ARKIS

Arkis: Underdogs - Interlúdio 02

Beetween Two Worlds

O vazio entre o existir e o não existir. Num infinito instante em que a realidade se reestrutura novamente para voltar a comportar o paradigma anterior, eles sentem como se estivessem flutuando em meio ao nada. Segundos, minutos, dias, impossível definir a duração de um instante inexistente, de um momento entre os momentos.
Quatro não têm consciência uns dos outros, e sentem como se flutuassem sozinhos em meio ao nada. As lembranças do mundo diferente em que eles viveram por um instante cósmico já desapareceu de suas mentes, e eles recordam das vidas que tinham no mundo que vai-se restabelecendo.
Neal, contudo, percebe os demais, assim como percebe que há conexões entre o destino de cada um deles e o dele próprio. Ele lembra de ambos os mundos, lembra de ambas as vidas, assim como lembra de vidas dos diversos eus que ele foi antes de ser o que é agora. Ele reconhece três dos quatro que pairam no vazio, por serem pessoas que ele já encontrou: Wishing Joe, Bleach e Chacal. O quarto é um homem forte, de pele negra, que ele não reconhece.
Uma presença, absolutamente poderosa, paira junto a eles, e se dirige a cada um em separado, falando a todos simultaneamente, falando ao íntimo de suas almas. Neal percebe que a entidade não falava para ele, apesar de ele perceber sua fala.

“Eu estou aqui para falar com vocês nesse último instante, pois no seguinte eu não mais existirei. Eu sou apenas uma pequena expressão de um todo infinitamente maior, uma interface com o universo de uma existência muito maior que ele próprio.
Já tive muitos nomes. Tábuas do Destino, por aqueles que tentaram me usar. Gênese, como fiquei conhecido pelo público em geral. Meus amigos, contudo, e eu conto cada um de vocês como um deles, me chamavam de Timothy.
Vocês serão os únicos que se lembrarão de mim. Muitos ainda falarão sobre as Tábuas, mas vocês serão os únicos que se lembrarão de minha pessoa, porque eu alcancei cada um de vocês e lhe dei um presente.
Eu não tive, ao longo de minha vida mortal, consciência plena de o que eu era, ou do quê eu fazia parte. Apenas agora, quando essa forma de existência cessa, eu me reuni ao todo para entender meu papel. Ainda assim, eu me movo pelos ideais que, brevemente, me guiaram nessa efêmera vida.
Eu sempre quis ser um herói, fazer a diferença. Eu não poderia, agora que desapareço, causar grandes mudanças, mas eu posso ajudar vocês a fazê-las. Minha mente viajou através do tempo e das realidades e eu localizei vocês em situações desesperadoras, e usei meu poder para ajudá-los, a fim de que vocês pudessem por sua vez ajudar mais e mais pessoas e enfrentar um tempo de tribulações ainda mais terrível que esse pelo qual passamos agora.”
“Joe… Você sempre foi um espírito nobre, um sonhador, e um homem que queria fazer mais, e a vida lhe foi muito dura e cruel. Você tem um dom incrível, e foi por isso que eu lhe resgatei no instante de sua morte para lhe permitir uma nova vida. Aos poucos você se lembrará de quem você é.”
“Neil, você é a chave para muito mais do que você pode sequer imaginar. Seu destino está em outro lugar, mas eu o ajudei a se manter por mais tempo neste mundo, para que pudesse ter uma âncora, uma referência para enfrentar o que há por vir. Não poderei mais ajuda-lo, mas você terá ajuda, eu posso sentir.”
“Robert, tudo o que você sempre quis foi fazer a coisa certa em meio a um mundo que estava todo errado. Por isso eu o ajudei a sobreviver ao ataque, para que você possa se tornar o herói que merece ser, e guiar seus irmãos.”
“José, você morreu como um herói, e sem saber você salvou e inspirou outros. Para você eu dou meu maior presente. Use-o para o bem, siga fazendo a coisa certa.”

