ARKIS

Arkis: Underdogs - Epílogo

Tales of The Underdogs

Inside a Bloody Hell

New York, em um universo paralelo, 5 de maio de 2032

Ele acordara finalmente. Djinn estava feliz de ver Bleach despertar, por saber que ele estava melhor, e por finalmente ter alguma companhia. Ela estava esperando no alojamento em que eles haviam sido deixados havia algumas horas, e Alexander Tanus, que os trouxera ali, ainda não havia retornado para as explicações que ele lhes havia prometido.
Neil estava confuso e ainda sentindo muita dor. Ele sentira como se parte dele tivesse sido arrancada, e como se ainda estivesse sendo drenado, ainda que lentamente, de suas forças, de sua existência, de si mesmo. Enquanto se recompunha, Djinn lhe explicava que, pelo que pudera entender, eles estavam em outro mundo, num espécie de versão alternativa de New York, e que aquele mundo aparentemente era dominado por demônios ou algo similar.
Quando ela terminava de explicar o pouco que observara, Alexander retornou, acompanhado por um homem alto, de cabelos ruivos, tatuagens celtas e aparência feroz. Sentado numa cadeira em frente a eles, ele observava os dois em silencia, até que começou a falar.
“Sabe, não sei qual de vocês dois me intriga mais. Você, seu nome é Djinn, certo? Estou muito impressionado com seu poder. Veja, eu tenho um dom, o de perceber pessoas com poderes. Eu as sinto, mesmo que sejam invisíveis, e com os anos refinei minha capacidade ao ponto de ser capaz de distinguir o tipo de poder, e até mesmo identificar uma pessoa com base em seu padrão de poderes. É por isso que eu sei que seu amigo aí, Bleach, não é isso?, é um dos ‘viajantes’, como nós os chamamos aqui.
Mas, no seu caso, moça, eu não sinto seus poderes. Na verdade, eu nem percebo sua presença. Se você não estivesse aqui na minha frente, eu não seria capaz de dizer que você existe. Pelo que você me explicou, seu poder é psiônico por natureza, daí você ter se conectado a ele de alguma forma quando ele fez a transição dimensional, mas me parece que seu poder de desaparecer é tão poderoso que ele consegue ocultar a si mesmo de minha percepção.”
“Viajantes” Bleach interrompia, impaciente. “Do que você está falando? Que lugar é esse?”
“Venham conosco. Alguém vai explicar tudo para vocês.”
Eles acompanharam os dois pelos corredores do que parecia ser uma base subterrânea. Passaram pelo que parecia ser uma pequena galeria, com placas de metal gravadas com nomes, alguns dos quais eles conseguiam reconhecer:
[…]
Prometheus
Reflexão
Pretor
Arthur Quest
Impacto
Tesseract
Coronel Charles Rohr
[…]
Neil se deteve, olhando as placas. Dezenas delas, todas com nomes de heróis, famosos e desconhecidos. Como nos pesadelos que ele vivenciara, todos haviam morrido.
“O que aconteceu aqui? Como todos eles morreram?”
“Eles foram mortos. Alguns morreram nos conseguindo muitas das informações que vamos lhes contar.” Alexander falava olhando para uma placa. “Descanse, velho amigo.”
Na placa podia-se ler:
Hai To Lee
__________________________________________________

