inocência fora provada, e eles já haviam conseguido contatar o Llewelin, o pesquisador que construíra seu braço biônico, e ele iria inicia a reconstrução logo.
Fazer a coisa certa lhe fazia sentir-se bem. Era como se sua vida ganhasse sentido quando fazia o bem, como se estivesse todo esse tempo esperando para proteger e ajudar, e não se importar somente consigo. Ele olhava no espelho e via outra pessoa, alguém que ele gostava de estar conhecendo. A vida lhe dera uma segunda chance, afinal.
______________________________________________________

Chicago, 21 de abril de 2032

Nina estava apreensiva sobre aquela conversa. Arthur Parks, seu amigo e mentor, havia incentivado que o procurasse, mas ela se sentia invadindo uma vida que não lhe pertencia. Ainda assim, ela precisava de ajuda “de dentro do sistema”, se quisesse investigar mais sobre o NDMH e sobre os responsáveis por aquele experimento. Scheherazade havia voltado a sua vida como professora, e pago o pouco que tinha condições de pagar pelos seus serviços – ela tentara recusar, em vão – mas isso não significava que Nina não iria seguir investigando.
Nina teria que recorrer á única pessoa em que ela confiaria dentro da polícia, apesar de eles serem completos estranhos um para o outro: seu meio-irmão, James “Indomitable” Willians, filho de seu pai com a esposa dele. O constrangimento era ainda maior porque ela soubera que, pouco antes da morte de Dent Willians, a mãe de James se separara dele, motivado em grande parte pela descoberta do caso que tinha Nina como fruto.
James não foi amigável, mas não a expulsou sumariamente. Ele escutou o que ela lhe falou e, após um silencio que pareceu não acabar, disse que levantaria algumas informações e, quando tivesse algo, entraria em contato. Ele deixou claro que não gostava da ideia de trabalhar com ela ou o que ela representava na sua vida, mas ponderou que as vítimas daquela conspiração mereciam que ele deixasse aquilo de lado.
________________________________________________________
Chicago, 22 de abril de 2032

Os pesadelos eram cada vez mais intensos. Uma força parecia estar atraindo-o, e ele muitas vezes sentia como se estivesse à beira de um abismo. Ele lembrava das palavras de Timothy, e, graças à interferência deste, lembrava vagamente da “outra vida”, nada além de alguns flashes sem grande relevância, como se fossem sonhos, e da imagem de uma mulher que ele não conhecia. Neil sentia que precisava encontra-la, e que talvez sua vida dependesse disso.
______________________________________________________

Chicago, 28 de abril de 2032

Ele fizera alguns reparos básicos, o suficiente para manter seus equipamentos funcionando, mas sabia que os danos do tiro que levara certamente comprometeriam os sistemas em algum tempo se ele não tivesse como fazer um reparo apropriado.
Seus amigos no departamento de polícia não tinham muito como ajuda-lo, infelizmente. O NDMH sempre fora o responsável pela manutenção mais pesada, mas ele não poderia confiar neles mais, ainda que a estrutura não estivesse cada vez mais desmantelada.
Um ex-colega, James Willians, deu uma sugestão:
“Depois de toda essa confusão com os ataques a Washington e à Califórnia, há um grupo se formando, uma força de segurança que me parece mais uma Agência e menos um ‘supergrupo’. Não sei muitos detalhes, mas um pessoal me contatou, e me disseram que eles estavam procurando pessoas com bom histórico policial, e que experiência lidando com elementos meta-humanos poderia ser importante. Talvez eles possam ajudar você.”
Shadow se preocupava em se livrar de uma força manipulativa para acabar caindo nas mãos de outra, mas, por outro lado, ele sempre confiara nos instintos de James. Se ele achava que aquela “Agência” que tentava se organizar era digna de confiança, talvez valesse a tentativa.
_________________________________________________________

Chicago, 28 de abril de 2032

Hellen evoluía cada vez mais rápido. Com a ajuda de alguns preparados calmantes que Keperos fizera para ela, ela treinava dia após dia e já estava conseguindo cada vez maior controle sobre a transformação. Robert lera num jornal sobre a prisão do “falso Arsenal”, e reconhecera Alek Rannen, deduzindo, graças às informações que eles haviam reunido, que ele deveria estar de alguma forma sob o controle do manipulador que fizera isso tudo com eles. Eles precisavam libertá-lo de alguma forma, ainda que isso significasse ir contra a lei. Eles eram irmãos, afinal de contas.
Ele estava frustrado, porque eles sentiam como se estivessem num beco sem saída. Não conseguiam avançar na investigação sobre o NDMH. Também estava confuso, pelas vagas lembranças do entremundos, e os flashes da vida que tivera naquele mundo diferente. Pensava se algum dia a sensação de tranquilidade que as lembranças lhe passavam poderia realmente existir.
Foi então que ele apareceu: Jeremy Amshock, que eles apelidavam Stealth, o último de sua brigada citado nos documentos. Ele apareceu do nada, no apartamento onde eles estavam, e por muito pouco Hellen não avançou para cima dele. Com uma arma apontada para sua cabeça, Jeremy explicou que estivera algum tempo procurando-os, desde que percebera que eles haviam ressurgido.
Explicou também que após sobreviver ao ataque (e achar que era o único sobrevivente), ele fora levado para um laboratório, onde experimentos haviam sido feitos com ele para tentar ampliar e controlar seus poderes – de se ocultar de equipamentos de detecção, como sensores, câmeras e radares. O que os cientistas não esperavam, é que, após anos fazendo testes para ampliar seus poderes de furtividade, ele simplesmente desapareceu.
A surpresa lhe deu tempo de escapar, e ele passou os meses seguintes investigando o NDMH, até chegar até Garrison Shiff. Chacal retrucou que eles iriam pegar o desgraçado por tê-los traído, e foi aí que Jeremy explicou que Garrison era uma vítima como eles. Ele descobrira que fora ordenado a Garrison preparar a emboscada, mas ele se recusara, e acabara ele próprio capturado.
Jeremy chegara a descobrir um laboratório onde Garrison era mantido, semi-sedado, com consciência de tudo o que acontecia a seu redor, mas incapaz de agir, apenas para que eles usassem algum tipo de indução bioquímica para induzir os clones dele e manda-los para executar tarefas. Quando Jeremy se organizara e voltara para libertá-lo, contudo, aquele entreposto houvera sido abandonado.
Atordoado pela notícia – o homem que ele odiara esse tempo todo era uma vítima como ele – Chacal ficou surpreso ao escutar de Jeremy o nome do homem por trás do NDMH, um homem identificado pela mídia recentemente como um arkeonte, e um manipulador que estimulara a América para uma guerra sem precedentes: Warlord, o filho de Ares.
______________________________________________________

Chicago, 28 de abril de 2032

Em parte, ela quisera se afastar para não expor sua identidade. Em parte, era verdade que ela tinha de voltar a suas aulas, para que não fosse notada uma longa ausência. Em parte, esse era um excelente momento para a civil desconhecida sair de cena e ela passar a atuar apenas como Djinn. Mas a verdade é que o coração de Scheherazade estava profundamente entristecido.
Ela soubera da morte de seu tio e, apesar de todos os seus malfeitos, de todas as mortes com as quais ele colaborara, ela inda tinha alguma esperança de ajuda-lo a se arrepender, a se redimir. Ela sentia que havia falhado com ele, consigo mesma.
_________________________________________________________

Chicago, 18 de abril de 2032

“Tenha em mente que viver múltiplas vidas da forma como o fazemos muitas vezes apresenta complicações quando queremos transferir recursos de uma vida para outra. Nunca sabemos onde vamos reencarnar. Foi por essa razão que eu não a movi muito ao longo dos séculos, preferindo deixa-la escondida num mesmo lugar por muitas vidas.”
Pattmah explicava enquanto entravam numa câmara escondida no apartamento onde ele morava.
“Mas enfim, chegou a hora de trazê-la de volta.”
A Armadura de Onyx. Coberta por uma camada de escamas de pedra tratadas por um processo há muito perdido, abençoada pelo poder do próprio Siddharta, acompanhada por um par de espadas de fio impecável e outro par de espadas articuladas, que lembravam afiados chicotes negros. A obra prima dos armeiros de seu tempo e região. Pattmah fora reconhecido e temido como um dos maiores guerreiros do mundo quando a vestia. Além das capacidades físicas, ela também tinha a propriedade de ampliar em muito as defesas mentais do usuário.
“Quando eu a usar novamente, será o momento de nos separarmos.”
“Não entendo.”
“Assim meu mestre me disse. Que eu lhe encontraria, lhe passaria o que aprendi, e ajudaria a se preparar para o que há por vir, mas que em seguida eu deveria vesti-la outra vez, para seguir minha última missão, de ajudar outra pessoa. Eu ainda não sei qual essa missão, mas sinto que muito do que eu posso lhe ensinar você já está aprendendo, ou relembrando.”
___________________________________________________________

Arredores de Chicago, 4 de maio de 2032

Chacal os chamara, trazendo uma série de informações que o homem que ele chamava de Stealth sobre as ações e sobre o responsável por muitos daqueles laboratórios. A investigadora Nina Vasquez trouxera mais informações, conseguidas com um contato dentro da polícia. Por fim, após eles cruzaram informações e chegarem ao local em que Warlord mantinha Garrison Shiff prisioneiro – e talvez onde ele próprio se escondesse.
As forças oficiais estavam ainda por demais desestruturadas. A Justiça Suprema estava ainda se formando, e eles não tinham como contatá-los, então cabia a eles agir. Golden Boy, Christopher Fate (agora como Onyx), Chacal, Stealth, Bleach, Shadow, Djinn e Nina Vasquez adentraram o prédio, aparentemente abandonado.
Logo na entrada, os sensores de Shadow, apesar de ainda não estarem completamente operacionais, perceberam que alguns circuitos de alimentação elétrica estavam operando. Chacal pôde, vendo através da tubulação, acompanhar a direção em que iam os circuitos ativos, que levavam a uma seção no fundo da instalação.
Era noite, e a luminosidade da lua adentrava pela claraboia enquanto eles se esgueiravam para entrar silenciosamente. As luzes então se acenderam e o som de palmas solitárias foi escutado.
“Sejam bem vindos.” O homem alto e imponente olhava para eles com um expressão irônica. “Eu já os esperava, cedo ou tarde. Robert, finalmente posso conhece-lo. Que pena que Hellen não pôde vir. Problemas de temperamento, ainda? Vocês nos pegaram de saída, contudo. Como vocês devem saber, não somos mais tão bem vindos aqui, e teremos que mudar de base por um tempo”
Chacal reconheceu o homem como Warlord, que até pouco tempo liderara o esforço de guerra americano no Oriente Médio, inclusive a Aliança Suprema. Correndo os olhos pelo local, era possível ver Garrison Shiff preso a uma maca, ligado a equipamentos e sedado.
Ao lado de Warlord, alguns meta-humanos, todos ex-criminosos militares: Edmond Mackenzie (aka Napalm), Thomas Orson Tyler (aka E.M.), Richard Walsh (aka Battalion) e Theodore Riddick (aka Morloch). Cada um altamente perigoso, cada um mais que capaz de matar todos eles ali.
“Sabe, Robert, quando você se recusou a cumprir uma missão há uns anos atrás, eu imaginei que você não tinha o que era necessário para ser um dos meus herdeiros. Fico feliz em perceber que eu errei naquela época. Você não só sobreviveu como chegou até aqui. Quando meu pessoal encontrou você tentando voltar para casa, eu fiquei realmente curioso em ver como você iria se virar, então providenciei que você fosse trazido por uma “Aliança Suprema secreta”, para agir como um fantasma, e você se saiu muito bem. Talvez, de todos os seus irmãos, seja você o soldado que eu estava procurando, mesmo tendo sido o único cujos poderes nós não ampliamos.
Veja Garrison aqui, ele poderia ter um futuro brilhante ao meu lado, mas se recusou a colaborar, se recusou a aceitar seu papel. De qualquer forma, graças a nosso equipamento, ele tem fornecido lacaios bem úteis. Pena que não poderemos levar ele conosco.”
Acionando um botão, uma massa brotou do peito de Garrison, caindo no chão e formando uma versão brutamontes deste.
“E você, meu caro Jake” – falava se dirigindo a Shadow – “você é uma grande surpresa. Você não é como Robert ou os irmãos dele. Você era completamente humano, nasceu sem nenhuma vantagem, mas você dá crédito a sua espécie. Sua tenacidade o fez sobreviver até aqui, sobreviver aos implantes que colocamos em você, e usá-los em sua máxima capacidade. Mesmo ferido e danificado, você está aqui, pronto para a batalha. Eu poderia usar alguém como você.
“Eis a minha proposta: venham comigo. Robert, você pode até mesmo vir a ser meu herdeiro, se continuar progredindo assim. Nós podemos ampliar seus poderes, e você será um atirador ainda mais formidável, além de podermos providenciar armas melhores. Você pode trazer Jeremy, Alek ou Hellen, se você quiser. E Jake, venha conosco. Soldados como você sempre serão úteis. Eu posso providenciar para que seus equipamentos sejam reparados e aprimorados. Você se tornará melhor do que jamais sonhou conseguir.”
“Eu serei melhor do que jamais sonhei, mas não graças a você. Eu não serei sua arma.” – Shadow retrucou, visivelmente irritado. Chacal também respondeu com aspereza “Se você acha que eu, que algum de nós que você traiu vai se juntar a você, “pai”, então realmente é tão louco quanto todas as notícias falam.”
“É uma pena. Bom para os demais, serve o mesmo convite. Nãoi conheço todos vocês, mas estou certo que alguns devem ter poten…” – nesse instante ele corria os olhos pelo grupo, e seu olhar se cruzou com o de Golden Boy. Durou uma fração de instantes, mas era como se duas forças diametralmente opostas se chocassem. Era possível sentir a tensão no ar e a raiva crescendo em Warlord. “Você!?! Nós achávamos que estivesse morto! Como?!”
“Pelo visto, você estava errado nisso também, como em tudo o mais.” – Neal respondeu em tom jocoso. “E eu acho que ninguém que veio aqui detê-lo vai repentinamente descobrir que o sonho da vida é passar o resto dela a seu lado… numa cela.”
“Me deter?! Como vocês esperam me deter? Cada um de nós pode matar vocês todos mil vezes. Vocês irão morrer aqui e agora.”
“Talvez, mas um amigo meu fala uma coisa muito interessante sobre isso:
NÓS SOMOS MUITOS!”
Nesse instante, a claraboia se quebrou, assim como a parede de um dos lados do grande galpão. Invadindo o local, os reforços, uma legião de heróis e vigilantes, de variados níveis de poder: Yokozuna, Ironpunch, Wishing Joe, Hoverboard, Jeffrey e Jennifer Lang (os Switch Twins), Hellwrath (como Hellen pedia para ser chamada), Cantrip, Wind Barrier, o policial James “Indomitable” Willians e o shamam Iroquoi Erik Sky Hawk. Arsenal e Thrust não puderam ser contatados, mas ainda assim eles haviam em poucas horas conseguido reunir uma equipe considerável. Wishing Joe usara seus contatos para conseguir o máximo de reforços possível.
Warlord partiu para cima de Golden Boy, sendo interceptado por Yokozuna. Ele olhou com certa confusão para o sumotori: “Você está do lado deles?! Desses vermes?!” Com um safanão, ele o afastou. Sua força parecia ser tremenda, como se ele se alimentasse do caos e da guerra que ele havia fomentado. Hellwrath, já transformada, se colocou em sua frente, ao lado de Golden Boy, e sua ira podia ser sentida.
“Hora de um ajuste de contas, ‘papai’”
Onyx correu para junto de Yokozuna. A observação de Warlord apenas confirmara a impressão que ele tivera ao conhecer Yokozuna naquela tarde. Aquela era a missão que ele tinha de cumprir. Enquanto o ajudava a se levantar, ele alcançou alguns pontos de pressão, conforme seu mestre lhe havia ensinado.
Enquanto isso, Ironpunch, auxiliado por Cantrip, enfrentava o clone brutal de Garrison Shiff. A luta era desigual, mas a criatura era bastante simplória, o que lhes dava a chance de usar de astúcia contra ela.
Shadow, Bleach e Djinn enfrentavam uma avalanche de cópias psiônicas criadas por Battalion. Eles compensavam a minoria numérica com ações rápidas e golpes e tiros precisos, ou no caso de Djinn, com seu poder de ficar imaterial.
Nina, James e Sky Hawk lutavam contra o monstruoso Morloch e seus poderes místicos. Quando as garras do servo dos espíritos do mal estavam para alcançar a jovem investigadora, este foi surpreso ao ver que os tiros de James o haviam ferido. “Como?!” ele urrava. “Meus ancestrais já caçavam fantasmas e monstros como você em nome da lei desde o velho oeste. Eu estou apenas seguindo a tradição.” Era possível a Nina, com seus sentidos, perceber uma poderosa aura mística na pistola que James empunhava.
Hoverboard, Wind Barrier e Chacal enfrentavam o enlouquecido E.M. e seus poderes eletromagnéticos. Os disparos deles pareciam ser todos detidos pelo campo de força do oponente, mas ainda assim eles seguiam se defendendo e tentando encontrar uma brecha em sua defesa.
Wishing Joe e os Switch Twins, apesar de seriamente em desvantagens, seguiam enfrentando o terrorista Napalm e seus jatos de chamas líquidas. Joe havia providenciado um escudo temporário de ar gelado, e os gêmeos, com seu teleporte e coordenação, conseguiam desequilibrar o adversário.
Alheio à batalha, Stealth seguira para tentar libertar Garrison Shiff dos equipamentos. Invisível a todos, ele ia desligando e sabotando os aparelhos, na esperança de reduzir a força inimiga – tirando o clone brutal de cena – e salvar seu amigo.
A luta contra Warlord era extremamente difícil. Mesmo Hellwrath não conseguia enfrentar a imensa força que ele demonstrava, e ele acabou por arremessa-la através da parede. Sozinho contra um oponente a quem seuys golpes pouco afetavam, Golden Boy se via em desvantagem.
E então uma massa descomunal atingiu Warlord lançando-o longe. Yokozuna estava diferente de instantes antes. Ele lembrava. Lembrava de tudo. Sua força voltara, todo o poder que tiver, talvez até mais. Porque agora ele era alguém melhor.
____________________________________________________

Planícies da Índia, século VI A.C.
Ele vagou por muito tempo para chegar até ali. O homem que ali vivia, diziam, era extremamente sábio, e poderia ajuda-lo a se tornar uma pessoa melhor. Siddharta, diziam, era o mais sábio e iluminado humano a este mundo ter produzido.
Sarutahiko, que alguns chamavam de Ōkami, buscava por ele, e por redenção. Como um arkeonte puro, mesmo um nascido na Terra após a chegada de seu povo, ele reinara sobre uma região no estremo leste. Ele tentara ser um rei, se não bom, ao menos justo. E falhara miseravelmente.
Ele ainda buscava a veneração dos humanos. Ainda os considerav a inferiores. Ainda explodia em fúria e orgulho contra uma contestação, destruindo uma vila inteira. A visão de uma pequena criança, última sobrevivente, tentando tirar o corpo da mãe dos escombros de seu destempero, o enchera de vergonha.
Por isso ele buscara o sábio que os humanos chamavam de O Buddha. Talvez ele tivesse um conselho para ele, um caminho para se redimir. Para ser alguém melhor.
Siddharta escutou seu relato, se solidarizou com seu desespero, se dispôs a guia-lo.
‘Você começa a perceber o que venho dizendo já há algum tempo. Você e os seus, deva, kami, como quer que vocês se chamem, vocês tem poderes formidáveis, mas não são deuses, não estão acima dos mortais, não são infalíveis. Mas a percepção de sua própria limitação o engrandece. Eu vou ajuda-lo a ter uma nova vida, longe desta no tempo e no espaço. Você renascera em uma nova era, e será criado na linhagem daqueles que você ofendeu, apenas para perceber o mundo deles, e se tornar melhor, mais digno de defende-los.’

