ARKIS

ARKIS: Vanguarda - Temporada 03 Episódio 06(25)

Lá e De Volta Outra Vez: Tijolos Amarelos

Vanguarda

Diário de Bordo
Codinome: Lusutan

Registro 00108

Havia três dias que estávamos observando as leituras do aparelho que Quantum desenvolveu seguindo as orientações de Hefestos. O equipamento rastreava a origem das assinaturas energéticas dos Arkitetos e, curiosamente, foi através dos braceletes de Vega que conseguimos captar essa energia. Aparentemente eles podiam mudar a fonte de seu poder e quando Magni marcou as runas existentes no Olho de Odin nos braceletes, aparentemente estimulou que os mesmos começassem a captar energias similares dispersas no ambiente.
No entanto, segundo Quantum, o processo ainda demoraria mais um ou dois dias. Eu podia sentir em sua mente uma ansiedade e apreensão, Quantum sabia que era capaz de acelerar o tempo e resolver esse rastreio quase de imediato, mas isso significava fazer uso dos poderes de alteração de probabilidade quânticas, cujas consequências para outras realidades ele temia.
Como esperado, surgiu sobre nós duas naves de batalha wangari, que detectou a presença da Vanguarda após tantos dias no planeta classe M do Espaço Bélico, onde Magni e os outros encontraram o Olho de Odin. Os soldados Wangari saíram das naves com armas apontadas e ainda incrédulos ao reconhecer a nave que havia vencido a Segunda Guerra Vyn. Logo o general deles se apresentava, um homem que os tripulantes já conheciam, Morgan, o antigo sub-comandante da Brigada da Tormenta. General Morgan ordenou que os soldados baixassem as armas e nos deu as boas vindas a Wangari Imperial. Magni estranhou, pois recordava-se que Wangar era uma república, mas claramente tudo mudou nos quatro anos que se passaram com a Vanguarda presa na outra Terra.
Quantum fez uma rápida explicação do que estávamos fazendo lá, e assegurou que logo iriam embora para seguir sua busca, no entanto o general dizia que os tripulantes da Vanguarda eram convidados para um banquete com a Imperatriz e as casas nobres Wangari. Snickers sabia que um convite da realeza era mais uma intimação, e não valeria a pena criar um conflito tentando polidamente recusá-lo. Após uma pequena discussão, decidiu-se que Snickers, Magni e eu iríamos comparecer ao banquete. Moonshadow permaneceria ajudando nos reparos da Gullfaxi (que fora resgatada de Netuno) injetando nela uma extensão de sua consciência tecnorgânica, Quantum seguiria com a análise da assinatura energética dos Arkitetos, Johann retornaria à Aurora através do portal dedicado da Vanguarda, e Vega, Cinetic e Toro manteriam a segurança da nave.
O general aceitou o comparecimento parcial do grupo, embora minha presença tenha sido vista com escárnio. Minha atuação como aliada dos feldron, que municiaram os Darkoni, adversários seculares dos Wangari, era muito conhecida. Mas Magni apresentou-me como sua consorte e o general, que o respeitava muito, se viu obrigado a aceitar minha presença sem maiores protestos. Antes de partir, Snickers teve uma conversa privada com Johann, a natureza da mesma eu não pude captar, pois a mente de Snickers era especialmente resistente a invasões mentais e o traje de sobrevivência de Johann era equipado com um eficiente escudo psíquico. O general deixou uma das naves de batalha como segurança adicional à Vanguarda e partimos na segunda.
O dia de trajeto até o planeta capital foi tranquilo, mas pude perceber uma estranheza e descontentamento de Magni ao ver a capital imperial. Notávamos que os Darkoni, a espécie insectóide que fora anteriormente escrava dos Wangari e, com a ajuda dos feldron, havia se rebelado e iniciado uma guerra secular com seus captores, voltaram a ser servos de seus inimigos. Na mente de Magni pulsava um cenário que ele esperava encontrar, onde o cessar fogo conseguido por eles no passado e também a reunião de diversas civilizações contra os Vyn, tivesse direcionado o conflito para uma solução sem vencedores ou perdedores. Eu via essa fantasia se desfazer em seu relevo psíquico como um sonho esquecido.