Eles chegaram na entrada de uma sala, uma espécie de cela de contenção.
“Nosso gênio está aqui, mas ele precisa ser mantido nessa sala isolada por segurança. Olhem onde pisam quando entrarem.”
Entrando, eles viam que, por dentro, a sala era completamente acolchoada. Um jovem, que estava sentado num canto, levantou-se para cumprimentá-los. Bleach sentiu-se desequilibrar, como se o peso de seu corpo fosse aumentado e reduzido em uma questão de instantes, levando a cair no chão.
“Me desculpe por isso.” Era o jovem que falava. “Meu poder envolve a manipulação de características físicas das coisas, notadamente a densidade, mas eu não tenho o menor controle sobre ele. Assim, em minha presença, coisas quebram, pessoas desequilibram, isso quando não há explosões aleatórias envolvidas. É difícil ser o último cientista de nosso grupo de resistência quando se é um desastre vivo. Essa sala de contenção teve que ser construída seguindo instruções enquanto eu ficava bem longe dela até ficar pronta. Não posso oferecer uma cadeira, mas sintam-se livres para sentar-se no chão. Meu nome é Johhan Allen.
Alexander me contou sobre vocês. Você deve estar se perguntando o que está acontecendo aqui. Como vocês podem ter percebido, este não é o seu mundo. Nós sabemos de seu mundo pelas informações que obtivemos dos espiões que tínhamos na base de nosso Algoz, e pelos raros viajantes dimensionais com quem já tivemos contato.”
“Legal, muito lindo, mas isso não explica nada.” Bleach já estava impaciente. A sensação de estar perdendo a si mesmo continuava, e ele não entendia o que estava acontecendo.
“Bom, vamos ao que sabemos, desde o começo. Há milhares de anos atrás, existiu, aparentemente em seu universo, pelo que pudemos entender, um ser chamado Janus. Não sabemos exatamente o quê ele era, mas Janus era um ser formidável, com imensos poderes e dotado de um intelecto genial. Ele criou diversas tecnologias, pelo que sabemos, muitas ligadas a teleporte e viagens dimensionais, e tinha diversos laboratórios secretos em microdimensões onde estocava equipamentos e informações.
Em algum momento num passado distante, Janus fez um experimento, um experimento que deu enormemente errado, pelo que podemos perceber. Não sabemos exatamente o que ele pretendia, mas certamente tinha relação com viagens dimensionais. O fato é que, em sua falha cataclísmica, Janus teve sua essência esfacelada e espalhada por vários tempos e em várias partes do universo, e até mesmo em universos adjacentes, como é o caso do nosso. Aparentemente, embora não tenhamos detalhes sobre como aconteceu, o corpo de Janus foi destruído, e sua alma fragmentada acabou se incrustando em diferentes seres, cada um contendo uma parcela.
Esses são os que nós chamamos de ‘Viajantes’. Até onde pudemos entender, essas pessoas que compartilham uma porção de Janus desenvolvem poderes dimensionais e a capacidade de acessar suas energias e seus depósitos de equipamentos. Aparentemente, eles também são constantemente atraídos em busca das outras parcelas, como se a alma tentasse voltar a ser uma só.
Acontece que uma dessas parcelas transcendeu a barreira dimensional e caiu aqui no nosso mundo. A pessoa que recebeu essa parcela, por muito tempo nada suspeitou sobre a origem do seu poder, afinal haviam outros heróis como ele em nosso mundo. Blaster, como ele era chamado na época, tinha o poder de disparar rajadas de energia, e era, apesar de ambicioso e temperamental, um dos mocinhos.
Tudo mudou quando ele teve contato com outro dos ‘viajantes’. Aparentemente, esse outro tinha poderes mais caóticos, que o haviam feito catapultar por vários lugares, dimensões e tempos. O fato é que, quando eles tiveram contato, ‘algo’ acordou dentro de Blaster. Ninguém soube disso à época, somente depois fomos juntar as informações e entender o que aconteceu, mas aí já era tarde demais.