Yokozuna agora lembrava e compreendia. Ele era Sarutahiko Ōkami, kami da Terra, criador do Sumô, renascido na linhagem daquela pequena criança que sobrevivera. Ele ainda era um arkeonte puro, mas era agora muito mais que isso, porque fora criado com os humanos, entendera sua vida, sua fragilidade e sua força. E ele iria defende-los!
___________________________________________________________

Arredores de Chicago, 4 de maio de 2032

Um surpreso Warlord encarava Yokozuna, se interpondo em seu caminho e sendo capaz de confrontar sua força. Ao seu lado, Christopher sacava suas espadas, e Warlord reconhecia, apesar dos séculos já passados, o lendário Guerreiro de Onyx.
Aproveitando a distração, Golden boy se deslocava para ajudar Wishing Joe e os gêmeos, que estavam em cada vez maior desvantagem. Aumentando os números, eles seguiam desviando dos ataques de Napalm e tentando atingi-lo com golpes, apesar de ser quase impossível se aproximar.
A luta também não ia bem para Wind Barrier e Chacal. Hoverboard fora arremessado janela afora por E.M., e ainda não havia voltado, gerando preocupação com seu estado. A desvantagem parecia somente se intensificar quando Ironpunch e Cantrip entraram na batalha. Stealth havia considerado desativar as máquinas que controlavam Garrison, e o clone havia se desfeito, liberando-os para ajudar os demais.
Shadow, Bleach e Djinn lutavam no limite de sua velocidade, derrubando cópia atrás de cópia, mas ainda assim tendo dificuldades. Bleach tentou acionar seu poder através de sua arma especial, para desintegrar muitos oponentes com uma rajada, mas algo deu errado. Seu poder parecia estar se voltando contra ele, como se as energias interdimensionais que ele usava o estivessem arrastando. Ele se sentia desaparecer, ser drenado, e a dor o consumia. Shadow, percebendo que ele não conseguia lutar, redobrava seus esforços, enfrentando todas as cópias. Djinn, achando ser algum tipo de ataque, tentou alcança-lo e torna-lo imaterial com ela, mas os dois acabaram formando um elo mental e sendo dragados por aquela força, desaparecendo completamente. Sem saber o que acontecera, Shadow não tinha tempo para se preocupar com os amigos, pois agora ele tinha uma luta a vencer sozinho.
No front místico da batalha, as dificuldades não eram menores. Ciente de que sua pele podia ser ferida pela arma de James, Morloch concentrava seus esforços de ataque contra ele, que acabava tendo de se concentrar na defensiva, enquanto Nina e Sky Hawk, já transformado em seu totem Falcão, tentavam encontrar uma abertura para atacar.
A luta contra Napalm, contudo, parecia ter-se invertido. Apesar do adversário mais poderoso, a proteção que Wishing Joe estava criando era suficiente para que os gêmeos, coordenados entre si e agora também com Golden Boy, conseguissem atingir uma sequência de golpes no adversário. Irritado, o vilão incendiário se descuidou e foi derrubado por uma sequência bem cronometrada de ataques sincronizados por teleporte.
Quando eles acharam que a batalha estava ganha, contudo, Edmond Mackenzie urrou de ódio e uma explosão de ar quente emanou do seu corpo, derrubando os quatro e desfazendo a névoa gélida de Wishing Joe. Ele se voltou para Golden Boy e Jennifer Lang, que haviam caído juntos e que tinham sido os responsáveis por derrubá-lo, e eles puderam ver seu ódio fanático se materializando em uma rajada de fogo líquido contra o que eles não teriam como sobreviver.
Tudo durou uma fração de segundo. Os olhares de Jennifer e Jeffrey se cruzaram, ele viu que ela estava em contato com Golden Boy, e ela entendeu o que ele iria fazer, suplicando em sua alma para que não fizesse.
A rajada de fogo encontrou não dois, mas um corpo apenas. Usando o dom que eles tinham de trocar de lugar através de teleporte, Jeffrey assumiu o lugar de sua irmã e Golden Boy, sendo completamente incinerado.
“JEFFREY! NÃO!!!”
“Não não não não NÃO!” Wishing Joe caiu de joelhos ao ver o jovem corpo carbonizado no chão. Ele convocara cada um deles ali. Ele trouxera aquele jovem para sua morte. Ele selara seu destino. Não, não fora ele.
“Monstro… monstros como você…” – era visível sua raiva. Nunca Neal vira o poder de Joe se manifestar tão fortemente. Uma aura azul-prateada o recobria, seus olhos pareciam vibrar de energia. “… não merece viver.”
“EU DESEJO QUE VOCÊ MORRA!”
E assim foi. Os conflitos pararam por um instante. Talvez pelo grito cheio de ódio que reverberou no local. Talvez pela explosão de energia que eclodia do corpo de Wishing Joe. Talvez pelo fato de que, sem maiores reações, o corpo de Edmond Mackenzie, Napalm, tombou morto no mesmo instante. Ou talvez, como Neal notou, pela estrela cadente que cortou o céu quando o poderoso desejo de Wishing Joe se realizou.
Joe caiu de joelhos, exausto física e emocionalmente, mas quem visse seu rosto perceberia um misto de tristeza e descoberta. Warlord e seus comparsas aproveitaram a interrupção para escapar, receosos que aqueles poderes ali reunidos fossem, de fato, capazes de subjuga-los. Jennifer chorava seu irmão, e Shadow, confuso, buscava algum sinal de Bleach ou Djinn.
Hoverboard voltava, ferido e com uma perna quebrada, e Hellen, revertida a sua forma normal, também entrava de novamente no salão. Stealth ajudava Garrison, que começava a acordar, a sair da maca onde estava preso.
“Joe” – Golden Boy falava – “O que foi aquilo?”
“Aquilo foi o verdadeiro eu. Eu agora me lembro quem eu fui, e percebo a extensão e as consequências de meu poder. Eu… preciso ir embora, antes que eu perca o controle. Houve alguém que poderia me ajudar a entender. Meu melhor amigo… ele está morto há décadas. Mas talvez, se eu for para o lugar de onde ele veio, eu possa encontrar lembranças suficientes dele para me aconselhar.”
“Do que você está falando? Onde é isso?”
“Um lugar muito longe… e muito frio. Muito além deste mundo.”
“Mas Joe, algo muito ruim está por vir. Nós precisamos de você aqui.”
“Não, garoto. Algo ruim está por vir e eu não quero ser o causador. E este nosso mundo precisa de VOCÊ aqui. Muita gente se esforçou para que você estivesse aqui hoje. Eu agora percebo. Você é aquela criança.”
Após dizer isso, ele foi envolvido por um globo de energia, e partiu muito rapidamente em direção aos céus. Os demais começaram a se dispersar, ainda sem encontrar vestígios de Bleach e Djinn. A batalha fora ganha, mas o preço havia sido alto.
_________________________________________________________

Chicago, 8 de maio de 2032

Neal preparava suas coisas para viajar ao Brasil em busca do professor Oliveira. Ele tivera que contar a seus pais seu segredo, sua vida como Golden Boy, e, principalmente, quem ele realmente era: o Buddha. Para sua surpresa, eles não haviam surtado.
Contaram como haviam sido recusados para a adoção, apenas para, no dia seguinte, serem miraculosamente chamados de volta, sob a explicação que houvera um erro, e que eles haviam optado por adotar ele porque era uma criança que também tinha chegado ao orfanato naquela noite, abandonado na porta sem bilhete ou vestígio.
Disseram que ele sempre fora para eles seu pequeno milagre, e agora eles percebiam quão grande aquele milagre era. Eles temiam por ele, claro, temiam que ele se ferisse, mas não podiam impedi-lo de crescer ou de seguir seu caminho. Assim, eles pediram apenas que tomasse cuidado.
__________________________________________________________

Chicago, 9 de maio de 2032

Não havia sido tão difícil resgatar Alek, usando os talentos de Jeremy. Enfim, eles estavam reunidos outra vez, a velha brigada. Um dos clones de Garrison, um que ele agora conseguia criar, “Gênio”, era bastante competente com equipamentos e tecnologia, e fizera os reparos nos implantes biônicos de Alek, e ele já podia voltar à ação.
De fato, eles haviam discutido sobre o assunto. Chacal, Garrison, Hellen, Alek e Jeremy, eles eram ainda, todos, dados como mortos. Fantasmas. Por que não agir nesse mundo, ajudando as pessoas nos bastidores, atuando de forma cirúrgica, não em nome de um exército ou uma nação, mas em nome dos que precisavam.
Chacal até mesmo sugerira um nome, que representava o que eles agora eram: A Brigada Fantasma.
_________________________________________________________

Chicago, 9 de maio de 2032

“Sr. Sanders. Seja bem vindo. O Tenente Willians falou que o senhor teria interesse em trabalhar conosco.”
“Eu quero entender o que vocês fazem aqui, e ver se posso me encaixar contribuir.”
“Tenho certeza que o senhor pode muito mais que isso, Sr. Sanders. O Tenente Willians falou muito bem do senhor. Entenda, até eventos recentes, pessoas com poderes, nascidos ou adquiridos, eram – e ainda são, em muitos lugares – tratadas como armas. Até a forma de se referir a elas demonstrava isso: Indivíduos de Destruição em Massa. Aqui nossa filosoia é outra. Nós fazemos parte do início de um esforço supranacional para integrar os Indivíduos Extraordinários à sociedade, fazendo-os parte da solução, e não do problema. Nós trabalhamos com indivíduos com poderes e sem poderes, e pretendemos em breve começar a operar no combate a crime e terrorismo internacional, bem como na proteção da população em geral.”
“E quem são vocês, afinal?”
“Nós estamos nascendo ligados à assembleia geral das Nações Unidas, ou o que ela se tornar, nas próximas semanas. Nós somos a Extraordinary Individuals Enforcement Agency, a E.I.E.”
__________________________________________________________

Chicago, 10 de maio de 2032

Akebono olhava da varanda de seu apartamento. Ele agora lembrava quem era. Mais que isso, tinha um propósito. Proteger e ajudar essas pessoas, esse mundo. Ele partiria logo cedo para a costa oeste. Muita destruição ocorrera lá, e alguém com sua força certamente seria de grande ajuda nos resgate e na reconstrução.
Ironpunch dissera que o acompanharia. Ele se considerava em débito, e também queria mudar de ares, para deixar velhos hábitos – de buscar glória pessoal – para trás.
“Segundas chances”, Akebono pensava. Ele ponderava que agora, mais humano que nunca, ele poderia ser um arkeonte ainda melhor.
___________________________________________________________

Chicago, 10 de maio de 2032

Ela não arriscaria dizer ainda que ela e o irmão eram amigos, mas Nina sabia que uma grande barreira tinha sido quebrada entre eles. Família, ela pensava, era algo que não tivera desde a morte de sua mãe. Se ela pudesse ao menos refazer algumas pontes, não estaria sozinha.
James parecia começar a confiar nela. Ele dissera que, caso precisasse de ajuda em outro caso sobrenatural, sabia onde encontra-lo. Afinal, esses eram os “negócios da família”.
_________________________________________________________

Local desconhecido, 5 de maio de 2032

A paisagem era estranha. Lembrava a cidade de New York, porém devastada, e o céu estava tingido de vermelho. Criatura estranhas, demoníacas e algumas cheias de implantes cibernéticos, podiam ser vistas voando ao longe.
Djinn estava assustada com tudo aquilo, e Bleach ainda estava inconsciente devido ao transporte interdimensional.
Um grupo se aproximou, talvez uns quatro ou cinco. Todos usando máscaras para proteger o rosto da poeira. Ela se reparou para um combate, mas o homem que parecia liderar o grupo tirou a máscara. E olhou para Bleach.
“Eu tenho certeza. Ele é um deles. Mas… esse parece diferente. Talvez ainda dê para fazer algo.” – ele falava para os demais.
“Quem é você? Quem são vocês?”
“Calma, moça. Pelo que pude perceber, você foram arrastados para cá, como alguns como ele foram antes.” Ele falava apontando para Bleach. “Vocês não estão no seu mundo, se me permite colocar as coisas assim. Meu nome é Alexander Tanus, e nós somos o que restou da Justiça.”

View
Arkis: Underdogs - Interlúdio 02
Beetween Two Worlds

O vazio entre o existir e o não existir. Num infinito instante em que a realidade se reestrutura novamente para voltar a comportar o paradigma anterior, eles sentem como se estivessem flutuando em meio ao nada. Segundos, minutos, dias, impossível definir a duração de um instante inexistente, de um momento entre os momentos.
Quatro não têm consciência uns dos outros, e sentem como se flutuassem sozinhos em meio ao nada. As lembranças do mundo diferente em que eles viveram por um instante cósmico já desapareceu de suas mentes, e eles recordam das vidas que tinham no mundo que vai-se restabelecendo.
Neal, contudo, percebe os demais, assim como percebe que há conexões entre o destino de cada um deles e o dele próprio. Ele lembra de ambos os mundos, lembra de ambas as vidas, assim como lembra de vidas dos diversos eus que ele foi antes de ser o que é agora. Ele reconhece três dos quatro que pairam no vazio, por serem pessoas que ele já encontrou: Wishing Joe, Bleach e Chacal. O quarto é um homem forte, de pele negra, que ele não reconhece.
Uma presença, absolutamente poderosa, paira junto a eles, e se dirige a cada um em separado, falando a todos simultaneamente, falando ao íntimo de suas almas. Neal percebe que a entidade não falava para ele, apesar de ele perceber sua fala.

“Eu estou aqui para falar com vocês nesse último instante, pois no seguinte eu não mais existirei. Eu sou apenas uma pequena expressão de um todo infinitamente maior, uma interface com o universo de uma existência muito maior que ele próprio.
Já tive muitos nomes. Tábuas do Destino, por aqueles que tentaram me usar. Gênese, como fiquei conhecido pelo público em geral. Meus amigos, contudo, e eu conto cada um de vocês como um deles, me chamavam de Timothy.
Vocês serão os únicos que se lembrarão de mim. Muitos ainda falarão sobre as Tábuas, mas vocês serão os únicos que se lembrarão de minha pessoa, porque eu alcancei cada um de vocês e lhe dei um presente.
Eu não tive, ao longo de minha vida mortal, consciência plena de o que eu era, ou do quê eu fazia parte. Apenas agora, quando essa forma de existência cessa, eu me reuni ao todo para entender meu papel. Ainda assim, eu me movo pelos ideais que, brevemente, me guiaram nessa efêmera vida.
Eu sempre quis ser um herói, fazer a diferença. Eu não poderia, agora que desapareço, causar grandes mudanças, mas eu posso ajudar vocês a fazê-las. Minha mente viajou através do tempo e das realidades e eu localizei vocês em situações desesperadoras, e usei meu poder para ajudá-los, a fim de que vocês pudessem por sua vez ajudar mais e mais pessoas e enfrentar um tempo de tribulações ainda mais terrível que esse pelo qual passamos agora.”
“Joe… Você sempre foi um espírito nobre, um sonhador, e um homem que queria fazer mais, e a vida lhe foi muito dura e cruel. Você tem um dom incrível, e foi por isso que eu lhe resgatei no instante de sua morte para lhe permitir uma nova vida. Aos poucos você se lembrará de quem você é.”
“Neil, você é a chave para muito mais do que você pode sequer imaginar. Seu destino está em outro lugar, mas eu o ajudei a se manter por mais tempo neste mundo, para que pudesse ter uma âncora, uma referência para enfrentar o que há por vir. Não poderei mais ajuda-lo, mas você terá ajuda, eu posso sentir.”
“Robert, tudo o que você sempre quis foi fazer a coisa certa em meio a um mundo que estava todo errado. Por isso eu o ajudei a sobreviver ao ataque, para que você possa se tornar o herói que merece ser, e guiar seus irmãos.”
“José, você morreu como um herói, e sem saber você salvou e inspirou outros. Para você eu dou meu maior presente. Use-o para o bem, siga fazendo a coisa certa.”

Enquanto a entidade falava, Neal podia ver imagens das intervenções que ela relatava. Mais que isso, podia ver os momentos em que seus caminhos se cruzavam com o dele:

Ele via quando Chacal, em uma missão na Índia, sob as ordens de uma força sombria, era enviado para assassinar um suposto casal de terroristas – que Neal percebia como sendo seus pais biológicos. Ao preparar-se para um disparo, o soldado pôde ver, pela mira da arma, os movimentos de um bebê, recém nascido – o próprio Neal – e desistiu de sua missão.
Via como o fracasso na missão havia levado a força que os manipulava a julgar Robert indigno e sentenciar que ele fosse morto na emboscada a seu pelotão. Via o instante em que os disparos perfuravam o corpo do atirador, apenas para, em seguida, ver “Timothy”, despercebido por todos, rearranjar sutilmente as balas para que não atingissem nenhuma área crítica.

Ele percebia quando seus pais, agora escondidos no Brasil, tentavam fugir de uma nova tentativa de eliminá-los e a seu valioso bebê, apenas para sofrerem um terrível acidente – provocado – e serem mortos no incêndio que se seguiu. Ele via quando um homem comum, um caminhoneiro – a quarta figura que ele não reconhecia – ignorava o perigo e entrava nas chamas, sofrendo severas queimaduras para salvar e proteger o inocente bebê com o próprio corpo.
Via como o homem, ferido, sentindo sua via se esvair, ainda assim prosseguia até encontrar outra pessoa a quem entregar o bebê e pedir que cuidasse dele, morrendo logo em seguida.
Via então como, novamente invisível ao mundo, “Timothy” resgatava o corpo do homem e levava-o para outro lugar e outro tempo, colocando-o em um estado de hibernação até que seu “presente” pudesse curá-lo.

Ele via o homem que recebeu o bebê, pouco antes daquele momento, acordar sem memórias de quem ele era, apenas com a sensação de que recebera uma nova chance de fazer do mundo um lugar melhor. Ele o via estar confuso com lembranças fragmentadas de sua morte – ou mais de uma morte – e lembranças ainda mais turvas de uma força – novamente “Timothy” – que o havia retirado daquele momento e depositado neste.
Via-o ficar ainda mais confuso quando o homem completamente carbonizado lhe entregava um bebê e pedia, antes de morrer e desaparecer, que cuidasse da criança cujos pais haviam perecido. Via-o então fazer seu primeiro e maior desejo nessa nova vida, que lhe inspiraria para assumir a alcunha de Wishing Joe: “Espero que essa criança possa ficar a salvo.” E, depois de o bebê desaparecer de seus braços – mesmo sem saber que seu poder o enviara através do tempo e do espaço, para ser adotado pelo gentil casal Matthews anos no passado – um sentimento de satisfação, a certeza de que o bebê estava bem, preenchiam seu coração e ele decidia rumar para o norte, onde ele sentia que seu destino o aguardava.

Ele via Neil Cleese passar boa parte de sua vida sendo atraído por uma força que buscava leva-lo para além desse mundo, drenar sua humanidade e enlouquece-lo, e via como “Timothy” cercava Bleach com uma barreira protetora até o momento em que o próprio Timothy começava a desaparecer, junto com sua proteção.
Ele via, e sabia que estava vendo caminhos do futuro, quando Neil começava a ser mais e mais drenado pela força extradimensional, e sentia que, por cruzar o caminho com o seu próprio, Bleach ganhava uma nova âncora na realidade e na sanidade.

“Seu dom é realmente espantoso.”

Timothy estava a seu lado, e agora Neal podia percebê-lo como um jovem, não muito mais velho que ele próprio.

“Você é o último de sua linhagem, Neal. Sua responsabilidade é enorme, ainda mais agora que você sabe quantas vidas se alinharam para que você pudesse estar aqui, bem como quantas sombras se lançaram para tentar impedi-lo de existir.
Algo grande vem por aí, eu sei que você sente isso. O mundo precisará de pessoas como você, que conseguem perceber além da percepção, para sobreviver a isso.”

Neal acordou, como se tudo não tivesse passado de um sonho, mas ele sabia que tudo fora real. O Outro Mundo. O Entremundos. Estavam em 2032 novamente, no seu mundo novamente. E naquele exato instante, um grande herói perecia para salvar o mundo da explosão do sol…

View
Arkis: Underdogs - Interlúdio
A Different World

Ele lembra. Da vida não vivida, das inúmeras possibilidades que não aconteceram. Seus poderes, em sua maioria, se foram, mas seu maior poder resistiu à mudança: O poder de lembrar. Ele é o Buda, o último Buda. Uma coleção de inúmeras vidas ligadas por uma linhagem espiritual rumo à Iluminação. Ele lembra. Ele sabe que o mundo foi mudado. Sente que algo de proporções cósmicas alterou todo o universo. E sente que uma nova mudança, ainda maior e mais catastrófica, está por vir.