O banquete e os festejos foram dignos das maiores autoridades espaciais, música e aromas doces preenchiam o ambiente, mesas fartas de raríssimas iguarias estendiam-se pelos imensos salões. Eu as vezes me esquecia como o Vanguarda era respeitada e ovacionada. A Imperatriz Hannah Lapizu Ul Wangar, conhecida pelos tripulantes como a comandante Han, nos recebeu com braços abertos e grande altivez. Era impossível sequer sentir um pensamento superficial nela, sua mente era excessivamente treinada e ela claramente percebeu minha sondagem, demonstrando isso com um leve sorriso sarcastíco e indicando que “uma garota precisa ter seus segredos”.
Junto a ela, uma celebridade chegava. Era Starman, um bardo galáctico cuja origem ninguém sabia ao certo, mas seus talento e sucesso eram inegáveis. Starman alegava que estava em Wangari Imperial especificamente esperando o retorno da Vanguarda neste dia, para que pudesse integrar à tripulação e contar suas histórias. A imperatriz deixou Starman com Snickers e pediu a Magni que a acompanhasse numa dança no salão principal. Ele me olhou relutante, mas eu o acenei para ir. Sabíamos que havia uma encenação em andamento e eu sentia que havia uma história entre Magni e a imperatriz, ele precisava lidar com isso mais cedo ou mais tarde.
Starman mostrava ter um conhecimento impossível sobre os eventos do universo e os feitos da Vanguarda, no entanto sua mente era como um oceano em fúria. Era muito difícil captar um pensamento coerente e contínuo, quase como se ele estivesse captando e digerindo informação de centenas de lugares do cosmo ao mesmo tempo. Ele ainda mostrava uma incrível capacidade de “ver” nossa comunicação telepática, dizendo que era como se as palavras saíssem de nossas cabeças e dançassem em sua frente.
Magni retornou da dança com um semblante sério e preocupado. Ele dizia que os Wangari haviam realmente vencido a guerra graças a alguma manobra habilidosa da comandante Han, mas que agora os Darkoni não eram mais escravos do Império, mas sim cidadãos dentro de sua casta social adequada. Sabíamos que era uma questão de semântica, os Darkoni sempre seriam servos para a nobreza Wangari, apenas eram tratados com um pouco mais de cuidados pois já eram entendidos como seres sencientes e não meros animais.
Ele também disse que a imperatriz iria fornecer mantimentos e equipamentos para a Vanguarda, o mínimo que ela poderia fazer, conforme disse, para ajudar na jornada dos heróis galáticos. Foi então que o General Morgan se aproximou de nós com uma expressão raivosa. Segundo ele, os demais membros da Vanguarda estavam abrigando na nave um inimigo declarado do império e precisavam sair da região para evitar um conflito. Quando questionamos a identidade do inimigo, o general respondeu que era o Defensor. Snickers lançou um olhar rápido para mim, e rapidamente compreendi sua intenção e ordem, fazendo um contato mental com Quantum, Vega e os demais tripulantes, sobre o que estava acontecendo.
Logo entendemos que a situação da Wangari Imperial era mais complexa. Segundo Defensor, após a intervenção da Vanguarda, 4 anos atrás, um cessar fogo foi declarado e uma nova negociação foi estabelecida entre Wangar e Darkon. A comandante Han fora a enviada dos Wangar, visto que era da antiga linhagem real e fora o principal contato da Vanguarda. Han, entretanto, não tinha intenção de estabelecar reais negociações de paz e usou a oportunidade como uma armadilha para exterminar as rainhas Darkoni e capturar e controlar os ovos de novas rainhas, assegurando a vitória dos Wangar na guerra. Tal ação elevou sua popularidade de tal forma que o retorno ao regime imperial foi mais que bem aceito pela população da República, tida como fraca e ineficaz. A Brigada da Tormenta tornou-se a Guarda da Tormenta e um novo regime de treinamento dos Cavaleiros Wangari foi estabelecido, resgatando as raízes guerreiras da espécie.