Um desejo incontrolável tomou Blaster, uma fome de poder, um desejo de se tornar mais e mais o todo de que ele continha parte. Ele aprisionou o outro viajante, fez experimentos com ele, dissecou-o pelo que pudemos saber, até que ele conseguiu ‘entender’ o funcionamento do processo e desenvolveu uma forma de absorver a essência de Janus que estava no outro.
Quando isso aconteceu, ele cresceu muito em poder, mas manteve isso sob segredo. Ele percebeu que as partes se atraíam e começou a usar seus poderes para atrair outros e absorver suas essências. Quanto mais ele absorvia, mais louco e poderoso ele ficava, mas só percebemos isso quando já era muito tarde. Ele destruiu os heróis e exércitos que se opuseram a ele, e estabeleceu uma base no leste da Europa, onde era a cidade de Riga.
Para piorar a situação, ele sequer precisa mais estar na presença de outros ‘viajantes’ para absorver suas essências, é como se elas fossem sendo drenadas para ele. E os efeitos colaterais são terríveis. ‘Viajantes’ parcialmente drenados vão sendo deformados e enlouquecidos pelo roubo de suas almas. Eles perdem suas memórias e vão se tornando seres caóticos, movidos pelos seus poderes dimensionais. Curiosamente, todos acabam adotando a mesma alcunha: Blood.
Apesar de que, nesse estágio, o Algoz – é assim que nós o chamamos agora, apesar de que ele se auto intitula Janus – não os controla diretamente, eles são influenciados por sua personalidade doentia, e se tornam mais e mais cruéis e erráticos.”
“Blood?! Mas Registros indicam a presença dele em alguns eventos recentes de nossa história.”
“Provavelmente foram até indivíduos diferentes. Eles vagam pelas dimensões, sofrendo dor e loucura, por algum tempo agindo coerentemente, mas muitas vezes sendo apenas vetores de caos. Esse estágio, ‘Blood’, só dura um tempo, enquanto a essência ainda não foi completamente drenada. O pior vem depois.
Quando a casca vazia do que foi um indivíduo é deixada sem nada de sua alma ou essência, apenas resta lá dentro a loucura do Algoz, e esse poder deforma a criatura completamente, transformando-o nos demônios que vocês viram lá fora. Eles são ainda mais caóticos que os ‘Bloods’, apesar de que o Algoz desenvolveu, junto com um de seus generais, uma forma de ter certo controle sobre eles.
Enfim, nós já encontramos com alguns ‘viajantes’ arrastados aqui para o nosso mundo antes, mas todos já estavam no estado de Blood, ou à beira do colapso, e nunca conseguimos interromper o processo. Alexander consegue reconhecê-los com seu dom, e ele me garante que nunca tinha encontrado alguém como você, que ainda está no controle completo de suas faculdades e sem sinal aparente de deformações.
Eu entendo que o que estamos lhe falando pode ser muito para processar de uma só vez, mas acredito que nós todos queremos a mesma coisa. Nós vamos lhe dar um tempo para pensar no assunto, mas nossa proposta é que você se junte a nós. Se eu puder estudar seus poderes, talvez possamos ajuda-lo a se estabilizar e se isolar da influência do Algoz, e ao mesmo tempo podemos aprender uma forma de enfrentá-lo.”
Caleb – o homem ruivo – os escoltou de volta ao alojamento onde eles estavam. Bleach pensava em tudo aquilo que ouvira. E se fosse tudo mentira? No fundo, no entanto, ele sabia que era verdade. Ele sentia aquele abismo chamando-o. Sentia aquela espiral de loucura querendo tomar-lhe a mente e a alma. Ele sabia, do entremundos, que a intervenção de Timothy fora o que o preservara até então, a razão de ele ainda estar no controle. E ele reconhecia nos olhos de Djinn a expressão da mulher que povoara seus sonhos no outro mundo. Seria ela a “outra ajuda” a que Timothy se referia?
Djinn, por sua vez, sentia-se assustada com tudo aquilo, mas agora ela entendia o que Golden Boy falara semanas antes, e ela aceitava a missão que Alá lhe enviara. Ela não pudera salvar seu tio, não pudera impedir seu ataque, mas ela ajudara Hellen, e agora tinha uma missão ainda maior: salvar Bleach da perdição. Ajudá-lo a escapar de ser transformado num daqueles demônios. Ela agora tinha um novo propósito, e isso a fazia sentir-se plena.