Depois de retornar de seu tempo servindo no exército, Robert Dwight tem tido uma vida tranquila. Atirador no time olímpico norte-americano, headhunter contratado por grandes empresas, ele tem desfrutado de um bom padrão de vida, e a chegada de sua primeira filha coroou esse momento de sua vida. Num churrasco de domingo, reunindo seus antigos companheiros de pelotão, como Hellen, Alek, Jeremy e Garrison, Robert devaneia, com certa nostalgia, se sua vida poderia ter sido outra, se ele poderia ter tomado outros rumos.

Condecorado por bravura. Enlouquecido. Foi assim que Neil Cleese voltou da guerra. Um veterano que se tornou um pintor. Todos os quadros, mostrando releituras de cenas terríveis, quase que demoníacas, que ele testemunhou como soldado do exército britânico, têm em comum uma coisa. A imagem de uma mulher. Quem é essa misteriosa mulher de véus que ele nunca encontrou? Quem é essa estranha que parece nunca ter existido senão em seus delírios mais distantes? Neil não sabe. Em busca de novas dimensões na pintura, Neil se perde dentro das telas, sem encontrar a figura de cabelos negros que se esconde nas profundezas de sua mente.

O casal Agbayani envelheceu unido pelo amor e por uma enorme tristeza. Eles nunca tiveram um filho, seu maior desejo. Assim, eles não sabem, nem saberão, o que essa criança que nunca existiu poderia ter realizado.

É dia da formatura da nova turma de cadetes da Academia de Polícia de Chicago. Seu coração palpita ao se lembrar da conversa que teve com seu meio-irmão no dia anterior. “Continue assim, ele disse, e será detetive em pouco tempo.” Esse reconhecimento, vindo de James, é muito importante para ela. Mostra que, apesar do problema familiar – Nina é filha de um relacionamento extraconjugal do promotor Dent Willians com uma imigrante haitiana – seu irmão, policial já há algum tempo, a respeita e reconhece seu talento e esforço. A presença do pai e do irmão na primeira fila da platéia apenas reforça esse orgulho.
Para completar a satisfação daquele momento, o patrono da turma, e que vai entregar a cada um seu distintivo, é ninguém menos que o Capitão Jake Sanders, uma lenda entre os detetives da polícia de Chicago, condecorado com todas as honras que um policial poderia almejar. Conta-se que, convidado a integrar uma agência federal de investigação – Nina não lembra qual – ele teria recusado, dizendo que preferia concentrar seus esforços em manter Chicago segura.

View
Arkis: Underdogs - Capítulo 03
Living Weapons!

You’ll take my life but I’ll take yours too
You’ll fire your musket but I’ll run you through
So when you’re waiting for the next attack
You’d better stand there’s no turning back.

The Bugle sounds and the charge begins
But on this battlefield no one wins
The smell of acrid smoke and horses breath
As I plunge on into certain death.

The horse he sweats with fear we break to run
The mighty roar of the Russian guns
And as we race towards the human wall
The screams of pain as my comrades fall.

We hurdle bodies that lay on the ground
And the Russians fire another round
We get so near yet so far away
We won’t live to fight another day.

We get so close near enough to fight
When a Russian gets me in his sights
He pulls the trigger and I feel the blow
A burst of rounds take my horse below.

And as I lay there gazing at the sky
My body’s numb and my throat is dry
And as I lay forgotten and alone
Without a tear I draw my parting groan.

- The Trooper, Iron Maiden

O treinamento era intenso, e Neal nunca havia encontrado um professor que o levasse tanto ao limite. Pattmah treinava incansavelmente, de artes marciais a meditação, passando por treinos para reforçar as defesas mentais e conhecimentos sobre vários tipos de poder e seres. Um dia e meio pareciam semanas.
Não saía de sua cabeça uma conversa que tivera com seu professor/aluno, que remetia a algo que Mortuary lhe dissera. Eles debatiam como era possível que Neal estivesse com a idade que tinha, se sua encarnação anterior, Pax Suprema, morrera havia cerca de quatro, cinco anos. Como era possível que duas encarnações da mesma pessoa tivessem convivido. Neal não tinha respostas, nem Onyx, mas suspeitava que Wishing Joe tivesse alguma relação com isso, de acordo com o que Mortuary insinuara.
O telefone de Neal tocou. Era um colega de colégio, Erik, e ele parecia bastante ansioso e animado. Disse que tinha algo para lhe contar, algo que descobrira recentemente. Algo inacreditável.
Erik era, talvez, o melhor amigo de Neal. Enquanto Neal era o dono do plano, Erik era o cara da ação. Atlético, carismático, Erik era um líder nato. Neal sempre o vira como uma peça fundamental em seu plano, mesmo sem entender bem o porquê. Erik, sua intuição lhe dizia, seria alguém que lideraria muitos para o objetivo final do “Plano”: proteger o mundo. Juntos, Neal, Erik, e Alex, um outro amigo deles, mais novo, que morava no Hawai, costumavam dizer que eram os futuros guardiões da Terra.
Os dois combinaram de se encontrar no parque à margem do Lago, ao lado do memorial aos heróis caídos. Mas antes disso, Neal iria investigar o laboratório que Alek Rannen lhes indicara. Christopher não poderia ir com ele, pois tinha outra missão a cumprir, segundo lhe dissera, mas Shadow e Bleach haviam combinado de seguir a investigação.
_______________________________________________________________

Keperos varou a noite e o dia seguinte realizando testes e exames com amostras de sangue que colhera de Hellen, sob o olhar apreensivo de Nina e Scheherazade. Ao fim, deu um veredicto. Hellen era o que ele chamava de “filha dos deuses”, descendente, em algum grau, de seres como Zeus ou Ares, que hoje a imprensa chamava de arkeontes. Isso por si só já lhe concedia capacidades sobre-humanas de resistência e agilidade, mas aparentemente alguém tentara fundir sua essência com algum tipo de demônio extradimensional. Isso havia feito com que seu corpo reagisse, e a transformação monstruosa era uma tentativa de seu corpo equilibrar isso.
Hellen ficou nervosa com a revelação. Ela lembrava que todos em sua unidade especial tinham algum tipo de dom, ela própria sempre tivera agilidade e capacidade de recuperação física sobre-humanas, e se perguntava se eram todos “filhos dos deuses”, como ela. Keperos lhe deu um preparado para ajuda-la a se aclamar e dormir um pouco, para evitar uma nova crise.
A noite avançava e, algum tempo depois, perceberam uma movimentação no museu. Um homem de traços ferais entrava, claramente em busca de algo. Farejando o ambiente, ele seguiu com agilidade na direção do depósito onde Hellen repousava e Keperos ainda a examinava. Scheherazade hesitou em agir para não revelar seus poderes, e Nina tentou se interpor em seu caminho, apenas para ser afastada com um golpe. Quando o homem-fera estendeu suas garras e partiu na direção da jovem árabe, esta pensou que seu segredo estaria perdido, apenas para ver o monstruoso atacante ser abatido por um certeiro disparo na cabeça.
Scheherazade reconheceu Chacal, quando este se revelou, como o homem que elas haviam despistado no metrô. Ele explicou que seu nome era Robert, e que ele era um amigo de Hellen, que ele imaginava morta até ver o local dos experimentos. Explicou ainda que a criatura que eles haviam enfrentado, e o homúnculo do metrô, eram “crias” de Garrison Shiff, antigo major deles, que os havia traído e emboscado. Ele tinha o poder de criar alguns tipos de “cópias” de si, cada uma com uma função específica: um pequeno espião, um feroz rastreador, entre outros tipos. Explicou que, após ver o homúnculo no dia anterior, ele começara a investigar a presença do major na cidade, e seguira o rastro da pequena criatura até um edifício no centro da cidade, de onde vira o “sósia-caçador” saindo e o seguira.
Nina então falou sobre as descobertas de Keperos, ao que eles concordaram ser mais que uma simples coincidência tantas pessoas com poderes especiais designadas para uma mesma tropa. A muito custo, Robert aceitou se submeter a um teste, desde que todo o material usado fosse imediatamente destruído depois – o seu e o de Hellen. Ele imaginava que, “mortos”, seria mais fácil eles continuarem investigando o que acontecera com sua unidade. Decidiram também fazer o mesmo exame no “sósia-caçador”, cujo corpo começava a deteriorar (Robert dissera que esses duplos duravam pouco tempo), raciocinando que ele poderia conter algo do DNA do original.
Quando Keperos anunciou o resultado, Robert não pôde conter o espanto: os três compartilhavam uma grande similaridade de DNA, como se fossem irmãos. De fato, Keperos acrescentara, o nível exato de semelhanças e diferenças seria possível somente se eles fossem meio-irmãos.
_______________________________________________________________

Yokozuna estava em casa, imaginando que novas informações os demais teriam conseguido, quando bate à sua porta Ironpunch. Ainda bastante ferido pelo combate contra a criatura, e com o braço biônico totalmente desmantelado, ele explicou que agora era um fugitivo, suspeito pela morte do policial que o monstro assassinara. Não tendo para onde ir, e sendo Yokozuna uma personalidade de endereço conhecido, Ironpunch pensara em pedir sua ajuda, já que ele estivera lá, e poderia testemunhar a seu favor.
Akebono já sabia da fuga, e sentiu que precisava ajuda-lo, até mesmo porque ele só fora preso porque eles o haviam deixado no local da batalha. Assim, enquanto Ironpunch telefonava para o cientista que desenvolvera seu braço biônico, para que ele pudesse consertá-lo, Yokozuna entrou em contato com seus advogados. Alguém precisaria representar aquele homem adequadamente num tribunal.
_______________________________________________________________

Shadow, Bleach, e Golden Boy adentraram o local indicado por Alek Rannen, encontrando outro laboratório vazio. Experimentos com membros biônicos haviam sido feitas ali, e Shadow percebeu que o local em muito se parecia com o centro do exército onde ele próprio havia sido reconstruído.
Investigando nos computadores, Bleach recuperou dados apagados que apontavam para o que seria uma central de pesquisas, situada na West Virginia. Havia também referências a um “Projeto Alex”.
O que eles leram a seguir deixou Shadow sem reação. O tal projeto consistia em arranjar acidentes e atentados para atingirem policiais que fossem avaliados como aptos ao projeto. Lhes seria, então, dada a opção de uma reconstrução biônica, e eles se tornariam policiais ciborgues, mais eficientes e mais suscetíveis de serem controlados e manipulados.
Os relatos informavam que o “primeiro protótipo” havia sido um sucesso de recuperação e atuação, e que os testes com Alek Rannen demonstravam que a ampliação das capacidades biônicas era possível e interagiria bem com eventuais dons meta-humanos.
“Primeiro protótipo”. Shadow revia os detalhes de como fora o atentado que o ferira. “Tudo uma armação?!”
Algo, então, se ativou em sua mente. Como se tivesse sido lançado para o “banco do carona”, Shadow apenas assistiu enquanto seu corpo, manipulado por um comando externo, atacou os demais.
Ao mesmo tempo, sistemas de defesas até então escondidos no laboratório começavam a disparar, compensando sua desvantagem numérica. Encurralados, Golden Boy e Bleach imaginavam como deter o controlado Shadow, idealmente sem ter de mata-lo.
E então, um disparo.
Eles haviam chegado pouco depois dos demais ao local, seguindo a pista de onde o caçador partira. Haviam ficado escondidos a maior parte do tempo, e haviam escutado quando a descrição falara de um chip de controle. E ele tentara uma manobra que ainda não havia usado antes.
A bala voou com precisão. Sua visão extraordinária podia, entre outras coisas, enxergar através de uma certa espessura de materiais. Assim, ele pôde localizar onde o chip de controle estava. E o tiro fora perfeito. Talvez o melhor tiro da vida de Chacal até então.
A bala entrou e saiu da base da nuca de Shadow apenas o suficiente para resvalar no chip. Apenas o suficiente para inutilizar o dispositivo sem fazer maiores danos. Um tiro de assassino perfeito para salvar uma vida.
A desativação do chip e o impacto do tiro desacordaram Shadow. Com ele fora de ação, Bleach concentrou seu poder na sua arma dimensional, e uma rajada de energia inutilizou os sistemas de segurança sem a preocupação de atingir seu aliado no processo.
Acompanhado de Nina, Chacal adentrou o recinto, sendo reconhecido por Bleach como o atirador da outra noite. Scheherazade ficara cuidando de Hellen. Eles seguiram pesquisando e, conhecendo algumas palavras chave, Chacal acabou por localizar dados que apontavam que o que ocorrera com sua unidade era parte de outra experiência, ainda mais secreta. Alguns documentos apontavam para um projeto chamado “Inheritors of War”, do qual não havia muita informação disponível, mas apontava para os nomes, sem referências adicionais, de Robert Dwight, Hellen Powrath, Alek Rannen, Garrison Shiff e Jeremy Amshock: todos membros de sua unidade, todos soldados excelentes e que tinham algum tipo de talento especial.
O próprio documento indicava que parte da tecnologia do “Projeto Alex” houvera sido utilizada na reconstrução de Alek Rannen, para amplificar seus poderes eletromagnéticos de adesão a superfícies e agilidade, bem como para usá-lo como um disseminador de caos através do chip de controle.
Com alguns dados e pistas sobre outras localizações a pesquisar – e muito a pensar, no caso de Chacal – eles se separaram, combinando de prosseguir com as investigações. Bleach ajudou Shadow a seguir até sua casa, onde ele poderia dar algum tratamento a seu ferimento.
___________________________________________________

Neal encontrou com Erik ao lado do memorial aos heróis caídos. A estátua de Thrust, um heróis de Chicago que fora o fundador e líder dos Speeders e que morrera na defesa das Torres Gêmeas, em Nova York, impedindo um atentado de proporções catastróficas para a época, era o marco fundamental do parque à beira do lago.
Erik contou, muito entusiasmado, que descobrira coisas incríveis sobre si mesmo e sua família. Contou que sua avó lhe revelara que o nome de seu avô, já morto, Modison, advinha de uma lenda familiar de que eles eram descendentes do deus da fúria Modi, filho de Thor.
Contou que descobrira que ele tinha poderes, e que a avó revelara que seu avô também os tinha. Seus pais já sabiam disso, sua mãe porque sempre conhecera o segredo do pai, e seu pai porque fora salvo por seu avô ainda na juventude – dando origem à admiração que sempre teve pelo sogro e que o levou a homenageá-lo no nome do filho.
Contou que seus poderes eram os mesmos do avô, de se propelir a altas velocidades, ampliando no processo sua força e resistência. No fundo, ele percebera, esses poderes eram parte de algo mais amplo, uma capacidade de exercer certo controle sobre os efeitos da gravidade.
Revelou, por fim, que decidira passar a agir como herói, adotando um uniforme igual ao de seu avô, assim como o codinome que ele usara: Thrust.

View
ARKIS: Underdogs - Capítulo 02
Call to Arms

O momento era um tempo há muito remoto. Ele era um jovem, saindo de uma caverna onde está se abrigando com sua família antes da próxima migração de caça. O céu estava encoberto, depois das fortes chuvas da noite passada, mas era possível ver, ao longe, o fogo que desce dos céus. Estava acontecendo ali, assim como eles haviam escutado que havia acontecido em outros lugares: Os deuses estavam descendo dos céus em seus pássaros de fogo.
- Eles não são deuses.
Ele se volta, para ver um homem de traços mais delicados que os seus, que até então não estava ali ao seu lado. Somente dentro de milhares de anos este encontro faria sentido completamente para ele, quando ele fosse esse homem, contemplando os tempos de suas vidas e alcançando a iluminação.
- Eles descem dos céus e demonstram poderes incríveis, poderes que os engrandecem quando são nobres e que os corrompem completamente quando são perversos, mas ainda assim, nunca se esqueça: eles não são deuses.

_______________________________________________________________

A América precisa de ajuda. Seu país precisa de ajuda. Foi por isso que ele escolheu sair das ilhas e vir para cá. Para ajudar sua pátria em seu momento mais tenebroso. Laboratórios subterrâneos criando monstros? Tem alguma coisa seriamente errada acontecendo.
E aquela coisa não morreu, ele tem certeza. Ele pôde sentir a força do monstro. Ele sabe que ela vai aparecer de novo… para matar. Isso ele não pode permitir. Precisa encontra-la primeiro e detê-la, de alguma maneira. Sozinho ele não vai poder fazer isso. Mas hoje ele viu que, trabalhando em equipe, é possível.

_______________________________________________________________

As palavras do ‘Golden Boy’ a incomodam até agora. ‘Se você seguir por outro caminho, poderá acabar morta, completamente destruída por alguém muito próximo’. Ela leu e assistiu sobre o que aconteceu na Califórnia há poucos dias. Seu tio certamente estava envolvido. O que mais ele fará agora? E o que ela poderá fazer para impedí-lo?
Seus pensamentos divagam, até lembrar da mulher que encontrou: o monstro. Uma força de destruição, Hellwrath. O nome não parece coincidência. Tanta fúria parece realmente saída do próprio inferno.
Mas ela enxergou como é o interior da criatura: uma pessoa, com medo, acuada, sem consciência que já se passaram mais de dez anos, sem consciência do que provavelmente aconteceu com sua família… na Califórnia. Pobre Hellen. Ela precisa de ajuda. Precisa ser salva. Mas como fazê-lo? Como atravessar o monstro e alcançar o coração da pessoa? Ela se pega novamente pensando em seu tio…

_______________________________________________________________

Prometheus, Reflexão, Arthur Quest… todos mortos. A Aliança também caiu. Maldito traidor. No horizonte o sol se põe, vermelho como o sangue derramado nas últimas semanas. Eles falharam com este mundo.
Ele acorda, tenso. Malditos pesadelos! Há anos que haviam acalmado, e agora voltam. Tudo por causa dessa sensação estranha depois de encontrar com aquela criatura.
Olha para os lados, e vê que estão no carro. O tal Shadow dirige. Eles concordaram em seguir para a capital do estado. Arsenal precisa ser detido, ou a vida vai ficar muito mais difícil para vigilantes como eles. “Por que algum desses imbecis tem sempre que pirar e fazer uma merda descomunal?”
A sensação não passa. É como se algo lá no fundo de sua cabeça lhe dissesse que agora as coisas só vão seguir ladeira abaixo. Mal consegue fechar os olhos novamente e, quando o faz, a imagem da carnificina volta. Merda! Ele nem conhece metade dessas pessoas que está vendo morrer. O que querem dizer esses sonhos? Essa sensação?

_______________________________________________________________

Essa passou muito perto. Se o lutador de sumo o tivesse denunciado, tudo poderia ter sido posto a perder. Se as autoridades descobrirem que ele está vivo, será mais uma complicação, das grandes. ‘Preciso ser mais cuidadoso’, ele pensa.
Hellen está viva. Já se passaram quase dez anos desde que eles foram todos emboscados, e ele estava certo de ter sido o único sobrevivente de sua unidade. Ele e o desgraçado que armou para eles. Mas parece que Hellen sobreviveu, e que foi usada em algum tipo de experimento cruel. NDMH. O que são eles? Conhecia-os como um órgão de pesquisa do exército, nada mais. Quem o comanda?
Se Hellen está viva, então os outros podem ter tido o mesmo destino. Ratos em um laboratório! O pensamento o enfurece! Quem é o responsável!? Ele lembra, então. A Califórnia!!! Será que Hellen já sabe… da sua família?
Ele precisa encontra-la, ajuda-la a voltar ao normal! Descobrir se os outros ainda estão vivos. Eles são seus amigos, a única família que lhe restou.

_______________________________________________________________

É seu turno no volante. Ele segue com os olhos na estrada, mas não deixa de perceber a agitação no sono do outro ocupante do carro. Não que sua mente esteja muito tranquila. À sua frente, eles tem um problema dos grandes: Arsenal. Não só ele pirou de vez, mas tem um exército de simpatizantes armados com ele. Cidadãos. Como deter esse levante sem criar uma nova carnificina? Aliás, como deter um levante comandado por um dos maiores especialistas em armas e guerrilha do mundo?
E isso não é nem metade de suas preocupações. Até hoje ele acreditou que o Núcleo de Desenvolvimento Meta-Humano, quando o salvou e o reconstruiu, era uma organização do exército em prol da lei. Mas o que ele viu naquele laboratório… O que eles estão fazendo? Transformando pessoas em monstros? E se esse for o plano deles para ele também?