Defensor, que com o apoio da Gward havia sido designado para vigiar e proteger ambas as delegações da mal fadada negociação, ficou estarrecido e sem ação com o ardil de Hannah. A situação agravou-se mais ainda quando a Gward e os Feldron foram devastados pela sua participação ativa na Segunda Guerra Vyn, não podendo intervir de forma alguma. Sentindo-se responsável pela derrocada e retorno a escravidão de uma espécie inteira, Defensor invadiu os cofres Wangari e sequestrou um dos ovos de rainha, que tem mantido consigo até hoje, mas sem uma noção clara do que deveria fazer.
Snickers resmungava e amaldiçoava o destino deles. Parecia que os problemas e dilemas nunca deixavam de alcançar a Vanguarda, mesmo que não tivessem diretamente nada a ver com a nave. Ele rapidamente ordenou que retornássemos à nave para partírmos o quanto antes, mas Starman perguntou a Magni se ele já tinha visto o filho dele. A informação nos chocou, exceto a Snickers que mais uma vez soltou maldições entre os dentes. Magni levantou-se e buscou imediatamente a imperatriz. Eu fiz menção de acompanhá-lo, mas pude sentir sua mente e coração fechados e borbulhando, o que me assustou muito, não era a raiva de Mödi, mas a frustração do prórprio Magni que me afastava.
Não demorou muito e estávamos prontos para partir, Magni retornou do segundo encontro com a imperatriz, com uma expressão ainda mais derrotada que antes. Eu sabia que não seria bem vinda em sua mente e deixei-o com seus pensamentos. Ele nos disse que a imperatriz providenciaria nosso retorno imediato para a Vanguarda e ainda mandaria os prometidos mantimentos, desde que retirássemos Defensor de Wangari Imperial.
E então partimos, conforme prometido, rapidamente chegando ao planeta classe M. A superfície do planeta apresentava crateras e vegetações queimadas, provavelmente derivadas das tentativas falhas da nave de batalha Wangari derrubar Defensor antes do mesmo alcançar a Vanguarda. Estávamos reunidos e Snickers já ordenava a decolagem da nave enquanto exigia melhores explicações para o que acontecia.
Defensor estava claramente envergonhado de ter arrastado a Vanguarda nesse problema, e era repreendido por Snickers e Moonshadow. Magni e Quantum, no entanto, entendiam a atitude dele, pois não conseguiam ver com bons olhos a ação de Han na chance que tiveram de estabelecer a paz entre as espécies. Defensor cedeu o ovo Darkon a Moonshadow, que o guardou dentro de um dos drones CoRe que ele dominava, DynaBlaster. Defensor também nos deu um panorama do cenário galático após os 4 anos de ausência da Vanguarda.
A Gward ainda estava muito enfraquecida pela corrupção dos Gwardjanni e a formação do Império Vyrondiano, que vinha lentamente se expandindo, os agentes sobreviventes conseguiam proteger devidamente poucos planetas com ajuda das outras espécies aliadas, como os feldron, todavia seus recursos e números não eram nem sombra do que já foram. Os feldron estavam igualmente enfraquecidos, tendo parte de seu setor tomado por Wangari Imperial e ainda sofrendo com ações constantes da Black Hive em seu território, provavelmente guiados por Gandray que agora tinha uma posição de respeito na organizações criminosa. Defensor também contava que não havia nenhuma hostilidade nem aliança aberta entre os Impérios Vyrondianos e Wangari, mas sabia que comunicações entre ambos eram feitas.
Satisfeito com as explicações, mas não mais calmo, Snickers disse que Defensor deveria ficar na Aurora até que a Vanguarda resolvesse a questão dos Arkitetos e como destravar as informações do Olho de Odin sobre o Evento Zero. Todos concordaram, mas na hora de abrir o portal dedicado, uma surpresa aconteceu, o portal estava travado pelo lado da Aurora. Tentamos comunicação e uma voz estranha respondeu. Snickers reconheceu de imediato Bishop, antigo bioroid da Nova, assim como ele, cujo corpo morto fora resgatado por Memento Mori e, de alguma forma, ele fora capaz de dominar todas as unidades CoRe do local.