Legacy

São Paulo, 20 de maio de 2032

Enfim Neal havia conseguido uma reunião com o professor Fernando Oliveira, C.E.O. e cientista chefe da Corporação Guardião. O professor olhara com certa curiosidade quando ele lhe entregara o dispositivo transmissor de Prometheus, e explicara que esperava que alguém mais velho lhe procurasse com aquilo, mas assentira quando Neal lhe contara que ele era a reencarnação de Pax Suprema.
Eles partiram para um laboratório secreto em outro lugar, totalmente desassociado da empresa, segundo Fernando. O lugar parecia um bunker, preparado para operar isoladamente por semanas se fosse necessário.
“E essa é uma dentre várias bases que Willian preparou quando soube de sua doença. Aqui, sob minha proteção, estão muitos dos experimentos que ele considerava sensíveis, mas ele preparou outros pontos de apoio para que aquele que o fosse suceder pudesse ter recursos à mão.”
Fernando explicara que, pelo testamento de Prometheus, o próprio Fernando herdava as ações dele da Mythostech, o que faria dele o principal controlador, mas eles tinham consciência que várias forças se interporiam para impedir tal concentração de poder, em especial nas mãos de um estrangeiro. Assim, eles haviam desenvolvido um plano de contingência, que envolvia a progressiva transferência de controle para outro grande empresário, Russel Southampton, da Ankh Corporation. Dessa forma, o governo inglês ficava mais tranquilizado, e o resultado da troca – que consistia, entre outras manobras, de uma substituição de papeis ordinários por preferenciais – permitia que o afluxo de lucros da empresa ajudasse a financiar as ações do sucessor de Prometheus até que ele pudesse – se fosse essa sua linha de ação – reassumir a empresa.
“Nossa, da forma que você descreve, é como se ele tivesse planejado movimentos anos à frente.” Neal comentava.
“Exato.”
Por fim, o professor o conduziu até um equipamento, e explicou que aquela máquina era o que faria a transferência do conhecimento gravado por Prometheus. Ele explicou que o processo só poderia ser feito uma vez – os requisitos de energia eram imensos e o risco muito alto – mas que deveria ser realizado em etapas, com intervalos.
“Acelere o processo demais, e seu cérebro simplesmente não aguentará.”
“E quanto tempo deve levar até completar o processo?”
“Eu estimaria no mínimo uns cinco anos, já que você não pretende viver dentro do laboratório, suponho.”
O tempo era mais que Neal imaginava ou desejava, mas o professor estava certo. Ele não poderia concentrar-se somente naquilo. Havia muito a ser feito, e ele teria que aproveitar os tempos de repouso entre uma sessão e outra para dar seguimentos a outros projetos. Sua responsabilidade, ele sabia, era grande demais.

New Life

Sacramento, CA, 30 de maio de 2032

“Tamanha destruição”, ele contemplava e pensava. A cada instante ele se convencia de que sua decisão era a melhor. Lutas fenomenais, ameaças imensuráveis aconteceriam eventualmente, mas a necessidade de reconstruir o que fora destruído, de restaurar a normalidade na vida daquelas pessoas, isso era uma necessidade constante.
Por isso ele estava ali. Sarutahiko erguia o enorme bloco de concreto, para que as buscas pudessem continuar. Era impressionante quanto de escombros ainda restava após o ataque à California, e era um milagre como alguns raros sobreviventes ainda eram encontrados. Dali a algumas semanas, ele estaria reunido às autoridades locais no esforço de reconstrução, tanto nas obras propriamente ditas quanto realizando ações promocionais para angariar fundos.
Ironpunch o acompanhara, como havia prometido. Além de se sentir em débito, Jack Stappler dissera que esse novo caminho que Yokozuna adotara havia lhe mostrado como ele fora fútil até então. Era hora de fazer o seu melhor.
“Parece que acabamos aqui, chefe.” Jack passara a chama-lo assim, apesar de insistentes pedidos em contrário.
“Sim, mas ainda há muito trabalho a se fazer. Ao menos, parece-me que, por enquanto, essas pessoas vão ter um pouco de paz.”

Frozzen Soul

Numa galáxia congelada impossivelmente distante, 31 de maio de 2032

A imagem olhava para ele de volta, e respondia suas perguntas com frieza. Não era como ele lembrava. Nevasca, apesar de seu nome e constituição, sempre fora um herói caloroso, e uma alma genuinamente bondosa.
Aquele simulacro à sua frente, construído a partir de memórias e impressões era não mais que um boneco com o qual ele podia conversar.
Alyosha sentia-se só, como se sentira apenas quando de sua primeira morte, antes de Nevasca habitar seu corpo por um tempo, antes de ele se tornar mais que um artista fracassado e morto pela penúria, antes de sua vida se tornar tão complicada como agora era.
Ele olhava as estrelas do céu, estrelas diferentes das de seu mundo. Observador de Estrelas, eles o haviam chamado.
Ele sabia que a verdade era outra. Não eram as estrelas que lhe concediam desejos. Eram seus desejos que as faziam cair. E ele não queria ser o causador de mais destruição, não queria se tornar novamente um monstro.
Por isso ele buscara o conselho de seu amigo morto, apenas para não encontra-lo.
Ele chegara a tentar adentrar os domínios da morte, mas fora impedido por uma força sombria. Quando insistira, a presença lhe apresentara uma pergunta: Ele realmente queria trazer Nevasca de volta? Para aquele mundo?
E ele recuara. O que quer que ele fosse fazer, teria de fazê-lo sozinho. Seu amigo merecia o descanso. Ele já havido provado seu valor.