_______________________________________________________________

Golden Boy acordou. Wishing Joe dirigia, e eles se aproximavam do ponto onde iriam encontrar o contato que o levaria até a resistência contra Arsenal. Ele ligou o radio, atribuindo uma estação aleatoriamente. Gostava de fazer isso, era uma brincadeira para ver se o destino lhe revelava recados.
“Princes of The Universe”, de um antigo conjunto inglês chamado Queen, começara a tocar, e o conteúdo em muito parecia com seu sonho sobre seres ultrapoderosos se passando por deuses. Chegaram ao local, onde um jovem os esperava num pequeno posto de gasolina. Dentro da garagem, ele se identificou como Jeffrey Lang, e ele e sua irmã, que trabalhavam como investigadores particulares, e vigilantes nas horas vagas, eram conhecidos como Switch Twins, pois seu poder era de se teleportarem, trocando um de lugar com o outro.
Assim, enquanto Jeffrey apareceu com Golden Boy e Wishing Joe já dentro da região de Springfield, num armazém que eles usavam como base, Jennifer foi transportada, junto com sua moto, para a garagem do posto onde eles estavam.
Lá, esperavam por eles Cantrip, um vigilante dotado de poderes mágicos limitados, Wind Barrier, um meta-humano com controle sobre ventos e Chistopher Fate, um vigilante que afirmava dominar o “Supremo Poder Holístico”. Neal já ouvira falar de cada um deles, mas era Christopher o que lhe parecia mais familiar, como se já o tivesse conhecido.
_______________________________________________________________

Shadow e Bleach pararam o carro a uma distância de Springfield, e seguiram o resto do caminho caminhando. Próximo à cidade, puderam ver o nível de loucura que estavam por enfrentar. Arsenal e seu exército de seguidores, quase todos loucos que eram contra o governo e achavam que violência era o único caminho, haviam caçado e matado grandes chefes do crime da cidade, bem como seus subalternos e a alta cúpula da corrupta administração municipal, e colocado suas cabeças em estacas nos limites da cidade, como um aviso aos que chegavam.
Se esgueirando, eles chegaram a uma região industrial abandonada, quando viram uma patrulha de homens armados e se esconderam em um armazém. Lá dentro, enquanto esperavam, mal puderam perceber quando um homem emergiu da escuridão com uma arma apontada para a cabeça de cada um deles. “Não sei o que os dois estão fazendo aqui, mas baixem as armas e venham comigo.”
_______________________________________________________________

Scheherazade já havia procurado em diversos lugares, sem sucesso. Voltara para casa, descansara um pouco e, não tendo aulas naquele dia, saiu para pensar em uma forma de encontrar e ajudar Hellen. Parada em frente em uma barraca de jornais e revistas, se pegou pesquisando os anúncios de detetives particulares.
Alguém mais notou isso. “Está precisando de um detetive?” A mulher de pele negra perguntava, e seu olhar parecia examinar o menor gesto de Scheherazade. Longe de levantar suspeitas, aquela estranha lhe passava uma enorme confiança.
“Sim. Preciso encontrar e ajudar uma pessoa.”
Nina Vasquez se apresentou, e elas saíram dali, conversando sobre o trabalho. Scheherazade não poderia pagar muito, mas Nina não estava numa maré boa que pudesse recusar um trabalho e, além disso, sentia naquela mulher de feições árabes uma pessoa boa, que realmente precisava de sua ajuda. Ela parecia não querer contar a história toda, falava de uma pessoa chamada Hellen, e de como essa pessoa era assombrada por “monstros interiores”. Enfatizava até que, depois que a encontrassem, Nina poderia deixar tudo o mais com ela, e a detetive notava que haviam muitos segredos envolvidos, mas deixou para descobrir as coisas com o tempo.
Retornando ao local do metrô perto de onde ocorrera a ilusão, Nina confrontou Scheherazade sobre o rastro de destruição. Esta explicou como pôde, que a pessoa que ela procurava parecia ter sido transformada numa espécie de monstro, e que ela queria salvá-la disso.
Em busca de respostas, Nina utilizou alguns rituais voodoo para invocar um Loa para lhes dar mais pistas sobre o que acontecera. Apesar de assustada com todo o ritual, Scheherazade fez as perguntas que elas haviam elaborado, e escutou que “alguém havia tentado misturar a mulher com um demônio” e que ela estava escondida no lugar onde se sentia segura. Após pensar um pouco, retornaram ao laboratório, onde encontraram Hellen inconsciente, dentro da cela onde estivera presa. A criatura certamente entendia o lugar como sua casa, e voltava para lá quando exausta.
_______________________________________________________________

Enquanto começavam a traçar um plano de ação, Golden Boy e os demais foram interrompidos pela chegada de um homem forte, com feições de soldado endurecidas por diversos conflitos, que empurrava Bleach e Shadow para dentro do recinto com armas apontadas para suas cabeças.
“Achei esses dois bisbilhotando.”
O homem era chamado pelos demais de Danny, ou “Old Man Danny”, e era um veterano de guerra que estava ajudando no combate a Arsenal. Ele já enfrentara Arsenal antes, e sobrevivera, apesar de guardar algumas marcas.
Bleach e Shadow se identificaram, e Wishing Joe os reconheceu como vigilantes de Chicago, e todos passaram a traçar um plano para entrar no prédio da prefeitura ocultos pela magia de Cantrip, para tentar atacar Arsenal sem precisar passar por seus lacaios.
Danny reconheceu, no braço biônico de Shadow, a mesma tecnologia que vira em Arsenal. Eles estranharam, pois nenhuma história sobre Arsenal falava de uso de biônicos, mas Danny garantia que mais de um dos membros do homem que ele enfrentara eram biônicos e usavam aquela mesma tecnologia, que Shadow dissera ser do Exército.
Examinando o braço de Shadow, eles perceberam um acesso para manutenção, que poderia, se aberto, ser usado para desativar o membro temporariamente, e Golden Boy garantiu que, se chegasse perto o suficiente, poderia atingir aquele ponto em combate.
Antes de saírem, Christopher Fate dirigiu-se a Golden Boy em separado dos demais, dizendo-lhe que, quando tudo aquilo acabasse, eles teriam muito que conversar. Naquele momento Neal o reconheceu. Um turbilhão de memórias invadiu sua mente, e ele lembrou que, alguns anos antes, estava assistindo a um programa de entrevistas em que Christopher Fate estava e as coisas que ele falava na época, sempre de cunho esotérico e místico, eram na verdade uma mensagem codificada para ele, Neal, o novo Buda, dizendo-lhe “Se estiver me assistindo e já estiver pronto, me procure.”
Em seguida reconheceu o olhar daquele homem, um olhar de milhares de anos, e sabia que Christopher Matthias Fawkes, Christopher Fate, era na verdade Pattmah Assaji, conhecido como o Guerreiro de Onyx, um dos cinco primeiros discípulos de Siddharta, o Buddha original, reencarnado.
_______________________________________________________________

Eles seguiram para a prefeitura, ocultos por um feitiço de camuflagem. Lá dentro, com máximo cuidada, eles chegaram aos aposentos de Arsenal. Um gesto brusco os denunciou, e ele chegou a esboçar um ataque, mas Golden Boy foi mais rápido. Atingindo os pontos indicados por Danny, ele inutilizou um braço e uma perna do oponente, ao mesmo tempo que gritava para Wishing Joe seguir com o plano. Este, colocando uma das mão sobre a cabeça do vigilante enlouquecido, disse “Eu desejo que você se arrependa das mortes que causou.” O poder de Wishing Joe entrou em ação, envolvendo ambos numa aura azul-prateada. Ao fim, “Arsenal” estava cooperativo, chorando pela barbárie que causara.
Eles lhe instruíram a ajudar a evitar um massacre pior, caso o exército viesse, reunindo seus homens e dizendo que a cidade estava para ser cercada, e que eles deveriam voltar para suas casas e esperar notícias. Depois disso, ele passou para Jeffrey Lang os nomes de tantos quantos pôde lembrar do bando, para serem entregues às autoridades.
Por fim, ele revelou que não era Arsenal, mas que matara ele e tomara seu lugar, que seu nome era Alek Rannen, que ele era um soldado de uma unidade de elite, e que toda sua tropa fora morta numa emboscada há cerca de dez anos, sendo ele o último sobrevivente. Ele fora levado a um laboratório nos arredores de Chicago e reconstruído bionicamente, mas fugira de lá. Ele entregou a Golden Boy, Shadow e Bleach a localização do laboratório.
“Ah, tive saudades de você, querida”
Era Danny que falava, pegando a enorme metralhadora de “Arsenal”. Ele revelou então que ele era, na verdade, Arsenal, e que o farsante o emboscara e pensara tê-lo matado, e ele preferira assim para poder reunir um grupo para neutralizar a ameaça.
O efeito do desejo de Wishing Joe começou a desvanecer enquanto eles retornavam para sua base de operações pelo esgoto, e Arsenal se preparou para matar o farsante, mas Golden Boy interferiu. Tomado por uma força que ele não entendia, ele perdeu a consciência enquanto uma aparência serena se sobrepôs a seu semblante. Era sua encarnação anterior, Pax Suprema, e sua presença era tão poderosa que Alek Rannen se amedrontou e aceitou cooperar. Arsenal o levaria até a polícia e ele se entregaria e confessaria seus crimes.
Ao se despedirem, Arsenal agradeceu a ajuda e disse a Golden Boy que, se precisasse de lições de tiro, poderia ensinar-lhe.
Neal voltou para casa de carona com Pattmah, e este lhe contou que recebera de Siddharta a missão de seguir reencarnando, coletando conhecimentos para que pudesse lhe passar quando de sua última reencarnação. E essa, Pattmah teorizava, era Golden Boy.
Além disso, ele entregou ao jovem um equipamento, que lhe fora entregue pelo seu eu anterior, Pax Suprema, alguns anos antes, dizendo que ali estava a maior herança de um grande herói que breve iria morrer, e que Golden Boy seria também o herdeiro de seu legado. Era um pequeno receptor eletrônico, e Pattmah explicou que ele se ativaria na hora certa, e examinando o objeto Neal pôde ver, bem pequeno, o logotipo de uma empresa bastante conhecida: Mythostech.
_______________________________________________________________

Nina ligou para seu contato, o jornalista Arthur Parks, e ele indicou que elas poderiam encontrar abrigo e ajuda para investigar o que fora feito com Hellen no museu de história natural.
No caminho, acharam que estavam sendo seguidas, e Scheherazade ficou para trás para verificar. Aproveitando a oportunidade para ficar invisível, ela conseguiu perceber que eram observadas de dois pontos, por um homem que parecia um soldado ou um atirador de elite, e por uma criatura, um pequeno homúnculo deformado. Percebeu ainda que o atirador percebeu o homúnculo e desistiu delas para ir atrás da criatura. Ela o seguiu, e viu como ele se frustrou quando não conseguiu retomar a trilha das mulheres. Scheherazade retornou para junto de Nina, e seguiram para o museu.
Lá chegando, encontraram o local vazio, já que já anoitecia e ficaram olhando as estátuas enquanto esperavam por quem quer que fosse que as ia encontrar. Então, uma estátua se moveu e se transformou em um homem em trajes gregos clássicos. Ele se apresentou como Keperos Fidaikos, e disse que uma amiga em comum dele e de Parks lhe explicara que elas precisavam de ajuda para descobrir que tipo de experimentos tinham sido feitos em uma pessoa.
“Vamos começar os testes então.”
“Você é médico?”
“Sou alquimista.”

View
ARKIS: Underdogs - Capítulo 01
Streets of Rage

Acordar era uma sensação gloriosa. Após todo esse tempo com a mente entorpecida, uma única sensação lhe preenchia os pensamentos: FÚRIA! O exterior vazio denunciava que seus captores há muito lhe haviam abandonado. Era só uma questão de forçar a saída. Sua raiva falou, melhor, urrou, e o impacto de seus punhos fez a reforçada estrutura de sua cela destroçar-se. “Livre”, concluiu em um turbilhão de raiva. Livre para destruir…

Com os eventos do ataque à Costa Oeste, as ruas de Chicago tornaram-se ainda mais inseguras que o de costume. Enquanto as atenções das aturdidas forças da Lei e da Ordem se voltavam para como responder a uma investida sem precedentes contra o país, o crime se espalhou e ocupou os espaços que foram sendo deixados sem guarda.
O vigilantismo acabou por tornar-se mais comum também. Muitos que antes dariam de ombros e diriam ser trabalho da polícia passaram a assumir para si a responsabilidade de proteger seus espaços. O endurecimento das leis de registros de meta-humanos (IDM’s, como eram chamados) acabou por agravar a situação, desviando parte das atenções da lei para controlar essa parcela da população, e dificultando a vida até daqueles que tinham boas intenções, em nome de proteger a população dos perigosos.
Tudo isso passava pela cabeça de Neal enquanto ele patrulhava as ruas de Chatham. A noite parecia estar tranquila, estranhamente tranquila, mas ele sentia em seu íntimo que algo extremamente importante estava por acontecer. Foi por isso que ele exultou quando viu ao longe o que parecia ser uma luta, e ficou ainda mais radiante quando percebeu o que parecia ser a imagem fantasmagórica de uma mulher em tradicionais mantos islâmicos enfrentando dois agressores que atacavam um casal de idosos. Ele já ouvira falar dela, mas mesmo ele temia que fosse apenas uma lenda urbana: Djinn.
_______________________________________________________________

Trafegando entre os prédios com sua prancha voadora, Hoverboard parou por um momento sobre o terraço de um edifício menor para ajustar o sinal do rádio em seu capacete. A mensagem era bem clara, dois policiais estavam solicitando apoio, e sequer conseguiram terminar o pedido de socorro. O que quer que estivesse acontecendo, era próximo de onde ele estava, na área do porto, e parecia, pela resposta, que os reforços demorariam de chegar.
“Ótimo.”, pensou o impulsivo herói tecnológico, “eu não queria ter de lidar com a polícia mesmo.”
Hoverboard pousou próximo ao carro policial parado junto a um conjunto de armazéns no porto, para tentar fazer algo pelos policiais feridos. Um deles estava além da possibilidade de ajuda, seu corpo dilacerado pelo que pareciam ser mordidas. O outro estava inconsciente, e certamente com alguns ossos quebrados, mas seu conhecimento de primeiros socorros pôde deixa-lo estável até a ajuda apropriada chegar.
Outros também haviam escutado o chamado. Enquanto Hoverboard cuidava do policial, um carro de luxo parou próximo. Dele desceu Yokozuna, olhando em volta e procurando pela origem do pedido de socorro que interceptara. A eles se reuniram Ironpunch, Shadow e Bleach, que haviam acabado de chegar também, e começaram a tentar rastrear o atacante. A trilha de destruição logo se tornou óbvia, contudo, e seguindo-a eles puderam ver a criatura.
Uma monstruosidade de mais de dois metros de altura, de aparência meio insectóide, com uma carapaça como a de um besouro e presas como as de um louvadeus. O monstro virara o carro de um casal e avançava para atacar e destroça-lo.
Ironpunch partiu para a ação, desferindo um poderosos soco com seu braço biônico na criatura. Qual não foi sua surpresa quando o monstro não esboçou sequer ter sentido o ataque, exceto por roubar sua atenção para um novo alvo. Shadow avançou atirando com suas duas armas, mas vendo os disparos serem completamente rechaçados pela couraça do monstro.
Bleach contornou o combate, disparando contra a criatura, mas, vendo que seus tiros não adiantavam, concentrou-se em chegar ao carro para livrar o casal. Ele pensou em usar seu poder de disparo, mas acabou por traçar um plano alternativo.
Ao longe, escondido dos demais, Chacal observava a situação pela lente de seu rifle. Sua prodigiosa visão, aliada à amplificação da lente, permitia a ele avaliar que, mesmo com seu rifle de precisão, a carapaça do monstro seria difícil de superar.
Tratado o policial, Hoverboard avançou em alta velocidade, disparando seus dardos metálicos, mas percebeu que isso também não afetava o monstro. Ironpunch arrancou uma placa de sinalização da rua e, usando-a como um tacape, atingiu o monstro em cheio. Mais que atordoar, o golpe pareceu enfurecê-lo, e seu próximo ataque foi concentrado em Ironpunch, que num golpe foi arremessado longe, inconsciente.
Hoverboard pensou em se colocar entre o monstro e o inconsciente Ironopunch, mas sua ação foi interrompida pelos estrondosos passos de Yokozuna, arremetendo na direção do monstro e imobilizando-o contra a parede com sua força descomunal. De fato, Yokozuna percebia, a força da criatura era bem maior que a sua, mas sua técnica lhe permitia manter o monstro imobilizado.
Chacal aproveitou-se da situação como somente um atirador de seu talento poderia. Dois de seus tiros já haviam resvalado na carapaça da criatura, e ele tomou seu tempo para examinar atentamente o monstro, e perceber, assim como Yokozuna, de perto, vira, que o monstro parecia ter olhos humanos. Com precisão cirúrgica, ele efetuou mais um disparo, que dessa vez explodiu em sangue vermelho e preto numa das órbitas do monstro.
Os demais já haviam percebido a existência de um atirador oculto ao seu lado, e ficaram gratos de algo finalmente estar afetando aquela monstruosidade. Urrando de dor, o monstro empurrou Yokozuna e tentou fugir em direção ao porto. Foi nesse momento que o plano de Bleach entrou em ação. Enquanto os demais seguiam na luta, ele libertara o casal do carro e, com sua ajuda, o desvirara. Assim, quando o monstro tentou fugir, Bleach o acertou em cheio com mais de meia tonelada de aço, lançando-o na baía dos Lagos.
O combate terminara e o monstro, eles esperavam, se afogaria nas profundezas do porto. Restava, contudo entender de onde ele viera. Investigando um dos armazéns, eles encontraram uma passagem subterrânea que levava a uma espécie de laboratório secreto. Todos entraram, exceto Chacal, que permaneceu oculto dos demais, observando do lado de fora.
Lá dentro, viram uma espécie de cela de contenção com a porta destroçada. Um sistema que parecia dispersar algum tipo de tranquilizante dentro da cela estava claramente inoperante por falta de manutenção, como se a base tivesse sido abandonada à pressas. Alguns símbolos indicavam o grupo que mantivera aquela instalação: NDMH – Núcleo de Desenvolvimento Meta-Humano. A maioria deles nunca ouvira falar, mas Bleach reconhecia como uma unidade de pesquisa bélica do exército norte-americano, e Shadow preocupava-se, pois sabia ainda mais: era a divisão que havia atuado em sua reconstrução biônica.
Bleach recolheu os discos dos computadores que encontrou, para tentar recuperar algum dado útil. Na porta da cela, do que poderia ser uma identificação havia restado apenas dois pedaços de palavras: Hell wrath.
Sem mais nada para achar ali, e apreensivos com a chegada da polícia – de todos, apenas Shadow, um ex-policial, e Yokozuna, uma celebridade, eram registrados, os demais agindo de forma clandestina – eles decidiram partir e se reunir para decidir o que fazer na casa de Yokozuna. Sabendo que seria difícil levar Ironpunch com eles, eles o deixaram, já que estava estável, junto ao policial ferido, para ser levado a um hospital.
Quando saíram, Chacal entrou furtivamente, usando a abertura que a criatura tivera escavado para sair pelo outro lado do prédio. Percebeu que o que poderia ser alguma pista já tinha sido levado pelos demais, mas percebeu uma informação adicional que os outros não poderiam ter reconhecido. Ao examinar os destroços da porta de contenção, ele juntou alguns pedaços, apenas para se surpreender com o nome que se formava: Hellen Powrath. Mesmo um soldado de seu calibre, Chacal congelou por um segundo com a surpresa. “Como!?”
_______________________________________________________________