Bishop dizia que a Vanguarda tinha tomado algo que era de seu interesse, o experimento de Gelidus, e que estava disposto a trocá-lo pacificamente pela estação espacial e pelos reféns que fez nela, Johann, Dylana e Evon Drieris. Snickers exigiu a libertação dos reféns e saída dos CoRe da Aurora, mas Bishop ria das exigências, dizendo que estava disposto a discutir os termos dessa negociação em pessoa. Ele disse que abriria o portal para apenas Snickers passar, mas se a Vanguarda tentasse qualquer coisa, ele executaria os reféns e partiria da estação, pois sabia da reputação dos tripulantes e não se atreveria a enfrentá-los diretamente. Snickers concordou em atravessar o portal sozinho e secretamente deu a ordem para a tripulação tentar algo para salvar os reféns.
Os minutos que se passaram foram terríveis. Bishop estava com todas as cartas nas mãos, não havia forma de chegar a Aurora sem ser notado pela tecnologia futurista dos CoRe. Piorava o fato de eles terem tido contato com os membros da Vanguarda e suas habilidades na Terra, nós sabíamos que eles teriam salva-guardas para nossas habilidades particulares. Magni insistia em agir, mas Moonshadow argumentava a inutilidade do ato. Quantum calava-se resignado. Logo, o portal abriu-se novamente e um Snickers desacordado fora jogado de volta para a Vanguarda. Antes de Magni tentar qualquer ação improvisada, Moonshadow fechou o portal, cortanto o contato com a aurora.
Quantum tratou as feridas de Snickers, feitas com precisão para desacordá-lo sem matá-lo. O capitão da Vanguarda estava claramente decepcionado com nosso desempenho nessa crise, eles já haviam vencidos situações muito mais críticas, mas ficaram completamente encurralados e divididos agora. Ele disse que Bishop dera três dias terrestres para que resolvéssemos nossa posição quanto a negociação e que agora, com os recursos que tínhamos, não adiantava insistir nesse resgate. Ordenou então que retornássemos à busca dos Arkitetos, sob protestos de Magni.
Quantum explicou que as assinaturas energéticas rastreavas levavam a duas coordenadas universais. Starman, que olhava para tudo com incrível calma, surpresa e curiosidade, disse que um dos lugares possuía uma serenidade transcendental, enquanto o outro era dominado por mudanças caóticas a todo instante. Sem questionar muito os supostos sentidos cósmicos do bardo espacial, ordenou que programasse o motor de portais para irmos ao local caótico. E assim partimos, com o gosto amargo da derrota ainda em nossas bocas.
Logo que a Vanguarda emergiu do portal, sabíamos que algo estava errado. O que encontramos fora um planeta deserto, com uma atmosfera respirável rarefeita e tomado por radiação. Não havia nada em milhares de quilometros até nossos sensores captaram presenças vivas. Encontramos um aglomerado de pessoas, aparentemente uns 30 humanos, todos sentados imóveis no solo quente e trajando apenas leves panos. Logo identificamos de quem se tratavam, eram os arkeontes das casas hindus, que haviam abandonado a Terra via uso do Artefato de Legado olimpiano, a Carruagem do Sol.
Senti o desconforto e descontentamento de Snickers, ele sabia que havia sido desobedecido pois aquele não era o local caótico descrito por Starman, mas o pacífico. Sua confiança já abalada pela derrota anterior tomou outro grande golpe. Vasculhando as demais mentes, não localizei de imediato quem poderia ter alterado as coordenadas, mas a dedução ficou fácil. Apenas duas pessoas na Vanguarda cujas mentes eu não entrava, Starman, que estava claramente alheio a qualquer opção, e Moonshadow, cujos pensamentos eu evitava captar por segurança. Provavelmente o androide tecnorgânico discordou da lógica da decisão do capitão e agiu por conta própria, impondo sua vontade e controle sobre a Vanguarda.