Young Heroes

Chicago, 15 de janeiro de 2034

Chicago tinha um efeito interessante em Neal. Ele viajara por vários lugares do mundo esses dois anos, mas quando estava aqui ele se sentia nostálgico e, mais do que isso, era talvez o único lugar onde ela ainda conseguisse relaxar um pouco. Tudo estava ficando complicado demais. Enquanto esperava, incógnito, sentado num restaurante próximo à North Lake Shore, ele lembrava do encontro que tivera alguns dia antes.
Ele estivera investigando alguns crimes em Kansas City, e acabara envolvido num combate inesperado com dois extraordinários super-fortes. Ele vencera – seu treinamento com Pattmah o deixava cada vez mais preciso – mas não sem alguns hematomas e ferimentos, que o levaram o pronto socorro.
Lá, o médico que o atendera, que parecia apenas um pouco mais velho que ele, o olhava atentamente enquanto tratava de seus machucados.
“Se você se envolver em brigas assim sempre, eu tenho pena de seus pais.”
Neal desconversava, mas enquanto ele o enfaixava ele conversava sobre assuntos diversos. Era simpático, e uma pessoa que parecia genuinamente gentil e bondosa. Ao fim, quando ninguém olhava, ele lhe entregara um cartão.
“Você me parece uma pessoa com a cabeça no lugar, Neal, e eu sou um bom juiz de caráter. Sei que esses machucado aconteceram em alguma ação como vigilante. Não se preocupe, seu segredo está a salvo comigo, mas, em nosso mundo, fazer parte de um grupo pode fazer muita diferença. Ligue para esse número.”
“Obrigado, Dr. Goodman.”
Neal não sabia ainda que eles se tornariam grandes amigos, mas ligara para o número e ingressara no Programa: Jovens Extraordinários da Justiça Suprema.
“Sonhando acordado?” Erik chegou, disfarçado.
“Finalmente consegui encontrar vocês. Não posso demorar muito, mas ao menos podemos fazer nossa reunião. Belo disfarce, senhor ‘Cara Famoso’.” Era Alex que sentava na mesa.
Erik de fato precisava agora se disfarçar para sair em público sem ser notado. Alguns dias antes, ele ingressara para a E.I.E., e no anúncio público que fizera, ele revelara sua identidade – e a de seu avô – o que rendeu ainda mais assédio da população de Chicago. Ele agora era uma celebridade.
Eles conversaram tarde adentro, cada um contando suas recentes aventuras. Quando se arrumavam para sair – Alex tinha que voar de volta para o Havaí – uma confusão no hotel em frente chamou sua atenção. Aparentemente um assalto, com reféns. Eles se entreolharam, e cada um saiu em uma direção.
Chegando no topo do restaurante, Golden Boy via Thrust e Cinetic pousarem a seu lado. Os futuros guardiões da Terra, como ele falava.
“Vai uma carona aí?” Alex brincava.
“Então, qual o plano, sr. gênio?” Erik gostava de provoca-lo.
Era bom ver os três reunidos em ação, apesar de Neal sentir que aquela seria talvez a primeira e última vez que aquilo aconteceria em muito tempo. O mundo estava ficando muito complexo, e eles tinham caminhos muito diversos pela frente. Mas, ele se consolava com o pensamento, era tudo parte do plano.
“Vamos salvar algumas vidas.”