Os bandidos atacaram rapidamente, mais levados por medo e surpresa que por valentia propriamente dita, quando aquela figura fantasmagórica e nebulosa surgiu entre eles e o casal de idosos que eles tentavam roubar. Os golpes, contudo, atravessavam o corpo intangível de Djinn sem causar qualquer efeito.
Silenciosamente, seus olhos pareciam dizer aos criminosos: fujam, pois nada que vocês façam funcionará contra um fantasma. De fato, era esse o desejo de Scheherazade: resolver a situação rapidamente, para que as vítimas não fossem feridas como efeito colateral. Para reforçar sua ameaça, ela atravessou a cabeça de um dos bandidos com sua mão imaterial, liberando uma descarga de energia psíquica que o deixou inconsciente.
Antes que os demais pudessem fazer alguma coisa, um disco ricocheteou entre dois deles, e retornou, após esse perfeito arremesso, para as mãos do jovem de máscara dourada que acabara de chegar: Golden Boy.
O último dos ladrões tentou fugir, mas ao virar a esquina, deu de cara com a figura pálida em mantos negros, que olhou em seus olhos e disse com uma voz macabra: “ Lowen Hank, se você prosseguir nessa vida de crime, sua vida será muito curta…” Apavorado, o bandido jogou-se ao chão e começou a chorar.
Ao ver a figura se aproximando, Golden Boy também o reconheceu das histórias que pesquisara; ele era Mortuary, um homem cujo nome se esquecera, mas que dizia ter conexão direta com a morte, o que lhe dava o poder de enxergar a sina das pessoas. Ele circulava pelas noites escuras de Chicago, hora atemorizando bandidos e atuando como vigilante, horas visto como alguma espécie de profeta louco.
Mas nada deixava Neal mais animado que constatar que Djinn era real, não uma mera lenda urbana. Desde que ouvira falar dela (na época sem saber se era ele ou ela), ele sentira que era muito importante que ele a conhecesse, embora não entendesse bem o motivo. Era, como ele gostava de dizer, um nó do destino, algo que repercutiria em diversas situações e ajudaria a que “O Plano” fosse colocado em ação.
Djinn, por outro lado, via que a situação estava resolvida, e que o casal de vítimas já estava recomposto e seguindo, grato, seu caminho. Era hora de desaparecer na noite. Sua imagem começou a desvanecer – ao mesmo tempo em que ela se tornava sólida novamente – para sair dali. Ela tinha muito o que pensar: a época do grande ataque de seu tio se aproximava, e ela intuía que, dada a magnitude do ataque preliminar recente na Califórnia, nada menos que a destruição completa em uma referência como Washington ou New York satisfaria sua sanha destruidora. Ela pensava em partir para Washington imediatamente, para alertar as autoridades e tentar deter Mujahid.
Qual não foi sua surpresa quando Golden Boy segurou-lhe a mão, já invisível. Guiado pelo seu instinto e pela sua percepção psíquica avançada, Neal conseguiu segurá-la antes que ela desaparecesse completamente. A surpresa a fez reaparecer, espantada de alguém conseguir localizá-la.
Golden Boy sentiu então a mão de Mortuary sobre seu ombro, e sentiu o poder do profeta macabro se ativar. Foi como se ele visse aquele homem pálido ser substituído por uma presença, infinitamente assustadora, que falava através dele. O evento ativou o poder de Neal e sua capacidade de enxergar padrões, e ele viu um futuro, não tão distante, em que Djinn partia dali sem eles naquele momento e acabava morta por um homem que ele não conhecia, mas que sabia ser alguém próximo dela. Por outro lado, Neal enxergava um outro caminho, em que ela permanecia em Chicago, e várias imagens se sucediam, com ela cuidando de uma mulher desacordada, e acabavam em uma planície desolada, com ela cuidando de um homem muito ferido cujas feições ele não conseguia visualizar – e ele sabia que isso era de vital importância.
“Não vá”, ele disse a ela, “não vá para onde você pretendia ir. Fique em Chicago, aqui você será muito necessária, e lá você seria morta por alguém muito próximo de você.”
Atônita, Scheherazade apenas acompanhou os dois quando Mortuary pediu que eles o acompanhassem até o metrô. Lá, ele disse que havia vindo até aquele lugar porque tinha sonhado com aquilo, e tinha três mensagens a entregar ali: “Primeiro”, falou olhando para Neal, “pergunte-se como você pode ser quem você é e estar como está nos dias de hoje.”
“Segundo, lembrem-se: quatro vieram e virão, cada um com sua questão; a paz quer proteger e para tanto seu sacrifício veio, para dar à luz um novo meio; a guerra quer se propagar, e espalhará seu modo e sua mensagem, atraindo guerreiros para sua linhagem; a vida quer ajudar e, mesmo ao desaparecer, não cessa de surpreender; e a morte quer respostas, e as vai buscar, não importa o quanto custar.”
“Terceiro”, e ele fez uma pausa enquanto tirava o que parecia ser uma capa de jornal rascunhada de dentro de seu manto, “eu desenhei isso enquanto sonhava. Creio que será publicado amanhã, e creio que é para vocês que eu devo entregar.”
O jornal destacava duas notícias: uma falava de um combate no porto, em que um policial fora morto e outro fora ferido, que havia um suspeito preso inconsciente – Ironpunch – e testemunhas relatando a presença de um monstro. Acrescentava ainda o relato de dois novos ataques posteriores em regiões próximas ao Lago.
A outra matéria destacava o “golpe” em que o vigilante Arsenal, junto a um bando de arruaceiros, massacrara todo o primeiro escalão do governo de Springfield, a capital de Illinois (o estado onde Chicago fica) e efetivamente tomara o poder na cidade.
“Mas”, Golden Boy ainda perguntou, depois de ver as matérias do jornal e ver que Mortuary se preparava para partir, “por que você queria que viéssemos com você ao metrô?”
“Porque somente estando aqui você poderia encontrar com ele”, disse o profeta macabro enquanto entrava num trem do metrô. De outro trem descia uma figura que Golden Boy reconhecia como um dos vigilantes que ele mais desejava conhecer: Wishing Joe.
_______________________________________________________________

Na casa de Yokozuna, ele, Shadow, Bleach e Hoverboard decidiam o que fazer. Eles agora tinham dúvida se o monstro fora realmente destruído, e pensavam que talvez fosse interessante fazer mais buscas na área, para evitar novas mortes. Acompanhavam também o noticiário local, que mostrava da tomada de Springfield por Arsenal e seu bando.
Chacal os havia seguido, e tentou entrar na casa, e um conflito se armou, mas acabaram por arrefecer um pouco os ânimos, após ele se identificar como o atirador que os ajudara.
Bleach avisou aos demais antes de sair que partiria no dia seguinte para Springfield, para tentar interferir com a situação de Arsenal. Ele avaliava que se eles próprios, vigilantes, não resolvessem a situação de um vigilante renegado enlouquecido, o governo iria vir com tudo contra todos eles. Shadow concordou e combinaram de seguir juntos no dia seguinte. Acrescentou que, se sua investigação sobre os dados obtidos no laboratório desse algum fruto, avisaria a eles.
Hoverboard disse que ficaria na cidade, para o caso de o monstro atacar de novo, e Yokozuna também achou mais importante ficar.
Chacal seguiu Bleach, tentando intimidá-lo para conseguir os discos, sem lograr sucesso. Um novo combate quase aconteceu, impedido pela chegada repentina de Mortuary, saindo de uma estação de metrô. Olhando para os dois, ele apenas disse: “As respostas para as tormentas de qualquer de vocês dois não estão aqui.” Chacal imediatamente imaginou que deveria voltar ao local onde haviam enfrentado o monstro. Se era mesmo Hellen, ela poderia estar ferida e confusa, e ele precisava encontra-la.
Bleach ficara pensando sobre aquilo. No laboratório, e próximo ao monstro, sentira uma presença estranha, parecida com a de Ayers Rock. Seus contatos decodificaram o que restara dos discos, e a única informação recuperada era que experimentos de fusão genética houveram sido realizados em uma paciente chamada Hellen Powrath, cujos demais dados registravam como “inexistente”.
_______________________________________________________________

Wishing Joe se surpreendeu de estar sendo esperado por Golden Boy e Djinn – já ouvira falar de ambos – e mais ainda do jovem dizer que imaginava que ele talvez pudesse lhe ajudar a obter respostas sobre si mesmo. Golden Boy estava agora mais que convencido de que Joe era a chave para a primeira mensagem que Mortuary lhe dera.
Conversando sobre o “jornal futuro” que eles tinham em mãos, os dois decidiram que precisavam intervir em Springfield. Joe conhecia alguns heróis que já estavam se organizando para fazer alguma coisa, e eles poderiam ir encontra-los no dia seguinte.
Djinn disse que preferiria não ir. Após Golden Boy insistir, ela prometeu que permaneceria em Chicago, até mesmo porque, após a notícia sobre o monstro, ela pensou que seria mais útil para sua comunidade ali, naquele momento.
Saindo dali, Golden Boy e Joe foram para suas casas, preparar-se para a viagem do dia seguinte, e Djinn seguiu para o hospital onde Ironpunch era mantido sob custódia. Lá ela o acordou e o libertou das algemas, e percebeu que seu braço biônico havia sido inutilizado pela polícia. Infelizmente, ele não tinha nenhuma informação a mais para ajuda-la. Ele fugiu dali e ela seguiu para o porto, para investigar a situação.
Lá ela adentrou, invisível, no laboratório escondido, onde uma cena a aterrorizou. A inscrição na parede, Hell Wrath, lhe inspirava medo, mas a visão da criatura retornando, banhada em sangue, era matéria para pesadelos.
Curiosamente, o monstro parecia exausto, como se há muito não dormisse, e desmaiou em sua frente. Aos poucos sua aparência se reverteu a de uma mulher de cabelos loiros e feições duras, apesar de bonitas, como se fosse uma militar que já vira muitos combates.
Havia, então, uma pessoa presa dentro do monstro! Cobrindo-a com seu manto, Scheherazade a acordou. Ao que pôde entender, Hellen, como ela se chamou, era militar e estava, da última vez que se lembrava, em uma missão fora do país, há alguns anos atrás, quando sua unidade fora emboscada e todos mortos. Não sabia de nada além disso, nem se lembrava do que acontecera quando estava transformada, mas sentia uma presença em sua mente, algo que lhe causa calafrios.
Enquanto conversavam, Hellen entrou em alerta, dizendo que estava sentindo a fúria retornar. Scheherazade tentou acalmá-la, mas ela fugiu, dizendo que não queria machucar ninguém. Entrando pelos túneis do metrô, elas acabaram por acessar as galerias intermediárias, onde passavam tubulações de gás e eletrodutos. Em vão Djinn tentou acalmá-la de novo, apenas para ver a transformação acontecer e o monstro inadvertidamente romper as tubulações, causando uma grande explosão, da qual Djinn só escapou ficando intangível no último momento. Quando as chamas e a fumaça se dissiparam, ela percebeu que não havia corpo do monstro ali, e que, se queria ajuda-la, ela teria que encontra-la de novo.

View
ARKIS: Vanguarda - Temporada 03 Episódio 05(24)
De Volta à Terra, De Volta à Guerra: Os Sonhos que Você Ousa Sonhar