Snickers ordenou que pousássemos e nos equipássemos contra radiação a fim de investigar melhor. Já estávamos lá, cabia entender melhor a situação. Descemos, seguindo o rastro energético dos arkitetos pelo equipamento de Quantum. Os arkeontes sem poderes estavam debilitados, aparentemente não se alimentavam a muito tempo e a radiação já queimava suas peles profundamente. Mas eles não pareceiam se importantar, completamente entregues a uma meditação profunda. Apenas sabíamos que estavam malmente vivos pelos sensores biométricos, que mostravam leituras fracas.
Logo observamos que todos estavam voltados para três formas que estavam sentadas no centro do grupo. Eram o Trimurti, Shiva, Brahma e Vishnu, o trio que agira como arkiteto e pai celestial daquela casa. Eles estavam muito diferentes dos demais, seus poderes não haviam sido tomados pelo Protocolo Arkis, provavelmente por influência do Selo que eles controlavam, e logo mostravam saúde e presença incomparáveis. Eram indiscutivelmente seres divinos. Nos aproximamos e pedimos uma audiência com eles, e então eles responderam. Montavam cada frase juntos, onde Brahma começava, Vishnu completava e Shiva encerrava. Era confuso, mas rapidamente pegamos o ritmo da conversa.
Snickers e Quantum pediam insistentemente ajuda para destravar o selo de Odin, pois o Evento Zero, mas o Trimurti não parecia se importar, apenas desfazia todos os pedidos e súplicas orientando que nos sentássemos e meditássemos, pois nada seria alcançado com violência e excesso de ação, que o Evento Zero era efêmero e que logo todos se elevariam até Brahman, a completude do ser. Tentávamos argumentar, mas parecia que o Trimurti não escutava, foi quando percebemos que Cinetic já estava entre os arkeontes, sentado e meditando da mesma forma. Vega tentou despertá-lo e percebeu que ele não despertava e malmente respirava. Ela desesperou, mas mesmo nisso ela estava estranhamente calma, todos estávamos. Nosso desespero parecia ter encontrado uma forma nova, a da inação.
Moonshadow retornou a Vanguarda e rapidamente resgatou o Olho de Odin do painel. Retornando com ele, o pôs em contato com Cinetic, que despertou de subito como se acordasse de um pesadelo. Percebemos que o Trimurti e seu Selo estavam provocando isso e que o poder equivalente do Olho era capaz de se contrapor.
Snickers decidiu arriscar mais uma vez, preparando a mente com rituais rúnicos e entrando no transe meditativo. Horas se passaram e ele não despertou nem nada falou. Entendemos que Snickers também estava preso no transe, como Cinetic ficara. Encostamos o Olho nele também, mas para nossa surpresa, ao invés de despertar, Snickers foi dragado para a Fonte de Mimir. A surpresa nos tomou a todos, mesmo Moonshadow não compreendeu o ocorrido. Em uma rápida investigação, sabíamos que Snickers estava bem dentro do Olho, mas por algum motivo desconhecido, ele não queria sair do mesmo.
A dúvida tomou o grupo, sentiam-se cada vez mais divididos. Decidimos então abandonar aquele lugar e partir para as outras coordenadas encontradas pelo rastreador de Quantum. A Vanguarda acionou o motor de portais e, sem nenhuma interferência dessa vez, partimos para o setor espacial indicado, praticamente no ponto mais extremo do universo, além dos mapas estelares conhecidos.