Enquanto a entidade falava, Neal podia ver imagens das intervenções que ela relatava. Mais que isso, podia ver os momentos em que seus caminhos se cruzavam com o dele:

Ele via quando Chacal, em uma missão na Índia, sob as ordens de uma força sombria, era enviado para assassinar um suposto casal de terroristas – que Neal percebia como sendo seus pais biológicos. Ao preparar-se para um disparo, o soldado pôde ver, pela mira da arma, os movimentos de um bebê, recém nascido – o próprio Neal – e desistiu de sua missão.
Via como o fracasso na missão havia levado a força que os manipulava a julgar Robert indigno e sentenciar que ele fosse morto na emboscada a seu pelotão. Via o instante em que os disparos perfuravam o corpo do atirador, apenas para, em seguida, ver “Timothy”, despercebido por todos, rearranjar sutilmente as balas para que não atingissem nenhuma área crítica.

Ele percebia quando seus pais, agora escondidos no Brasil, tentavam fugir de uma nova tentativa de eliminá-los e a seu valioso bebê, apenas para sofrerem um terrível acidente – provocado – e serem mortos no incêndio que se seguiu. Ele via quando um homem comum, um caminhoneiro – a quarta figura que ele não reconhecia – ignorava o perigo e entrava nas chamas, sofrendo severas queimaduras para salvar e proteger o inocente bebê com o próprio corpo.
Via como o homem, ferido, sentindo sua via se esvair, ainda assim prosseguia até encontrar outra pessoa a quem entregar o bebê e pedir que cuidasse dele, morrendo logo em seguida.
Via então como, novamente invisível ao mundo, “Timothy” resgatava o corpo do homem e levava-o para outro lugar e outro tempo, colocando-o em um estado de hibernação até que seu “presente” pudesse curá-lo.

Ele via o homem que recebeu o bebê, pouco antes daquele momento, acordar sem memórias de quem ele era, apenas com a sensação de que recebera uma nova chance de fazer do mundo um lugar melhor. Ele o via estar confuso com lembranças fragmentadas de sua morte – ou mais de uma morte – e lembranças ainda mais turvas de uma força – novamente “Timothy” – que o havia retirado daquele momento e depositado neste.
Via-o ficar ainda mais confuso quando o homem completamente carbonizado lhe entregava um bebê e pedia, antes de morrer e desaparecer, que cuidasse da criança cujos pais haviam perecido. Via-o então fazer seu primeiro e maior desejo nessa nova vida, que lhe inspiraria para assumir a alcunha de Wishing Joe: “Espero que essa criança possa ficar a salvo.” E, depois de o bebê desaparecer de seus braços – mesmo sem saber que seu poder o enviara através do tempo e do espaço, para ser adotado pelo gentil casal Matthews anos no passado – um sentimento de satisfação, a certeza de que o bebê estava bem, preenchiam seu coração e ele decidia rumar para o norte, onde ele sentia que seu destino o aguardava.

Ele via Neil Cleese passar boa parte de sua vida sendo atraído por uma força que buscava leva-lo para além desse mundo, drenar sua humanidade e enlouquece-lo, e via como “Timothy” cercava Bleach com uma barreira protetora até o momento em que o próprio Timothy começava a desaparecer, junto com sua proteção.
Ele via, e sabia que estava vendo caminhos do futuro, quando Neil começava a ser mais e mais drenado pela força extradimensional, e sentia que, por cruzar o caminho com o seu próprio, Bleach ganhava uma nova âncora na realidade e na sanidade.

“Seu dom é realmente espantoso.”

Timothy estava a seu lado, e agora Neal podia percebê-lo como um jovem, não muito mais velho que ele próprio.

“Você é o último de sua linhagem, Neal. Sua responsabilidade é enorme, ainda mais agora que você sabe quantas vidas se alinharam para que você pudesse estar aqui, bem como quantas sombras se lançaram para tentar impedi-lo de existir.
Algo grande vem por aí, eu sei que você sente isso. O mundo precisará de pessoas como você, que conseguem perceber além da percepção, para sobreviver a isso.”

Neal acordou, como se tudo não tivesse passado de um sonho, mas ele sabia que tudo fora real. O Outro Mundo. O Entremundos. Estavam em 2032 novamente, no seu mundo novamente. E naquele exato instante, um grande herói perecia para salvar o mundo da explosão do sol…

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