Vanguarda

Diário de Bordo
Codinome: Lusutan

Registro 00103

Diante de Doutor Gelidus, a tensão aumentou. Ele ofendia e se gabava abertamente para Quantum e os outros. Sabia que se havíamos chegado ate ele era porque não nos restava mais opções e mostrava que não tinha inicialmente interesse nenhum em nos ajudar, ainda mais porque tínhamos trazido Johann, seu filho, a quem ele considerava apenas como um experimento mal feito e uma falha descartável. Seus capangas, Gerard e Cybertech, nos cercavam e o último provocava constantemente, como se desejoso de um combate.
Jazz estava alterado, o efeito do Moonshadow combinado com as ofensas a Johann, sua mente matriz, o levavam a responder às ofensas de Gelidus com mais ofensas a seu pretenso intelecto, a sua ignorância às ocorrências universais e ao Evento Zero, e por vezes ameaçou ir embora dizendo que não havia ajuda a ser conseguida daquele homem.
Quantum, sentindo a urgência pelas atitudes de Jazz, tentava manter o grupo ali, suportando as ofensas e negociando com o Doutor Gelidus, mas as negociações não iam bem. Gelidus afirmava que estava envolvido e tomado num projeto muito mais importante e audaz, onde poderia evoluir a espécie humana e finalmente ser reconhecido pela sua genialidade. A distração de consertar o nosso “robô”, como ele se referia desdenhando de Jazz, não era motivo para se desviar de tal pesquisa. Ele no entanto deixou escapar que não agia sozinho, mas que também obedecia ou era patrocinado por alguém superior, que estava muito mais envolvido com tudo o que ocorria do que nós imaginávamos. Quantum chegou a oferecer um favor ou mesmo tentou atiçar sua curiosidade científica, mas Gelidus parecia se deleitar com os heróis precisando dele.
Isso seguiu-se até que Gelidus, em sua sequencia de ofensas a Johann, citou que seu filho era irrelevante, pois que tipo de filho é esse cuja vida irá se finalizar antes da do pai. Dr. Gelidus afirmava isso sabendo da deficiência física de Johann, que o tornava frágil e vulnerável a qualquer infecção ou doença e, provavelmente, reduziria seu tempo de vida. Johann então respondeu, dizendo que seu pai estava errado, pois ele já tinha a confirmação que viveria muito mais que o arrogante doutor. Ainda duvidoso, Gelidus questionou de onde viria suposto delírio, e então Jazz aproveitou e lançou masi um comentário mordaz à cegueira egocentrica do doutor, que compreendeu a verdade. Jazz era o futuro de seu filho sem futuro.
Agora interessado, Dr. Gelidus mudou de atitude e aceitou auxiliá-los, no entanto só permitiria Jazz e Johann em seu laboratório. Relutantes, os demais retornaram a Vanguarda. O caminho de retorno ainda foi tenso, visto que Cybertech não parava de provocar Magni e Gerard tentava seduzir Vega. Na nave, o Snickers não estava satisfeito em deixar Jazz e Johann a mercê do cientista louco. Esse desconforto aumentou quando eu perdi o contato telepático com ambos, aparentemente o Dr. Gelidus os havia levado para uma câmara psiquicamente e eletrônicamente protegida.
Discutimos rapidamente a situação e um plano foi rapidamente definido. Quantum elaborou um dispositivo de camuflagem visual e eletrônica e o passou para Zarus. Zarus então, como portal vivo que era, teleportou-se de volta ao laboratório de Gelidus e oculto pela camuflagem, começou a buscar Gelidus, Johann e Jazz no estranho complexo do cientista. Agora Zarus estava também inalcansável pela minha telepatia, mas pelo menos era um trunfo que tinhamos caso algo inesperado acontecesse.
O comandante não gostava dessa espera e quietude. Ele dizia que sempre que a Vanguarda ficava parada muito tempo, algo acontecia. Ordenou uma varredura total com os sensores e eu o obedeci. Para nossa surpresa, haviam realmente sinais estranhos sobre Leipzig, embaralhados por algum sistema de camuflagem avançado, era como se ele já tivesse previsto isso. Snickers olhou para Quantum que já trabalhava num disruptor dessa camuflagem. Em poucos segundos ele o preparou e o acoplou em um torpedo sem carga. Snickers ordenou e Toro disparou, provocando uma inofensiva explosão energética que revelou três naves, pouco maiores que caças, estranhas a tudo que já tinham visto na Terra. Infelizmente, a camuflagem da Vanguarda também se foi e o combate se iniciou.
Vega saiu da Vanguarda e engajou diretamente um dos caças, diminuindo o número de adversários da Vanguarda. Snickers fez uso de suas runas e reforçou magicamente os escudos, bem no momento em que éramos atingidos por mísseis dos adversários. Toro rapidamente concentrou os disparos em um deles que tentava agilmente esquivar-se, mas a mira do artilheiro era precisa demais e em poucos instantes, uma das naves já explodia nos céus.
Quantum trabalhava em um dos canhões de feixe para tentar uma tática diferente. Ele modificou sua energia para temporariamente sobrecarregar sistemas eletrônicos, para então tentarem capturar um dos pilotos vivos. Em poucos instantes o raio estava ajustado e mais um disparo certeiro de Toro derrubou a segunda nave dos céus intacta. Nesse momento, no entanto, fomos supreendidos com a situação da batalha de Vega.
Zarus havia aparecido no meio do céu, bem onde a Vanguarda anteriormente estava antes de iniciada a batalha. Vega moveu-se para agarrá-lo, mas ambos foram surpreendidos pela aparição de outro teleportador junto a Zarus, Run Saber. Run Saber sacou sua espada de energia e com enorme velocidade golpeou Zarus com intento assassino, mas Vega fora mais rápida e se interpôs ao ataque, resistindo como podia com seu campo de força pessoal. A nave contra a qual Vega lutava arremetia contra o estranho combate aéreo e, segundos antes de colidir, ela desviou a trajetória e seu piloto abandonou o cockpit, voando num jetpack.
Claramente eles brigavam por algo, um objeto que Zarus segurava, mas que o estranho piloto havia conseguido afanar das mãos dele enquanto tentava se afastar de Vega. Zarus então teleportou-se para sobre o piloto e começou a, aleatoriamente, arrancar fios e partes do jetpack, até que o piloto perdesse o controle. Zarus correu a mão para o objeto nas mãos do piloto e quando o agarrou, teleportou-se para a Vanguarda, mas inadvertidamente arrastando o piloto junto.
Vega tratou de avançar contra a nave abandonada, que circundava a Vanguarda em piloto automático, e arrancou consoles internos dela para desabilitá-la.
O piloto era claramente um andróide, aparência humana mas sistemas cibernéticos em seus braços e pernas eram claramente visíveis. Snickers o chutou rapidamente, tentando desacordá-lo, mas mesmo grogue, o piloto andróide contatou seus aliados e os chamou para convergir em sua localização.
Em instantes, mais de 30 sinais de teleporte eram registrados no interior e exterior da Vanguarda, com a aparição de mais de 30 Run Sabers, com seus sabres energéticos em punho, nos cercando por toda a nave.
Toro correu pelos corredores da nave, enquanto desviava dos Run Sabers que vinham aparecendo, e conseguiu chegar ao Armorial, onde retirou a L.I.F.T., apoiando a desproporcional e imensamente pesada arma num suporte enquanto a direcionava para o maior aglomerado de Run Sabers possível.
Zarus, percebendo que a situação só piorara, teleportou-se mais uma vez, mas como o piloto andróide estava tonto com o chute do comandante, ele levou o objeto de desejo dos andróides sem interferência.
A situação, entretanto estava num impasse. Os Run Sabers diziam, o que era estranho pois eles tinham a voz de Jazz, que o objetivo deles havia sido perdido com a fuga do mago, mas que o Bispo considerava a Vanguarda uma ameaça que precisava ser contida. Toro blefava que usaria a L.I.F.T. caso um combate se iniciasse, mas os andróides não recuavam, talvez por perceberem o blefe ou talvez por não saberem que a L.I.F.T. era capaz de explodir a Vanguarda e fazer chover fogo por toda a Leipzig.
Logo ouvimos uma voz pelos comunicadores da Vanguarda. Era a voz de Jazz, mas muito estranha, como se fosse fruto de uma gravação ou imitação feita por um simples computador frio. Ele dizia ao Run Sabers que havia se tornado o CoRe primordial, mas os Run Sabers negavam isso o chamando de 65. Ele então afirmava que havia evoluído para muito mais e que todos os demais 64 Run Sabers eram um erro. Ordenou que fossem embora ou ele subiria à Vanguarda para dar o mesmo destino a eles que os colegas deles. Os Run Sabers se entreolharam, claramente havia medo e apreensão, e disseram que o Bispo ficou curioso com o desenrolar dos fatos. Então, tão rápido quanto vieram, os 30 Run Sabers teleportaram-se, abandonando a Vanguarda e levando o piloto andróide com eles.
Percebemos que havíamos perdido também o piloto derrubado com o raio modificado por Quantum, provavelmente já resgatado pelos demais CoRe. A Vanguarda desceu para apanhar Jazz e Johann que os aguardavam nas ruas de Leipzig e fomos todos surpreendidos pela mudança na aparência de Jazz. A textura e cor de sua nanoderme havia mudando, assumindo uma aparência mais sombria e tecnorgânica. Seu movimento havia mudado também, sem nenhum movimento inútil outraço de sua personalidade, apenas eficácia precisa.
Era como se fosse um andróide completamente novo, e assim ele se referia, como Moonshadow, assumindo o nome da arma biotecnologica criada pela Gward, modificada pelos Vyrondianos e incorporada a seua estrutura CoRe. Era notório o ar de tristeza e desapontamento de Johann e Quantum, mas Moonshadow afirmava que o sacrifício de Jazz fora no intento de preservar Johann, e que tal lamento só insultava seu ato e era inútil para a missão a frente.
Moonshadow então revelou três outros CoRe que esperavam com ele, todos três também cobertos pela mesma Nanoderme modificada. Ele explicou que eram todos uma extensão de sua consciência, dominados a partir das carcaças das unidades CoRe Duke Oda, soldado de infantaria pesada, Chell, especialista em exploração e armadilhas, e Dyna Blaster, especialista em demolição. Segundo ele, os pilotos que atacaram a Vanguarda eram unidades Vic Viper, especialistas em pilotagem, que pilotavam naves de assalto classe Katakis. Vega trouxe o console de interface arrancado de uma das Katakis e entregou para Quantum estudar. Havia muita desconfiança no ar, mas não havia tempo para pensar na situação, logo todos estávamos na Vanguarda e precisávamos localizar Zarus.
Logo, Zarus entrou em contato psiquico comigo, revelando que havia escondido o experimento de Gelidus, alvo dos CoRe, sob o portal permanentemente aberto em Nova Delhi, sob a “guarda” dos dragões de Pendragon (visto que eles não sabiam do tesouro enterrado sob suas patas), mas que não retornaria a Vanguarda, informando que tentaria uma artimanha para se integrar à corte de Pendragon como Merlin, a fim de buscar mais informações sobre eles e recuperar sua jóia mágica, o Olho de Erlyk, que estava em posse do embaixador da Commonwealth, o umbrelando Elmo Negro.
Passei essas informações para os demais e sua decisão foi bem aceita. Quantum transmitiu um boa sorte para o mago andarilho que cruzara o caminho da Vanguarda de forma tão aleatória, mas tão fortuita. Discutíamos o que fazer quando percebemos que Moonshadow não se encontrava. entramos em contato pelos comunicadores e ele informou, sem se importar com sua ausência desavisada, que seguia para Nova Delhi em Huginn para reaver o projeto de Gelidus, pois o mesmo tinha um localizador rastreável que alguém (talvez o próprio Gelidus) poderia tentar buscar o item do esconderijo arranjado por Zarus. Sua lógica fria era correta (embora pudesse gerar um atrito maior entre a Commonwealth e a Confederação Global, tendo em vista a ação repentina e não aprovada dele), contudo todos estavam desagradados pela falta de aviso dele ao capitão e a seus antigos amigos, Magni e Quantum.
Johann aproveitou a ausência de Moonshadow e nos narrou psiquicamente o que ocorreu no laboratório de Gelidus. Gelidus revelou que já vinha pesquisando o problema de Jazz após o mesmo ter se consultado com o simulacro Victor Allen na Mythos Tech. Segundo ele, aparentemente havia muita similaridade dos dados da degeneração CoRe com a pesquisa de um outro misterioso cientista que Gelidus estimava como “colega de visão”, o autoproclamado Doutor Víbora. Gelidus entrou em contato com Dr. Víbora num canal seguro de comunicação e este explicou sua teoria, que ainda estava anos aquém de uma aplicação prática.
Era a da clonagem perfeita da consciência de um indivíduo. Víbora dizia que era possível dividir um cérebro vivo em duas metades e através de uma clonagem avançada, ainda não aperfeiçoada, reproduzir em cada parte a metade faltante, produzindo não só seres idênticos geneticamente (como numa clonagem usual), mas psiquicamente, e até talvez espiritualmente (teorizava Víbora). Ambos os cérebros se identificariam como o indivíduo original e seriam assim reconhecidos por qualquer sistema ou análise (mesmo mágica), pois ambos tinham porção o suficiente do cérebro original para sem considerados como tal.
O procedimento poderia ser repetido em cada um dos novos indivíduos, produzindo 4 cópias da mesma forma. Segundo os estudos e cobaias do Doutor Víbora, essa repetição poderia se seguir até a 7ª interação, produzindo 128 indivíduos. Após isso, a porção do cérebro original em cada indivíduo era tão pequena que o mesmo não mais se reconhecia como um ser ou mesmo parte de um, e então iniciava-se um processo degenerativo exponencial de perda de identidade, funções neurais e até a morte inevitável. Era o limite encontrado no cérebro para a contenção da consciência humana.
Gelidus comentou que a teoria do Doutor Víbora batia em quase tudo com a descrição de Jazz, e considerando que Jazz veio do futuro era possível admitir que alguém seguiu e aprimorou seu projeto a ponto de fazer dele uma realidade. No entanto, Jazz afirmava ser a cópia número 65 e já apresentava a degeneração típica da cópia 129 em diante. Jazz se antecipou e concluiu que algo aconteceu com o cérebro na primeira divisão, reduzindo o número de cópias totais possíveis para os CoRe do modelo Run Sabers, Gelidus confirmou que seria uma possibilidade.
Gelidus então aprofundou no caso de Jazz. Quando era Run Saber, Jazz possuía um cérebro orgânico mas o destruiu em um suicídio por enorme arrependimento ao acreditar ter matado um homem. O cientista William Mnemosin, o falecido herói Prometheus, buscou uma alternativa para tentar ressuscitar o companheiro e usou de nanobots para copiar e reproduzir inteiramente a identidade do cérebro. Jazz não possuía um centro, cada nanobot tentava reproduzir inteiramente o ser que Run Saber era, simulando o que seriam mais de um milhão de cópias CoRe e acelerando o processo de degeneração. Os nanobots, entretanto, passaram a agir em conjunto para suprir as perdas de memória e identidade um dos outros, sendo assim capazes de evitar um avanço desenfreado da degeneração, por um tempo. Com os danos e reparos ao longo das lutas e somado às vezes que Jazz projetou sua consciência em outras máquinas através de seus nanobots, a taxa de degeneração veio finalmente a superar grandemente a compensação pelo trabalho em conjunto das IAs.
Gelidus explicou que primeiramente era necessário concentrar e centralizar toda a identidade dele numa única unidade e deixar os demais nanobots apenas como subordinados, como células obedecendo aos desígnios de um sistema nervoso central. Mas era nesse simples conceito que residia o problema, mesmo o melhor computador desenvolvido com sua capacidade ampliada em milhões de vezes seria incapaz de conter a identidade completa de um indivíduo. O máximo que teria seriam todos os minusciosos dados de memória e experiências vividas pelo indivíduo, mas traços de personalidade, capacidade criativa e mesmo os sonhos não possíveis de serem contidos em nenhum receptáculo, exceto o cérebro humano.
Haviam ainda perguntas a serem respondidas, das quais Gelidus questionava Jazz sem sucesso, pois o mesmo nada lembrava de sua vida no futuro. Ele então sugeriu que Jazz se conectasse a um de seus dispositivos a fim de extrair o que restasse dessas memórias em seus sistemas. Jazz rapidamente aceitou e ao se conectar ao maquinário, entrou num estado de transe. Foi quando Johann tentou interferir com a ação de Gelidus, ao ver Jazz indefeso a quaisquer manipulação de seu inescrupuloso pai. Gelidus reagiu revelando sua forma transformada em um ameaçador monstro de gelo e congelou as pernas do próprio no chão, afirmando que um fracasso deveria não interferir enquanto um gênio trabalhava.
Em uma grande tela algumas das memórias de Jazz passavam rapidamente, sendo coletadas e traduzidas pelos computadores do laboratório.
Primeiro víamos Jazz, em seu corpo de Run Saber, em meio a uma cidade sendo vítima de uma destruição desenfreada, ondas de energia inundavam as ruas exterminando tudo em seu caminho. Era claramente o Evento Zero, num estágio mais avançado ao que foi revelado nas visões de Vega.
Depois mais uma vez mostrava-se Run Saber ao lado de outra unidade CoRe, Sigma, ao lado de um homem adulto, repleto de próteses cibernéticas, sob uma cama sendo mantido vivo por aparelhos e, mesmo assim, em seus últimos momentos de vida. Sigma comenta que esse era o último homem do universo, o último vivo após o Evento Zero. Jazz reconheceu o homem como Quantum, logo quando os aparelhos indicaram seu falecimento. Sigma afirmava que Memento Mori logo estaria pronta e precisariam cumprir sua missão.
O cenário mudou para um ambiente bonito, casas civis, Jazz se via como um humano com sua mulher e filhos. Tinha uma atenção especial para sua filha, mas logo sentia que viva uma mentira, uma realidade virtual. Ele se desconectava e via a realidade da Terra, um ambiente avermelhado, com uma atmosfera tóxica e completamente coberto por cadávers. Ele via alguém caminhando entre os cadáveres até que reconhecia o Inominável. Ambos conversarvam algo, mas nenhuma palavra da conversa foi captável pelos aparelhos de Gelidus.
A última lembrança foi a da montagem do próprio Run Saber 65 por um indivíduo não identificado. Logo os primeiros sinais da degeneração CoRe foram notados, quando a unidade não lembrava de sua missão, e o montador, surpreso pelo quão cedo nas cópias isso aconteceu, pôs-se a desmontar e descartar o 65. Em meio aos pedidos de clemência da unidade 65, ela revelou saber seu nome original, Johann Allen. Surpreso e comovido o montador remontou a unidade, orientando que a missão era a de garantir o Evento Zero e implorando que ela se comportasse.
Em meio a essa última lembrança, uma explosão acontecera no laboratório. Os CoRe haviam invadido atrás de algum experimento de Gelidus, que ele afirmava ser capaz de desenvolver poderes extraordinários em qualquer ser, humano ou não-humano. Gerard e Cybertech lutavam contra as unidades CoRe inflitradas no laboratório enquanto Gelidus criou uma imensa barreira de gelo isolando ele, Johann e Jazz do combate.
Deduzimos que foi nessa hora que Zarus, infiltrado e camuflado, se apoderou do experimento de Gelidus antes do CoRe e teleportou-se para fora, tentando fugir dos CoRe de volta para a Vanguarda, e sendo perseguido pelas unidades Run Saber ocultas em Leipzig
Os CoRe remanescentes pareciam se concentrar em se defender dos capangas de Gelidus e em destruir o laboratório e as pesquisas do doutor. Com a confusão e explosões Jazz despertou, e rapidamente tomou ciência da situação. Gelidus propôs usar os recursos dele para realizar a arriscada cirurgia de separar e clonar o cérebro de Johann a fim de recuperar Jazz para ele auxiliar no combate. Jazz riu dizendo que aquele era o ponto do loop onde o cérebro de Johan seria previamente dividido em dois para recuperá-lo, o que faria com que no futuro só fosse possível existir Run Sabers estabilizados até a unidade 64.
Jazz então afirmou que não sujeitaria Johann a tal risco, sacrifício e multilação e rendeu seus sistemas ao Moonshadow. Em poucos instantes, Moonshadow consumiu metade dos maquinários de Gelidus, que enfurecido o ordenava para sair de seu laboratório e rapidamente subjugou e dominou as três unidades CoRe agora sob seu controle.
Moonshadow retornou a Vanguarda com o experimento de Gelidus, um estranho tubo de ensaio reforçado por um lacre tecnológico com um líquido azulado. Guardamos o experimento e voltamos a discussão de para onde ir.
Quantum sugeriu e mais uma vez foram consultar Mimir no Olho de Odin. Moonshadow, entretanto, não foi com os demais. Quando retornaram, poucas novidades foram ditas e trouxeram de volta Hefestos da Fonte. Este, entretanto estava mais alterado que o normal, devido a sua exposição desprotegida na Fonte (acreditávamos que ele era capaz de resistir, mas ficou claro que estávamos equivocados).
Snickers mandou traçar o curso do motor de portais da Vanguarda de volta para o espaço, especificamente o setor espacial do Espaço Bélico, domínio da guerra entre os Wangari e os Darkoni. Lá fora onde a Vanguarda encontrou o Olho de Odin e seria de lá que rastreiaríamos o paradeiros dos demais Arkitetos, a fim de destravar as informações mais secretas do Evento Zero contidas na Fonte.
Pude sentir na mente de todos o que aquela viagem significava. Estívemos poucos meses de volta a Terra, o planeta natal ou adotado por cada um da tripulação e agora partiam, uns pela segunda vez e outros pela primeira. Alguns, entretanto que aquele era o verdadeiro retorno ao lar, pois já não viam na Terra uma casa, mas sim encontravam seu conforto nas estrelas, sob o casco protetor da nave que escolheram como casa, a Vanguarda.

View
ARKIS: Vanguarda - Temporada 03 Episódio 04(23)
De Volta à Terra, De Volta à Guerra: Cérebro, Coração e Coragem

Vanguarda

Diário de Bordo
Codinome: Lusutan

Registro 00102

Dois meses após os eventos da Lemúria, estávamos ainda compreendendo e decidindo qual seria nosso caminho. Enquanto a Vanguarda era reparada na Mythos Tech, devido aos danops da viagem ao centro da Terra, Quantum crescia em preocupação ao observar as análises do estado de cada tripulante.
Ele havia descoberto que mais uma de minha mentes havia morrido ao protegê-los do terror psíquico de Tifão, mas pedi que ele mantivesse essa informação em segredo, a fim de não preocupar Magni, que já tinha tormentos internos demais.
Magni não se curava, era certo que não se tratava dos ferimentos de Gungnir, mas sim, como Hefestos disse, dos danos provocados ao Mjolnir. A ligação entre ele e o martelo era profunda demais e ambos compartilhavam poder e danos. Quantum ainda não havia descoberto como reparar o Mjolnir, nem como estabilizar as mutações decorrentes do Protocolo Arkis. Ele apenas conseguia que direcionar as possibilidades de mutações para situações menos incômodas.
Também ele analisava Jazz, que aparentemente tinha encontrado uma forma de retardar a degeneração CoRe. Ao estudar uma amostra da nanofrota dele, havia descoberto que ele havia sido infectado pelo Moonshadow, o experimento falho Gwardjanni que fora transformado em uma arma de apetite voraz pelos Vyrondianos. De alguma forma o Moonshadow estava se comportando diferente ao interagir com Jazz, atrasando a degeneração mental, mas substituindo a personalidade dele por algo diferente, mas frio e impiedoso. Quantum poderia usar a frequência fornecida pelo Guardião Alfa para retirar o Moonshadow, mas sabia que isso traria toda a degeneração mental a tona de novo, e provavelmente Jazz não resistiria um mês sequer.
Quantum ficara curioso com as análises que fez na luva de Manopla Estelar. O rapaz havia sido enviado até eles pelo Professor Fernando Oliveira, um dos criadores da Vanguarda e CEO da Corporação Guardião. A aparente luva medieval de ferro recebia uma estranha energia vinda do espaço e a convertia em energia eletromagnética apenas quando de posse do rapaz, do contrário, não era nada além de uma luva inerte. Ele também identificou que outro sinal energético similar (embora não idêntico) era recebido em outro lugar da Terra, especificamente, por Vega.
Magni e eu fomos até o abrigo que havia sido criado em Jerusalém para proteger os arkeontes afetados pelo Protocolo Arkis. O local havia sido devastado e nenhum dos arkeontes que lá estiveram sobreviveu. Segundo a E.I.E., o ataque fora causado por Hyperion, um antigo arkeonte dos Titãs, casa que havia sido aprisionada pelos Olimpianos séculos atrás. Libertos graças aos efeitos do Protocolo e munidos da tecnologia ainda funcional da oficina de Hefestos, promoveram um grande caos e destruição para aplacar sua vingança. O grupo de heróis que se formara da arruinada Justiça Suprema conseguira aprisionar Hyperion em outra dimensão e derrotar seus fieis servos. A maior parte dos Titãs passaram a ser comandados pela sensata Io e fizeram as pazes com os poucos arkeontes sobreviventes.
Vimos a distância um vulto andando pelas corpos calcinados. Magni logo reconheceu o Sem Nome, que os da Terra chamam de Inominável, que vagava coletando as almas dos mortos. Segundo Magni percebia, ele buscava apenas almas específicas, dotadas grande valor ou feitos, fossem arkeontes ou humanos. Num campo onde centenas de supostos deuses e agentes treinados foram chacinados, ele tinha uma colheita farta. Magni disse que queria falar com ele e me pediu para deixá-lo sozinho. Antes de alcançá-lo, Magni percebeu um enraivecido rapaz em meio ao campo, era o agente da E.I.E. Thrust, o qual suspeitava ter algum parentesco com Modi. Magni me pediu para acalmá-lo e fui até ele enquanto deixava Magni ter a conversa privada que queria com o Inominável.
Ao nos reunirmos, contei que Thrust havia perdido um suposto tio distante no campo, que se revelara arkeonte com os efeitos do Protocolo. Expliquei a Magni que provavelmente esse “tio” deveria ser avô ou bisavô de Thrust, pois o rapaz sempre o vira relativamente jovem e não tinha grande contato com a família. Provavelmlente esse “tio” era o arkeonte puro descendente de Mödi e Magni. Enquanto indagava sobre aquilo, um brilho chamou-nos atenção, revelando a presença de Surtur que descia voando ao nosso encontro. Surtur já fora um general Vyn de Balder, mas com a extinção da infecção pela arma Hati/Skol concebida por Johann e Snickers, ele agora era um sol-vivo e um auto-proclamado herói da Terra. Ele agradeceu Magni pela sua salvação dos Vyn e nos disse que viera para a Terra a pedido de Johann, pois há quatro anos ele não conseguia contato com a nave. Decidimos retornar para a Mythos Tech a fim de nos reunirmos com os outros e entrarmos em contato com Johann.
Retornamos à Mythos Tech e encontramos Quantum questionando Vega sobre a origem dos poderes dela, mas ela mesmo pouco sabia. Ela conta como encontrou os braceletes numa expedição de resgate, mas nunca soube de onde vinheram e de onde drenavam seu poder. Quantum explicou as descobertas que teve sobre a similaridade da luva de Manopla Estelar e dos braceletes dela, mas eu nem precisava ser telepata para perceber que as atenções dela estavam voltadas apenas para Cinetic, seu filho. Ela inúmeras vezes procurava saber se ele estava bem, e não tirava os olhos dele. Isso atiçou a curiosidade de Golden Boy, um dos remanescentes da Justiça Suprema e amigo de Cinetic que estava presente na conversa.
Me aproximei e questionei a Vega se ela ainda havia novamente tido as visões que o horror cósmico da imagem de Tifão havia lhe revelado. Ela confirmava que não conseguia ter outro sonho e concordou que eu mostrasse a todos as imagens que fervilhavam em sua mente desde então.
Nesse momento, Zarus e Hefestos apareceram repentinamente no meio do laboratório. Era mais um dos saltos dimensionais de Zarus. Ele estava afoito e trazia uma notícia preocupante, havia visto no televisão que o Ministro de Relações Exteriores da Commonwealth era o Elmo Negro, o pesadelo umbrelano que encontramos na outra Terra, enquanto estivemos presos numa dimensão paralela. Zarus confirmava que era ele mesmo, pois havia visto no noticiário que ele ainda portava o Olho de Erlyk, a gema mística que ampliava os poderes de Zarus e que havia sido roubado pelo pesadelo quando golpeou mortalmente o mago andarilho.
Golden Boy explicou que Elmo Negro era um dos Ministros de Pendragon, antigo super-herói e atual rei da Grã Bretanha, o mais poderoso líder da Commonwealth. Discutimos a questão e temíamos que Elmo Negro, ou mesmo que Umbra, estivessem controlando o poderoso rei, e o usando para discretamente expandir sua influência pelo mundo. Magni e Zarus diziam que precisavam tomar alguma atitude quanto a isso. Magni claramente era movido por um senso de dever, pois havia feito um trato com o pesadelo em troca de poder para deter seu irmão, Modi, mas acabara sacrificando o corpo e a alma de um antigo guerreiro humano, o samurai Musashi, cuja história assemelhava-se muito à dele. Zarus possuía um certo heroísmo em suas intenções, mas sua mente fervilhava mais em retribuição pela ferida mortal e pelo roubo de seu artefato.
Golden Boy alertou que precisavam pensar melhor o curso das ações deles. Elmo Negro era um delegado oficial de Pendragon e agir contra ele seria agir contra toda a Commonwealth. Pendragon, por si só, já seria um adversário extraordiário, capaz de golpear com o mesmo poder e destruição de uma ogiva nuclear.
Jazz chegava e se inteirava da situação. Ele havia estado a maior parte do tempo junto a Victor Allen, buscando uma forma de curar a Degeneração CoRe, mas até então sem nenhum sucesso. Mal conseguia captar qualquer eco emocional dele, era como se ele apenas estivesse levemente instisfeito e resignado.
Aproveitei a presença de todos (não conseguia sentir nem Snickers nem Toro nas proximidades) e expliquei o desejo de Vega, de compartilhar telepaticamente as visões que ela teve ao receber o terro psíquico de Tifão. Uni todos num elo mental e dei forma às imagens gravadas nas memórias de Vega. Jpa sabíamos de sua verdadeira identidade, pois ela havia nos revelado que era Lucky Wei (a versão desta realidade da corajosa resgatista que morreu nos ajudando na outra Terra), então as imagens foram bem claras e nítidas.
Todos viram um apático Cinetic, com seus poderes elevados além de quaisquer limites possíveis, desmantelando e adulterando prédios, carros e pessoas, analisando seus componentes cuidadosamente e lançando-os para o lado como se nada fosse. Ele não estava sozinho, haviam outros que como ele, de forma diferente, dissecavam a realidade em busca de algo que não encontravam. Eventualmente, eles iam pouco a pouco se erguendo para o céu e aos poucos desaparecendo. Todos sentíamos, como Lucky sentiu na primeira vez que teve essa visão, que esse evento não ocorria só na Terra, mas que era muito maior.
Jazz e Quantum, que vieram do futuro, não tinham memórias do que era o Evento Zero, mas sabiam claramente de suas consequência e do tipo de mundo desolado deixado após ele, logo afirmaram sem pestanejar que aquilo era o Evento Zero. Cinetic estava estarrecido com a revelação e agora compreendia a incansável e preocupada mãe. Magni dizia que precisavam buscar os criadores da Vanguarda em busca de respostas da missão original.
Enquanto discutíamos, o Senador David Hunter chegou nos convidou a uma sala de reunião a fim de apresentar ao tripulantes da Vanguarda, cuja presença no planeta ainda era um segredo para o público maior, qual a situação atual em que a Terra se encontrava. Na sala estavam presentes os outros remanescentes da Justiça Suprema: Hermes, um velocista descendente do Hermes olimpiano; e Whyz’Kid, um menino com poderes mágicos; além do recém admitido membro da E.I.E., o Guardião Alfa, antigo membro da Gward.