Esse novo setor espacial fora bem diferente. Caótico era uma palavra pobre para explicar. Víamos um imenso rio saindo de um sol, correndo anos-luz por paredes de uma pedra e um chão invisível em pleno espaço, sobre ele, as raízes de uma árvore do tamanho de um planeta faziam arcos decorados com flores de vários tipos. Ao longo do percurso, víamos perfeitas esculturas geométricas feitas dos mais diversos e impossíveis materiais, víamos algo que parecia a superfície de um planeta descascada e desenrolada como Cinetic fazia com as laranjas na Vanguarda e, o que surpreendia, é que era possível perceber que havia vida nesse espaço tão inexplicável. Notávamos que mesmo os nossos sentidos nos enganavam, as noções de distância e perspectiva era diversas vezes ludribriadas com a física caótica do lugar, os sons que atravessavam o vácuo e a couraça da Vanguarda despertavam sensações olfativas em nós. Toda aquela loucura só fez sentido quando Hefestos, num lampejo de lucidez, balbuciou: Atlântida.
Seguíamos o imenso rio espacial, ainda monitoriando o rastro da assinatura energética dos Arkitetos. De repente, o rio teve suas margens rapidamente ampliadas, tornando-se um imenso lago e suas águas começaram a ser mover em uma intensa espiral, formando um maelstrom. O fundo do maelstrom ia se abrindo e se aproximando, logo revelando abaixo uma cidade flutuante no espaço sob o rio, que não havia nada originalmente. Na cidade, que parecia uma Grécia terrestre evoluída com tecnologia incompreensível, era possível ver centenas de pessoas caminhando e levando suas vidas normalmente, alguns até acenavam para a Vanguarda, dando boas vidas. Eram os arkeontes atlantes, cujos poderes também foram tirados pelo Protocolo Arkis, mas que viviam em sua cidade sob a proteção dos Arkitetos que ali permaneciam.
Pousamos a Vanguarda numa grande via que estava vazia. Logo, a via encurtou-se instantaneamente e sem qualquer impacto ou choque, como se tivéssemos visto uma ilusão de ótica quando descemos. No fim da via agora curta, o chão se abria e duas figuras humanóides gigantes emergiam em tronos feitos de matéria impossível. Hefestos apontava para um deles, dizendo ser Angni-Locus, seu mestre. Sabíamos que a outra era Esper, que segundo a consulta com Mimir, estava também na Atlântida governando.
Esper nos deu as boas vindas e agradeceu o trabalho duro da Vanguarda em trazer o Selo de Odin para seu devido lugar, ordenando que nós o entregássemos. Contestamos, dizendo que precisávamos da ajuda deles para destravar as informações sobre o Evento Zero. Esper dizia que aquele não era assuntos para mortais, apenas para aqueles que transcendessem a existência e se aproximassem dos Devasimari e, novamente requereu o Olho de Odin.
Fomos surpresos quando notamos que Moonshadow já estava fora da Vanguarda, carregando o Olho de Odin até os Arkitetos enquanto fazia solicitações mais pessoais. Ele dizia que era único no mundo, além de uma anomalia temporal, e que todas as suas tentativas de se reproduzir só resultaram na expansão de sua consciência, mas ainda continuava sozinho. Esper dizia que isso era insignificante para ela, mas que ele estaria bem visto por ela assim que ele entregasse o Olho, e moveu sua enorme mão para buscá-lo.
A revolta consumiu todos na Vanguarda, e Vega saiu em altíssima velocidade para tomar o Olho de Moonshadow, que não fez nenhum esforço para mantê-lo. A Arkiteta se enfureceu e partiu para o ataque, como uma deusa destruidora. Magni gritava para Vega dar o Olho para Defensor, ele era capaz de cruzar o universo em instantes e provavelmente estaria fora do alcance de Esper. Defensor decolou ao pegar o Olho, mas então Esper foi atrás, numa velocidade ainda mais impressionante.
Em poucos instantes, Defensor foi lançado de volta a Atlântida, atravessando quatro camadas de pisos flutuantes até parar numa enorme cratera fumegante. Os demais tripulantes partiram para a ajuda, Magni portando o Mjolnir, Vega e Cinetic atacando com seus poderes, Toro descarregando tudo o que podia com suas armas, Manopla Estelar controlando aço e metal tentando restringir os movimentos dela, Starman tocava sua guitarra cósmica cujo som parecia abalar a Arkiteta e tirar-lhe a concentração, Quantum pilotava a Vanguarda e fazia uso relutante de suas habilidades de probabilidade, tentando mudar a balança do combate. Tudo isso em conjunto parecia apenas atrasar Esper, que derrubava os ataques e defesas do grupo com meros acenos de mãos, enquanto bradava que o amor e a força de Atlântida estava com ela, ela jamais morreria ou seria derrotada por pequenos mortais ignorantes de sua posição.
Moonshadow ficou apenas observando e voltou-se para Angni-Locus, que assistia o combate com um sorriso no rosto. Moonshadow o questionou se ele não agiria e ele apenas respondeu que Esper possuía um temperamento explosivo e fica maravilhado com o desenrolar dele, mas não permitiria consequências graves. Moonshadow perguntou ao arkiteto se ele poderia destravar as informações em Mimir, pois foram levados a acreditar por Hefestos, seu discípulo, que eles poderiam fazer. Angni Locus respondeu com uma estranha afirmação, nunca houve um Vyn chamado Mimir que Odin prendeu no Olho, apenas sabia que seu benfeitor secreto tinha seguido Odin após terem conseguido selar Arkis e criar os 7 selos.
Moonshadow indagou, mas Angni Locus o pediu para ter atenção para um momento único. Ele levantou-se de seu trono e dirigiu a palavra aos cidadão da Atlântida, que oravam pela vitória de Esper, dizendo que mais uma vez, infelizmente, eles falharam em evoluir e alcançar uma existência superior, e agora teria de recomeçar de novo, reconfigurando-os numa nova forma a fim de tentar transcenderem a mera existência unidimensional. Traçando estranhos simbolos e equações luminosas no ar, todos os arkeontes da Atlântida foram elevados ao céu como que por uma poderosa telecinésia. Então, seus corpos, orgãos e até células foram separados. Uma cena muito parecida com a que vimos na visão do Evento Zero tida por Vega dias atrás. Embora não fossem mais que uma massa amorfa, o som de suas orações não paravam e Esper continuava a alvejar os tripulantes com poderosíssimas rajadas cósmicas. Defensor recobrava-se e entrava novamente no combate, usando sua aura cósmica para proteger e reforçar os demais tripulantes.
Aos poucos a massa de celulas ia se reconfigurando, dando origem a uma multidão de novos seres, híbridos entre homens e animais dos mais diversos tipos e planetas. Simplesmente não havia dois seres parecidos e mesmo os números deles eram diferentes, como se, em alguns casos dois seres tivessem tornado-se um e um tivesse sido separado em dois. Os novos atlantes, homens-animais, retornavam a uma forma física e mantinham-se em uma oração conjunta. Moonshadow estava estarrecido, pude ver que ele relutou em pedir a Angni Locus para ajudá-lo, pois temia que experimentos insanos ele poderia tentar.
Inesperadamente, a situação do combate mudou. Magni desferia golpes cada vez mais poderosos contra Esper, que cambaleava tonta. Starman mantinha uma música intensa, confusa e penetrante que não deixava a Arkiteta pensar. Cinetic, Manopla Estelar, Defensor e Vega mantinham uma artilharia continua, sem pausas ou hesitações. Esper então focou toda sua atenção em Magni e seu martelo, sabendo da ligação entre um Artefato de Legado e seu usuário, lançou um poderoso ataque contra o Mjolnir. Magni estava perto demais para evitar e, por um instante, jurei que o tinha perdido para sempre.
Vega, no entanto, fora mais rápida, lançando-se na frente do ataque. Seu corpo foi partido em dois, para o desespero de todos. Magni viu novamente a cena de sacrifício que Lucky Wei fizera no mundo alternativo no qual batalharam contra os Umbrelanos. A fúria e vingança moveu seu braço, levando o Mjolnir num poderoso ataque. Ele sentia que seu movimento estava ainda mais rápido do que seria possível, foi quando vira os olhos vermelhos e enraivecidos de Cinetic, acelerando psiquicamente o martelo de Magni para fazer justiça a sua heróica mãe. O martelo rompeu todas as defesas de Esper, e aterrissou em sua pele como um meteoro. O peito da Arkiteta abriu-se, revelando costelas de mármore e um jorro de sangue negro que mais parecia o espaço sideral, repleto de estrelas. O corpo de Esper tombou duro no chão, mas as orações a ela não paravam.