O mundo estava dividido em dois grandes blocos políticos. A Confederação Global, que vinha se fortalecendo ao longo dos anos com um parlamento mundial e que faz uso das ações da E.I.E. para manter a ordem e agir em casos de crises maiores (inclusive envolvendo Individuos Extraordinárias, ou IEs, termo usada para identificar os superseres). O outro bloco era a Commonwealth, recém-restaurada e fortalecida pela posse de Pendragon como rei da Inglaterra, que não aceitava as intervenções da E.I.E. em seu território, e fazendo uso de suas próprias forças, como o grupo Távola, composto por outros IEs como Morrigan, Fallen e Sanctum. Alguns países declaravam sua neutralidade, e ele evidenciava o Japão como uma potência neutra.
Ele dizia que mais e mais países saíam da neutralidade ou da Confederação para se juntar a Commonwealth, muitos por causa da força de Pendragon tem mostrado e graças a habilidade diplomática de Elmo Negro, que age como seu ministro.
Outro neutro de destaque é Israel, que até 2 meses atrás era a sede da Confederação Global, mas após as destruições e mortes decorrentes das ações de Hamurabi e Hyperion, declarou que a participação na Confederação ou na Commonwealth era nociva para seu povo.
Os blocos não eram inimigos declarados e nem estavam em guerra, mas claramente havia uma tensão política mundial sob como as relações entre eles iriam se dar. Em especial, a situação dos Estados Unidos, antiga potência mundial, era a que mais gerava apreensão. Hunter dizia que há alguns anos atrás, um terrível ataque de um grupo de IEs identificados como Eixo do Mal devastou e afundou o estado da Califónia, matando milhões. Sequencialmente ocorreram ataques à capital deles, Washington, que culminou no assassinato do presidente e na dissolução do grupo de IEs oficial norte americano, a Aliança Suprema. Esses eventos somados aos recentes eventos do Protocolo Arkis e a extinção do grupo de IEs mundial, Justiça Suprema, gerou uma grande desconfiaça da população do lado oeste do país em relação à eficácia da Confederação Global. Eles estão protestando para que se filiem à Commonwealth e o governo oficial do país, ainda baseado no lado leste, pretende manter sua aliança e filiação histórica a Confederação. A situação não se tornou um conflito aberto, mas diversos incidentes vêem ocorrido com mais frequências entre as duas metades do país.
A outra situação que recentemente se estabeleceu foi a revelação da existência dos Lemurianos. Agora que sua presença era conhecida pelas nações da superfície, o xenófobo imperador Charybdis ordenou a tomada do continente gelado Antartida, que fica sobre a cidade subaquática da Lemúria, e expulsou todos os turistas e cientistas de outras nações, definindo o Território Lemuriano e declarando que serão considerados inimigos quem ultrapassar suas fronteiras, independente dos blocos. Tanto a Confederação e a Commonwealth estão tratando esse caso com muito cuidado, visto não se fazer idéia do poderia bélico dos Lemurianos e do possível controle que eles possam ter sobre as massas oceânicas e a vida marinha do mundo.
O último elemento que ele nos mostrou em seu mapa é a presença de um portal em Nova Delhi, aberto acidentalmente por Stargazer, um poderosíssimo superser que se aliara aos remanescentes da Justiça Suprema, que leva para uma espécie de dimensão infernal onde monstros demoníacos cibernéticos que tentam invadir a nossa realidade. O portal foi estranhamente estabilizado e todas as tentativas de fechá-lo falharam até então. Estando no território da Commonwealth, foi negada a E.I.E. a autorização de intervir, e Pendragon colocou sua tropa especial Spitfire, composta de cavaleiros de dragões, para evitar a passagem de qualquer criatura pelo portal. Foi nesse portal que Hyperion foi aprisionado, sem poderes.
Jazz fazia comentários frios sobre a incompetência da Confederação Global em resolver seus problemas, dizendo que era natural estarem perdendo território para Arthur Quest, o Pendragon. Hermes protestou dizendo que aquele não importa a aparência dele, ele não era o herói Arthur Quest, pois Excalibur, como ele era conhecido, jamais aceitaria sacrificar algumas pessoas de sua nação para salvar a maioria. Ele então nos contou que, quando Hamurabi deu o ultimato de que as nações da Terra entregassem seus arkeontes para ele os executar, Pendragon foi o primeiro que se moveu e capturou os arkeontes celtas e os entregou para serem executados em troca de sua nação não sofrer a interferência de Hamurabi e seus agentes. Jazz balançava a cabeça, vendo a ação como lógica, e pude perceber a raiva crescendo em Hermes e a preocupação crescendo em Vega e Quantum.
David Hunter partiu então para descrever as atuais ameaças de grande porte que estão registradas e possivelmente ativas no mundo.
Pelos relatos de Cinetic, cerca de 33 monstros da prole de Tifão (ou Cthulhu, como insistia Zarus) haviam atravessado a fenda e se ocultaram no mundo. Cinetic explicava que ele era capaz de sentir quando coisas daquele tamanho se moviam a certa velocidade, mas agora ele nada sentia. Ou eles estavam parados ou se moviam muito lentamente, no limiar de sua percepção.
Hunter citou também sobre os criminosos da guilda de assassinos galáticos chamada Alcatéia. Segundo o levantamento de Guardião Alfa, a Vanguarda e ele foram capazes de prender 39 membros da guilda (que foram transferidos para serem detidos em instalações da E.I.E.), mas ainda havia 46, entre eles Ryker Dahl, o líder da Alcatéia, que caíram na Terra em módulos de fuga (os demais tiveram suas mortes confirmadas). Devido às ações de Hamurabi, que controlou a rede digital mundial, e a simultaneidade de eventos, nenhum satélite registrou as localizações de aterrissagem deles. Hunter informava que haviam equipes da E.I.E. designadas para rastrear e apreender esses 46 alienígenas, mas que tinham muitas restrições de agir em regiões próximas às áreas da Commonwealth.
Ao tocar no assunto dos eventos de Hamurabi novamente, Hunter trouxe outra ameaça de grande porte, os Verdugos. Ele explicou que quando Hamurabi se revelou no Parlamento de Jerusalém, tomou o controle dos andróides da Justiça Suprema, Silverstar e Iron Maide, fazendo uso dos resquícios das Tábuas do Destino arrancadas do corpo do líder da Justiça Suprema, Coronel Lead. Ele os alterou, aprimorou e programou neles uma função primária do Protocolo Arkis, a de executores de arkeontes, os Verdugos. Com a derrota de Hamurabi, eles sumiram das vistas e claramente estão seguindo sua missão, pois tem se registrado eventos de execuções rápidas de antigos arkeontes em todo o mundo. Todas as ações da E.I.E. e da Commonwealth de localizá-los e proteger seus alvos tem se mostrado ineficazes. De alguma forma eles conseguem permanecer invisíveis a qualquer tipo de registro e detecção tecnológica e mística, provavelmente uma das aprimorações feitas através das Tábuas do Destino. Nem se sabe se ambos estão na Terra, pois é sabido que existem arkeontes no espaço, snem se sabe quais suas fraquezas e como seria possível detê-los. Segundo os levantamentos feitos no Campo de Refugiados Arkeontes, antes de sua dizimação por Hyperion, devem existir em torno de 500 arkeontes vivos e sem poderes no mundo e 2000 híbridos vivos, os possíves alvos secundários.
Magni preocupou-se especialmente com essa ameaça. Ele sentia que parecia ser a sina de sua espécie ser exterminada e dizimada. Já testemunhou a extinção de seu clã e vira a devastação no Campo de Refugiados, onde cerca de 300 arkeontes foram brutalmente assassinados. Aquilo afetava sua moral como poucas coisas. Jazz argumentava o porquê não se havia pensado em abandonar o planeta ainda. Essa observaçõo foi recebida com surpresa e repudia por todos, especialmente Vega. Quantum, também surpreso, contra argumentava que não havia como mover tamanho grupo de pessoas em pouco tempo, seria necessário anos de trabalho, recursos que não tinham a disposição e, além de tudo, um planeta de destino que pudesse oferecer condições de sobrevivência humana. Magni comentava que talvez os feldron estivessem certos, embora a Terra não fosse um ovo Vyn, ela parecia mais ser uma ameaça ou estar condenada. Vega recusava-se a aceitar essa rendição, e Hunter a apoiava.
Golden Boy lembrou que havia as ameaças dos Lordes Vampiros, que segundo os antigos arquivos da Justiça, um grupo de IEs já extinto, eram em torno de 10 poderosos vampiros e que o herói que se declarava como adversário deles, o Justiceiro Sombrio, já fora morto, o que indicava que eles transitavam livres pelo mundo. Hunter falou que estava ciente da ameaça, mas que tinha diversas declarações do Augúrio, um grupo de IEs patrocinados pela Ankh Corporation e auto-denominados investigadores do sobrenatural, que eles estariam tratando a questão dos vampiros.
Golden Boy foi então levantando sua teoria sobre um Overlord, mas foi bruscamente interrompido por Hunter que dizia que enquanto não houvesse alguma evidência além das teorias de fantasmas do rapaz, ele não perderia tempo com isso.
O senador estava enfadado, dizia que ainda havia a ameaça de Warlord, um híbrido arkeonte descendente do olimpiano Ares, e os seus Soldiers of Fortune, um grupo de ex-militares criminoso transformados em IEs de diversas formas particulares. Warlord quase causou uma nova guerra mundial 4 anos atrás e é considerado como criminoso internacional tanto pela Confederação Global quanto pela Commonwealth. Desde sua derrota e fuga, ele e os Soldiers of Fortune sumiram do mapa.
Hunter comentou que essas eram as maiores ameaças a solta. Felizmente, ele disse, o espectro chamado Eclypse continua preso e detido pela E.I.E. e pequenos problemas, como os gangue de motoqueiros do IE Hell Brimstone eram ameaças mais administráveis.
Hunter comentou que oficialmente as forças da E.I.E. agiam pela Confederação Global, e quando os recursos estavam muito comprometidos também faziam usos da Vexon, uma junta paramilitar mercenária que prestava serviços à Confederação. Além disso, haviam alguns grupos independentes ou semi-independentes de IEs que agiam tanto na Confederação quanto na Commonwealth (em ambos às vezes com permissão, às vezes de forma ilegal e oculta), como os remanescentes da Justiça Suprema, patrocinados pela Mythos Tech, mesmo com ausência do quase onipotente Stargazer (que partiu para cuidar de sua filha que fora a hospedeira da vontade de Hamurabi, durante a ativação do Protocolo Arkis) e o Augúrio da Ankh Corporation. Muita vista grossa era feita sobre esses grupos.
Magni disse que a maior ameaça não havia sido dita, que era o Evento Zero. Hunter, no entanto, evidenciava que não havia nenhuma informação concreta sobre como e quando ele ocorreria. Sabíamos que era um evento de extinção universal e que a Terra tinha um papel fundamental no seu início, mas fora o visão de Vega, não tínhamos idéia do que realmente era. Segundo Quantum, pelo que ele percebia, ainda não havíamos conseguido desviar nosso caminho desse aparentemente inevitável futuro.
Jazz questionou sobre o paradeiro de Run Saber, que havia fugido após derrotarem um monstro da prole de Tifão no Hawai. Hunter respondeu que ele desapareceu desde então e soltou um alerta na E.I.E. para detê-lo ao menor sinal. Jazz estava claramente preocupado, sabia que havia mais outros como ele na Terra, mas não sabia seus objetivos.
Então fomos todos surpreendidos por Hefestos, que gritava feliz dizendo que finalmente havio lembrando o que levara o mês inteiro tentando recordar com Zarus. Ele tinha recordado exatamente os nomes os 7 Arkitetos arkeontes que haviam traído e prendido Arkis. Eram eles: Odin, pai-celestial da casa Aesir, morto pelo vyn Loki; Cronus, pai-celestial da casa Titã, fora preso pelos seus servos e pelso Olimpianos ao tentar consumir todos; O Trimurti, a trindade dos pais-celestiais Brahma, Shiva e Vishnu da casa Deva, sempre entoando seus mantras e meditando; Nyle, uma integrante esquecida da casa Egípcia, cujo nome fora a inspiração para o Rio Nilo, considerado berço da vida para aquela casa; Malakh, arkeonte de uma casa esquecida e que desaparecera da história; Angnin-Locus; o mestre-modelador da Atlântida e mentor de Hefestos; e Esper, da Atlantida, que notoriamente tinha desavenças com Nyle.
Magni recordou que na Fonte de Mimir poderiam haver mais respostas, dizendo inclusive que Mimir deixou bem claro que agora que sabíamos dos Arkitetos, era possível perguntar sobre eles. Entrando em consenso, a tripulação acompanhada de Hefestos, Manopla Estelar, Cinetic e Vega, foi para a Fonte, usando o livro Olho de Odin para acessá-la. Ao retornarem, eles contaram as respostas que haviam conseguido do saudoso e sábio vyn.
Vega questionou se Cinetic, seu filho, era o responsável pelo Evento Zero e Mimir respondera que ele era tanto causador quanto vítima, e não estava sozinho nessa sina. Ela aproveitou para perguntar a localização dos Verdugos e da prole de Tifão, o que Mimir informou com bastante precisão, contudo alertou que os Verdugos logo se moveriam e essa informação não mais teria valor e alguns monstros estavam inalcansáveis ou também se moveriam.
Perguntaram se Pendragon estava sob o controle de Elmo Negro e Mimir negou, dizendo que Pendragon agia por sua própria vontade, apenas movido e alterado por arguras e manipulações que sofrera.
Perguntou-se mais uma vez sobre Gaia e o Evento Zero. Apenas compreendemos que o Evento Zero é pode ser o clímax de um experimento Devasimari e com certeza é a representação de seu fracasso, mas que os próprios Devasimari poderiam adiá-lo, embora não tivessem a intenção de fazê-lo. Segundo Mimir, o experimento atual de Gaia era apenas o de observar sem interferir com a Terra. Mimir disse que haviam mais informações sobre o Evento Zero, mas que precisavam ser destravadas por um Arkiteto.
Usando a informação de Hefestos, questionamos onde estariam os Arkitetos. Nenhum deles estava na Terra, Odin estava morto, Cronus aprisionado fora do tempo e espaço, o Trimurti havia partido para os confins do espaço, Nyle estava desaparecida e oculta da Fonte, Malakh estava despedaçado, Angnin-Locus e Esper governavam a Atlântida. Mimir no entanto disse que havia alguém na Terra que havia sido um Arkiteto por um curto período de tempo, o mago Technomancer. Hefestos também declarou que se voltássemos para onde a Vanguarda havia encontrado o Olho de Odin, ele poderia orientar Quantum a rastrear a assinatura energética dos Arkitetos e encontrá-los.
Questionaram também a forma de reparar o Mjolnir, mas Mimir deu a mesma resposta, que alguém manipulando um Selo, com precisão cirúrgica e controle sobre o destino, poderia fazê-lo. Além disso, um Arkiteto modelador como Angnin Locus poderia facilmente fazê-lo.
Magni perguntou sobre o Inominável, e Mimir disse que a Fonte não tinha conhecimento sobre essa coisa ou ser.
Jazz e Quantum perguntaram como poderia deter a degeneração CoRe, visto que ele era a cópia 65. Mimir os corrigiu, dizendo que devido aos nanobots, a série da cópia de Jazz já passava de bilhão, e que ele precisaria encontrar o zero para tornar-se um. Jazz então nos revelou que Johann era a mente original e que descobrira isso enquanto estivemos presos na outra Terra, na realidade paralela tomada pelos Umbrelanos. Jazz perguntou quem estava por tras de Doutor Gelidus, o comandando, e Mimir disse que não conseguia vê-lo, o que provavelmente significaria que era um ser de grande poder ou alguém que estivesse fazendo uso de outro dos Selos de Arkis para se proteger. Ele então perguntou onde era a verdadeira base de Dr. Gelidus e Mimir a localizou nos subterrâneos de Leipzig, Alemanha.
Antes de voltarem, Hefestos pediu para ficar na Fonte, maravilhado pelo conhecimento e maravilhas do lugar. Os tripulantes o deixaram relutantes, sabiam que ninguém conseguia manter a sanidade desassistido na Fonte caso não tivesse uma mente evoluída (como Mac) ou a permissão (como os Vali – Snickers, Jazz, Magni e Quantum), mas acreditavam que dificilmente Hefestos ficaria pior do que já estava.
Após algumas discussões, chegamos a conclusão que deveríamos buscar o Professor Fernando Oliveira, chefe do projeto que criou a Vanguarda e CEO da Corporração Guardião. O Doutor Victon Allen agendou a reunião com o professor e disponibilizou um transporte para irmos a São Paulo, no Brasil, enquanto a Vanguarda ainda estava em reparos. Na saída, o Dr. Allen entregou a Jazz um dispositivo de PEM (pulso eletromagnético) para o caso de ele encontrar Run Saber.
Nossa viagem para lá foi tranquila, mas ao chegar no topo de um dos prédios da Guardião, fomos recebidos por um representante da empresa, Pablo, que estava bastante relutante em nos levar ao CEO. Ele começou a nos escoltar para dentro enquanto Zarus reclamava de um súbito gosto ruim na boca, e então, para nossa surpresa, os efeitos do Protocolo Arkis começaram novamente a afetar Magni. Quantum rapidamente vasculhou as possibilidades disponíveis dessa transformação, havia apenas um terço de segundo para ele tomar a decisão entre possibilidades bastante graves, e ele escolheu o que lhe entendia ser o melhor para Magni e para nós e forçou o destino.
Vimos Magni se contorcer e sua forma se duplicar como um holograma mal calibrado. Um enorme estalo foi ouvido e uma onda de choque partiu de Magni, levantando poeira, rachando o piso da cobertura, e nos lançando alguns metros para trás. Quando a poeira começou a baixar, víamos a mais confusa das cenas. Dois Magnis se levantavam idênticos, ambos sem um braço, visto que o choque danificou a protese DAE que o substituía, e entre eles estavam o Mjolnir e a massa viva e disforme da Protoforma M que era contida pela Prótese DAE. Naquele momento, havia ficado bem claro para nós o que acontecia, pois as memórias eram ainda muito recentes. O Protocolo Arkis havia ressuscitado Mödi, irmão psíquico de Magni que morrera na outra Terra, e dado-lhe um corpo indenpendente.
Não havia diferença entre eles, e todos sabiam a extensão da destruição que Mödi poderia espalhar, então Jazz tomou a iniciativa da ação e atacou um deles, mas mesmo a incrível velocidade do andróide ninja não foi capaz de superar as defesas do guerreiro nato que ele enfrentava, fosse Mödi ou Magni. Aos gritos, Quantum mandou-me verificar identificá-los mentalmente e, no mesmo instante, eu sabia quem era Magni, pois nosso elo era forte o bastante. Enquanto avisava aos outros qual era Mödi (que felizmente fora o escolhido por Jazz como alvo), eu tentei anestesiá-lo psiquicamente, o tonteando. Zarus agiu rapidamente, usando seus feitiços de translocação fez com que o Mjolnir desaparecesse do chão e reaparecesse nas mãos de Magni. Senti que durante um segundo, Magni se questionou se ainda possuía o direito de empunhar a arma de seu pai, que fora deixada para ambos, mas ao fechar sua mão sobre o cabo do martelo, toda dúvida se dissipou, pois sabia que ele era digno do Legado de Thor.