Defensor gritava logo em seguida. O sangue galático parecia procurá-lo e envolvê-lo. Ele tentava conter seu poder, mas estava claramente sendo sobrecarregado. Magni correu até ele e disse para direcionar a energia para o Mjolnir, como forma de se aliviar de tamanho fardo. Defensor, incapaz de pensar com clareza, o fez. Todavia, para nossa surpresa e desespero, o Mjolnir não foi capaz de suportar e estilhaçou-se em centenas de pedaços. Defensor caiu desacordado e esgotado. Magni cambaleava sem ar, segurando com uma mão seu peito enquanto sentia sua vida se esvair. Eu queria abraçá-lo, salvá-lo, mas minhas pernas e minhas mentes estavam atordoadas com tudo que houvera.
Angni Locus reduziu-se a uma forma de tamanho equivalente a um humano comum. E aproximou-se balançando a cabeça em reprovação enquanto olhava para o cenário devastado. Com rápidos gestos, tecendo novas equações no ar, recompôs a cidade dos danos causados. Com outro, mais elaborado e demorado, fez as duas metades de Vega se reuniriem e sua vida retornar ao corpo. Cinetic ainda tinha lágrimas no rosto enquanto abraçava sua mãe. Olhou para Magni, tentando compreender sua aflição e logo reconhecera o Mjolnir. Com um sorriso de escárnio, fez uma nova equação e diante de nossos olhos, os fragmentos do Mjolnir se reuniram formando novamente o martelo, não mais com as fissuras provocadas por Gungnir, mas como se estivesse recém saído de sua forja cósmica. Magni respirava, a cor voltava a seu rosto enquanto apanhava seu martelo e entova rápidas palavras de agradecimento. Minhas lágrimas corriam livres em minha face aliviada.
Ele então voltou-se para o corpo de Esper, repreendendo a arkiteta pelo seu temperamento, e novamente traçou equações no ar. Entretanto, nada aconteceu. As orações pararam. Angni Locus insistia, cada vez mais frenéticamente. A expressão de escárnio foi substituída por uma de terror, enquanto ele repetia “não” e “é impossível” cada vez mais alto. Nos reuníamos o observando e logo ouvímos que ele falava algo sobre Esper não poder morrer, pois senão “ele” os descobriria. Logo vi na mente de Magni a certeza de quem ele estava falando, mas antes que ele pudesse falar, ouvimos uma conhecida e sombria voz.
O Inominável apareceu na Atlântida, agradecendo a Magni por ser um bom arauto. Angni Locus se afastava apavorado. O Inominável o acusava por ter-lhe roubado seu rosto, seu nome e sua existência e se movia com visível fúria em direção ao Arkiteto, enquanto formava uma foice em suas mãos. Magni se interpôs, pedindo que o Inominável lhe concedesse misericórdia para que ele pudesse ajudá-los a entender o Evento Zero. A Morte Encarnada, todavia, estava irredutível. Moonshadow aproveitou o instante conseguido por Magni e perguntou a Angni Locus o que ele quis dizer com não existir Mimir. Angni Locus, vendo algum lampejo de esperança nas palavras do andróide, disse que para destravar a informação bastava revelar a verdadeira identidade de Mimir. Quando Moonshadow questionou como fazer isso, Angni Locus respondeu, voltando-se para o Inominável que se aproximava, “apenas pergunte”.
Nos instantes que se seguiram, Magni, Vega, Manopla Estelar, Cinetic e Toro se interpunham entre o Inominável e Angni Locus. Starman observava tudo com o assombro de quem estava vendo um espetáculo. E Moonshadow e Quantum correram até o Olho de Odin, caído ao lado de Defensor, e ao tocar nele, ambos foram transportados para a Fonte de Mimir. A batalha estava apenas começando…

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