Magni arremeteu contra o irmão, lançando ambos para fora do prédio. Manopla Estelar concentrou um disparo elétrico e o lançou certeiro em Mödi, que tremia aos rápidos espasmos provocados. Mödi, no entanto, era resistente demais e não cairia fácil. Ele gritava que Magni poderia ter ficado com o legado de seu pai, mas ele teria o legado de sua mãe, e ao falar isso, a Protoforma M (que Magni havia usado tempos atrás para absorver os restos de sua mãe vyn, a jotunn Jarnaxa), obteve vida e num num veloz salto foi até Mödi, alcançando-o ainda em trajetória de queda do enorme edifício, substituindo o braço perdido dele por um monstruoso braço vermelho, que mais parecia uma mão de rocha. Os dois então atingiram o solo como pequenos meteoros, espalhando destroços pela rua. Vega alçou vôo e começou a descer para alcançá-los.
Jazz sentiu algo estranho, ele olhou em volta estranhando algo faltando, mas claramente não sabia o quê exatamente (a degeneração CoRe, embora reduzida, ainda causava lapsos de informação e registros nele), e disparou para a porta de acesso ao edifício em alta velocidade, dizendo que alquém estava faltando. Zarus e eu olhamos em volta e percebemos que se tratava de Manopla Estelar, que sumira após ter disparado contra Mödi. Havia traços de que ele fora arrastado para dentro do prédio, mas com todas as nossas atenções voltadas para a rua, ninguém vira quem o fez. Zarus correu para a porta, a fim de ajudar Jazz.
Lá embaixo, Magni usou seu controle gravitacional, mais apurado pelas recentes mudanças que o Protocolo Arkis fizera nele, e levantou destroços e carros cobrindo ele e Mödi. Os outros não entenderam aquela reação, mas meu elo mental tornara claro a ação de Magni, ele era o último dos aesir e sofria com isso, não queria enfrentar o irmão e arriscar matá-lo como a tantos outros arkeontes. Ocultos pelos destroços que flutuavam em gravidade zero, Magni entregou a Mödi, o machado de Vidarr, que ele havia guardado desde Ragnar Orkis, e implorou para que ele fugisse. Mödi hesitou confuso por um instante e então entendeu a piedade de Magni, rind em escárnio do que ele considerava uma fraqueza. Mas Mödi sabia que estava em desvantagem e, embora furioso e poderoso, conhecia muito bem as capacidades dos tripulantes da Vanguarda. Ele pegou o machado, declarando que isso não mudava entre eles, e abriu uma saída no chão com seu monstruoso braço mutante. Quando Vega finalmente conseguira atravessar os destroços flutuantes, Mödi já estava muito profundo nos túneis de metrô da cidade.
Sabendo e compreendendo a intenção de Magni, avisei a todos do sumiço de Manopla Estelar, o que os fez deixar a questão de Mödi para outro momento. Vasculhei mentalmente por Jazz e Zarus, pois algo claramente tirava Manopla Estelar de minha percepção psíquica. Jazz já havia cobrido um terço do prédio e não havia sinal do rapaz. Zarus entretanto, informava que tinha achado, ou melhor, tinha sido achado por algo interessante. Ele nos reuniu e usando seus feitiços de teleporte, nos levou para uma sala no edifício, claramente um laboratório restrito, repleto de máquinas e computadores bem avançados por todos os lados. Fomos então cumprimentados por quem “achou” Zarus, uma imensa cabeça robótica presa a diversas máquinas por cabos. No mesmo instante, nós que viajamos por várias civilizações galácticas, reconhecemos que tratava-se de um Gwardjanni, o que nos surpreendeu, pois aparentemente ele não havia tornado-se Vyrondiano como os demais de sua espécie.
A cabeça disse ser Éon, um Gwardjanni de um setor espacial vizinho àquele sistema. Segundo sua história, fora vítima de uma arma experimental Black Hive, projetada para eliminar sua Matriz Energética, impedindo que ele se reunisse com a Matriz Gwardjanni. Caiu na Terra, morrendo pelos efeitos da arma, e foi salvo pelo Professor Fernando Oliveira, que usou sua ciência para repará-lo, mas também separá-lo da Matriz Central, o prendendo na Terra. Jazz explicou o que houve com os demais Gwardjanni e como esse incidente de Éon pode tê-lo salvado da contaminação vyn. Éon lamentou o destino de sua espécie, mas logo recobrou-se por uma urgência maior.
Segundo ele, sua existência era segredo (e todos concordamos em mantê-la assim), apenas conhecida pelo Professor Oliveira em toda a Guardião, mas que ele revelava-se para os tripulantes da Vanguarda pois acreditava que seu amigo e salvador corria risco de vida. Havia semanas que ele estava isolado em um laboratório específico, evitando o contato dos demais empregados e o contato com qualquer outro, um comportamento bastante atípico para o carismático professor. Havia sinais claros nas reações dele, que Éon conseguia monitorar pelo acesso que tinha a câmeras do laboratório, de que ele estaria sendo mantido refém de alguém, mas por algum motivo, nenhum sensor ou scanner revelava qualquer presença, nem psíquica, na sala. Zarus comentava que era capaz de sentir algo estranho em operação, algo que lhe dava um gosto ruim na boca e cada vez pior.
Deduzíamos que Manopla Estelar, que havia sumido sem deixar rastros físicos ou psíquicos, poderia estar também sendo vítima do invisível captor do professor. Então rapidamente montamos um plano de resgate arriscado, afinal ninguém sabia o que ou quantos estávamos enfrentando. Vega foi para fora do edifício, preparando-se para arrombar um janela blindada. Magni e Jazz posicionavam-se na porta da sala. Zarus preparava encantos de teleporte para levar ele e Quantum assim que a invasão começasse. Eu consegui algum contato mental com Manopla Estelar, mas apenas o bastante para ssaber que ele estava vivo e, aparentemente, naquela sala.
Jazz e Magni destruiram a porta e parede da sala enquanto a invadiam, mas tudo o que viam era a presença de Professor Fernando, com marcas de hematomas espalhadas pelo corpo e gemendo pela dor de um braço recém-deslocando. Vega invadiu a sala destruindo a blindagem de uma janela com suas rajadas energéticas, mas ela vira algo mais, notava que a Luva de Ferro de Manopla Estelar jazia no chão, sendo engolida ao poucos por uma pequena poça de metal e concreto derretido. Rapidamente ela resgatou a Luva e pude ver que o que ela via tinha mudado ao entrar em contato com a Luva. Tinha claramente uma grande distorção no lado oposto da sala, era como uma mancha disforme onde facilmente poderiam ter umas cinco pessoas.
Meu contato com a mente de Manopla Estelar foi reforçado com a ação de Vega. Ele estava amarrado numa cadeira, indefeso sem sua Luva de Ferro. Em sua frente, um homem estranho, que ele sabia se chamar Rawn, gritava e, aparentemente, apenas Manopla o ouvia. Ele urrava dizendo que nenhum deles podia fazer nada contra o Glamour e dizia que a audácia de Manopla Estelar e seus amigos haviam condenado todos naquele prédio. Movendo os braços em movimentos precisos e dizendo palavras inaudíveis, fez algo que talvez fosse um feitiço, mas de natureza muito diferente dos feitos por Zarus ou Snickers, algo que parecia mais natural para Rawn. Em instantes um terremoto localizado havia começado, todo o prédio parecia estar a ponto de desmoronar e ser engolido por uma impossível fenda vulcânica que se formava sob ele. Percebendo a urgência, transmiti a visão de Manopla Estelar para todos os outros, ao mesmo tempo que Zarus e Quantum chegavam na sala via teletransporte.
Vega arremeteu contra Rawn, ainda confusa sobre sua posição por não estar acostumada com o ponto de vista de Manopla Estelar, e errou, deixando cair a Luva de Ferro. Esta, bateu-se no corpo do estranho humano e caiu no colo de seu dono, Manopla Estelar, que se contorcia para recuperá-la. O toque da Luva de Ferro em Rawn pareceu provocar uma transformação nele, ou melhor, pareceu desfazer uma complexa ilusão que ocultava sua verdadeira face, um ser inumano cuja pele era de um negro diamante. O Glamour do qual ele se gabava havia desaparecido também, e todos podiam vê-lo normalmente. A criatura amaldiçoava Manopla Estelar e sua Luva, e bradava que os Kymera não seriam facilmente revelados ou vencidos. Jazz não deixou ele terminar seu discurso, e rapidamente teleportou-se para junto dele, golpeando mortalmente. Não fosse a pele resistente de Rawn, este teria morrido no mesmo instante. Todos ficamos assustados com o ato de Jazz, ao longo dos anos e de todas as viagens, ele nunca se comportara daquela forma, sempre lutara preservando a vida de seus adversários, havia naquele ataque dele um claro pragmatismo frio.
Magni não deu tempo do combate se extender e usou os poderes para mudar e ampliar localmente o vetor da gravidade, prendendo Rawn na parede em meio a escombros. Rawn estava completamente indefeso, mas seu encantamento de terromoto não se encerrava, tendo tomado proporções onde era auto-suficiente. Magni, Quantum e Zarus começavam a interagir com suas capacidades para tentar salvar o edifício, enquanto Jazz usava toda sua velocidade para evacuá-lo completamente.
Enquanto todos estavam concentrados em salvar as pessoas, Manopla Estelar havia conseguido se libertar de suas amarras e, movido pela humilhação, frustração e medo, disparou uma letal rajada elétrica contra o já indefeso Rawn. Vega, no entanto, esteve atenta a reação do jovem e desviou o disparo com sua propria energia. Visando evitar que ele seguisse com essa execução, Vega pegou o corpo de Rawn e saiu do prédio.
Orientado por Quantum, Zarus conseguiu fazer um encantamento de reforço estrutural, salvando o prédio da Guardião e conseguiu cancelar o feitiço de Rawn. O dia estava salvo e após todos voltarmos para o laboratório com o já tratado Professor Fernando, algumas coisas foram se esclarecendo.
Logo de início, Vega repreendeu Manopla Estelar pela atitude cruel de tentar executar Rawn. O rapaz gaguejava tentando argumentar que ele o ameaçou e que quase o matou, mas Vega disse que nada disso era motivo pois eles precisavam ser melhores que os bandidos e monstros que derrotavam. Oliveira apoiou Vega, dizendo que Manopla Estelar precisava ter consciência de maturidade para usar o poder que lhe fora confiado e que, se outra atitude dessa se repetisse, ele daria um jeito de tirar a Luva permanentemente do garoto. Ficara claro que Rawn havia capturado o professor apenas para chegar a Manopla, cuja Luva era capaz de romper a intransponível ilusão do Glamour.
Após isso, Quantum revelou sua preocupação com relação a atitude de Jazz, revelendo que seu comportamento estava sendo alterado pelo Moonshadow, que era a verdadeira identidade do “sistema reserva” ativado por Hefestos. Quantum e Oliveira argumentavam sua preocupação com a frieza de Jazz, que ele estaria perdendo sua alma, mas Jazz estava resoluto de que o Moonshadow e sua possível perda de emoções/corrupção era melhor que sua irrefreável morte mental, visto que nenhum dos dois tinha formas de deter a degeneração CoRe. Quantum estava claramente desolado com a posição do colega e sua incapacidade de lhe oferecer uma opção melhor.
Magni e Quantum começaram a questionar o professor sobre a missão original da Vanguarda e sobre o Evento Zero. Fernando Oliveira dizia que começou o projeto Vanguarda baseado nas indicações trazidas por Doutor Caos, que através de suas máquinas e poderes, previa o inevitável fim da Terra em pouco tempo. Como a Guardião havia tomado consciência do sinal Feldron de mira, deduziu que possivelmente tratava-se de uma arma deles. Magni informou que descobriram que o sinal não era uma arma propriamente dita, mas um dispositivo que poderia sim ter acabado com o planeta, no entanto conseguiram fazer um acordo e as pazes com os Feldron a fim de que a Terra não mais fosse um alvo. Magni questionava se não era possível reunir impressões psíquicas de Doutor Caos dos laboratórios da Guardião a fim de tentar ver o que ele vislumbrou, no entanto Quantum confirmava que a morte do Doutor Caos no Subtempo havia apagado qualquer traço de sua existência, no passado ou no futuro.
Em mais um beco sem saída, Magni lembrou da mensagem de Surtur, sobre Johann estar preocupado com todos. Rapidamente, o professor Oliveira elaborou um dispositivo comunicador que, com os sinais fornecidos por Quantum, permitiram a comunicação com Johann na Aurora. Johann estava aliviado por saber de todos e se atualizar da situação dos tripulantes, mas ficou boquiaberto ao saber da relação entre ele e Jazz. Ele dizia que a situação no espaço havia mudado muito, mas que levaria muito tempo para atualizar-nos. Seguindo recomendação de Jazz e Magni, Johann permaneceu em prontidão na Aurora, mas pronto para atravessar o portal dedicado para dentro da Vanguarda se necessário, pois ainda não sabiam como realizar o procedimento para salvar Jazz, mas acreditavam que seu pai, Victor Allen, o Doutor Gelidus, saberia.
Estávamos para partir, quando o professor Fernando Oliveira revelou um novo projeto no qual estava trabalhando, o de expansão e colonização espacial. Ele sabia que esse projeto não serviria para evacuar o planeta, como anteriormente proposto por Jazz, mas permitiria, junto com as relações á estabelecidas pela Vanguarda, um posicionamento da Terra no cenário galático e até a possibilidade de apoio pelas forças e civilizações alienígenas aliadas.
Decidimos então retornar para a Mythos Tech, onde nos reencontramos com Snickers e Toro, que haviam voltado de sua misteriosa missão de reconhecimento. Com a Vanguarda pronta, pedimos a Victor Allen e David Hunter para providenciar o acesso da nave até a Inglaterra, território de Arthur, pois precisavam encontrar Technomancer na Ankh Corporation.
Conseguidas as autorizações, chegamos rapidamente na Inglaterra, junto conosco estava Golden Boy, que insistiu para nos acompanhar. Fomos muito bem recebidos pelo diretor da Ankh, Russel Southhampton, que fez questão de nos escoltar pela vasta empresa (que mais parecia uma academia para IEs) até Technomancer. Ele nos cumprimentou uma última vez antes de nos deixar com o mago líder do Augúrio. Pude sentir um eco mental de decepção de Golden Boy, era como se ele esperasse uma revelação desse encontro, mas havia descoberto que estava enganado em suas teorias.
Technomancer nos conduziu para uma sala reservada e rapidamente fez um encanto, afirmando estar nos protegendo de ouvidos curiosos. Ele fora um dos criadores da Vanguarda e mostrava-se muito disponível para nos ajudar. O questionamos sobre o poder dos Arkitetos, que haviam descoberto que Technomancer havia experimentado por um curto período de tempo.
O mago nos contou que anos atrás o Augúrio original havia encontrado um ser incrivelmente poderoso chamado Observador de Estrelas (que não tinha nenhuma relação aparente com Stargazer) que possuía um poder quase ilimitado de realizar seus desejos. Segundo descobriu na época, os Arkeontes Atlantes haviam abandonado a Terra e a deixado sob custódia dos Elfos, que também que se denominavam Kymeras. No entanto, algo acontecera e as Kymeras desapareceram, deixando na Terra apenas a humanidade, que eles entendiam como primitivos e corruptos. O Observador de Estrelas, que tinha o poder de um Arkiteto, ou Atlante Supremo como falava na época, estava se preparando para entrar em contato com a casa da Atlântida, através de um mecanismo e ritual chamado de Círculo das Eras, para iniciar um expurgo e purificação do planeta.
Na busca de uma forma de detê-lo, Technomancer acabou entrando em contato com o poder de um dos Selos de Arkis, nas pirâmides do Egito e tornou-se um Arkiteto ele mesmo. No entanto, sua mente expandida e alterada pelo poder, via a humanidade como falha e incompleta, e acabou se aliando com o Observador de Estrelas na purificação dos podres da humanidade. Ele explicou que, embora aparentemente ilimitado, o poder de um Arkiteto era limitado pelos conceitos e paradigmas do usuário. Ele precisava de uma forma que achasse aceitável para fazer seus desejos se realizarem. No caso de Technomancer e do Observador de Estrelas, eles só conseguiam usar seus poderes à noite, pois em suas mentes só assim poderiam ver e produzir estrelas cadentes às quais faziam seus desejos. O Observador foi morto pela manhã, mas Technomancer não era completamente indefeso sem os poderes de Arkiteto e acabou por matando seu assassino. Eventualmente, com o cair da noite, a obsessão pela purificação e a desilusão com a espécie humana fez com que ele tomasse atitudes mais graves, até que finalmente acabou assassinando um grande amigo, Nevasca, um dos fundadores do Augúrio. Fora nisso que percebera o quanto estava alterado e, movido pelo profundo remorso, desejou livrar-se do poder, deixando então de ser um Arkiteto. Technomancer explicou que a maior fraqueza dos Arkitetos é a forma como o poder afeta suas mentes, pois sentiu que esse poder faz com que o Arkiteto siga inconscientemente num caminho de auto-destruição.
Ele também revelou que descobrira anos depois que os Elfos, os Kymera, não haviam morrido, mas haviam aprendido a usar a magia de uma forma única de ocultamento chamada Glamour, virtualmente intransponível. Sabia apenas que magos habilidosos sentiam uma sensação ruim, como um gosto ruim na boca, quando estava na presença do Glamour (o que esclareceu a sensação de Zarus na Guardião). O Augúrio vinha investigando os Kymera sem muito sucesso por não conseguirem perfurar o Glamour, mas sabiam que eles eram aparentemente divididos entre Cortes. Contamos para ele de nossa incursão com Rawn e os efeitos da Luva de Manopla Estelar em derrubar o Glamour. Technomancer avaliou e percebeu que a Luvar era de composta de Ferro-Frio, fraqueza dos Kymera, e possuía aparentes circuitos místicos entrelaçados ao material, provavelmente era através disso que ele conseguia quebrar tão poderoso encantamento. Ele disse que tentaria que o prisioneiro Rawn fosse transferido até a Ankh a fim de que pudesse extrair mais informações sobre os Kymera e suas intenções na Terra.
Munidos das informações de Technomancer sobre os Arkitetos, decidimos que era hora de trazer Johann para a Vanguarda e irmos para Leipzig, a fim de encontrar o Doutor Gelidus, a única pessoa que aparentemente teria o conhecimento para salvar Jazz.
A Vanguarda ficou pairando sobre a cidade e desceram para o esconderijo subterrâneo Magni, Jazz, Johann, Vega, Manopla Estelar e Quantum. Após passarem algumas defesas, eles finamente chegaram no coração do esconderijo, um aparente e improvisado laboratório, como várias câmaras contento estranhos monstros cibernéticos dentro de tubos com um líquido de preservação. Eles foram recebidos por dois notórios IEs criminosos da Terra, o ciborgue gigante Cybertech e o acrobata assassino Gerard. Jazz já os havia encontrado no passado, especialmente Gerard com quem havia lutado, e então havia uma enorme tensão nas mentes de todos. Gerard no entanto, deus as boas vindas a eles e disse-lhes que o Doutor estava esperando.
Atravessando outra porta, o grupo deparou-se com Victor Allen, numa postura completamente diferente, em frente a uma mesa de cirurgia onde dissecava outras das monstruosidades cibernéticas que estavam espalhadas pelo laboratório. Ele queixou-se pois acreditava que o cordial simulacro da Mythos Tech desviaria os olhos de curiosos e atenderia as expectativas do mundo, enquanto ele desenvolvia o verdadeiro trabalho sem ser incomodado. Virando-se calmamente, disse que se eles vieram até ali era porque precisavam de algo dele e perguntou, com um sorriso irônico no rosto, como poderia ajudá-los.

View

I'm sorry, but we no longer support this web browser. Please upgrade your browser or install Chrome or Firefox to enjoy the full functionality of this site.