O Protocolo Arkis: Side Effects

Sacramento, CA, 15 de abril de 2036, 20 dias depois do Protocolo Arkis

Quando ele achava que havia encontrado seu lugar, uma nova reviravolta. Subitamente, sua força se fora, junto com todos os seus poderes. Isso talvez não fosse um problema tão grande, não fosse pela arma apontada para ele.
Sarutahiko contemplou a imagem do robô com formas levemente femininas, que fazia aparecer um canhão e preparava-se para fulmina-lo. Verdugo. Ele ouvira falar dos caçadores de arkeontes. Ele tivera sorte e se desviara do primeiro ataque, mas agora não tinha para onde fugir, acuado nos escombros de sua casa.
Algumas pessoas na rua tentavam interferir. Ele se tornara, depois de tudo, um herói e ídolo local por sua ação nos resgates e reconstrução, mas havia pouco que alguém pudesse fazer. Então, em alta velocidade, um soco atingiu o robô.
“Precisa de ajuda, chefe?”
Ironpunch chegava como uma bem vinda cavalaria, e não estava sozinho. Christopher Fate, que ele conhecia como Onyx – que Ironpunch havia ido buscar no aeroporto – o ajudava a se levantar.
“Quando eu me ofereci para vir ajuda-lo a se ajustar a sua nova condição sem poderes, não era bem isso que eu tinha em mente.”
Os três se prepararam para o combate, que eles sabiam que não seria nada fácil. Aquelas máquinas estavam dando muito trabalho para a E.I.E. e para os remanescentes da Justiça Suprema. Eles estavam em séria desvantagem ali.
Um disparo cortou o ar, atingindo o robô num dos olhos com perfeição. De onde parecia não haver ninguém apareciam cinco figuras: Chacal, Hellwrath, Alpha (Garrison Shiff), Stealth e Arakness (Alek Rannen). A Brigada Fantasma.
Um clone brutal, junto com Hellwrath arremeteram contra o Verdugo, que agora se via enfrentando um grupo altamente coordenado, com treinamento militar e poderes. A luta ainda poderia ser vencida, avaliava seu cérebro computadorizado, mas poderia ser perdida também. Assim, ela optou por recuar e buscar alvos mais fáceis.
“Droga, ainda não pegamos uma daquelas coisas!” Arakness reclamava.
Chacal e Yokozuna se cumprimentaram.
“Vocês estão caçando eles? Mas vocês não são alvos deles também?”
“Sim, por isso os estamos caçando. Vamos inverter esse jogo. Como nós somos parte humanos, nossos poderes não despareceram. De fato, acho que nossa relação os influenciou, e agora nós conseguimos usá-los em ressonância uns com os outros. Juntos, somos mais fortes. E você, o que pretende fazer?”
“Ainda não sei, mas estive pensando em voltar ao Japão. Encontrar outro caminho. Durante esse tempo todo eu tenho sido mais arkeonte que artista marcial, e talvez seja hora de retomar esse lado.”
Despedindo-se, Yokozuna viu quando eles desapareceram. “Boa sorte”, ele pensou. Nós vamos todos precisar.

New Orleans, 28 de abril de 2036

Dois dias fazendo vigília. Anos atrás, isso teria sido incômodo, constrangedor, mas agora eles já estavam habituados a trabalhar juntos. Nina continuava como freelancer, mas várias vezes era contratada como consultora quando a E.I.E. precisava investigar um evento sobrenatural ou místico. Invariavelmente, quando acontecia, era com James e sua equipe que ela trabalhava.
Ela não poderia achar isso melhor. De um início desconfiado e distante, os dois agora se davam bem. Se conheciam. Ele até mesmo se arriscava no papel de ‘irmão mais velho protetor’ – um tanto machista para a personalidade independente dela, mas ela não ligava. Ela tinha novamente uma família.
“E então? Já pensou na proposta?” Ele perguntava mais uma vez.
Nina não sabia bem como responder. A Agência tinha sido um bom fator, tanto no fato de trabalhar com seu irmão quanto para suas finanças, mas tornar-se uma agente em tempo integral era algo que a assustava. Perder sua independência. Virar parte do ‘sistema’. Ela não queria decepcionar James, mas também tinha medo de decepcionar a si mesma.
“Ainda estou pensando. Você sabe minha opinião sobre me tornar parte de uma força oficial.”
“Ok, sem pressão, então. Eu só insisto porque acho que você pode fazer muito mais, ser muito mais efetiva se fizer parte de um grupo. Opa! Nossa deixa.”
O suspeito saía do restaurante. Ak’een Red’tiar era tido como responsável por diversos assassinatos, todos envolvendo supostamente rituais e feitiçaria. Nina fez um encantamento e confirmou o que eles desconfiavam: vampiro. Eles partiram para efetuar a captura.
O combate inevitável aconteceu. A criatura, que até então se portava como um transeunte qualquer – de fato, com o porte e a classe de quem poderia ter sido um cavaleiro quando vivo – reverteu-se numa monstruosidade, invocando poderes místicos e lutando de maneira feroz.
Uma tempestade localizada os cercou, e entre os ventos, os ataques da criatura e a neve branca que caía, eles mal podiam ver o que estava acontecendo. Felizmente, aquela era uma equipe bem treinada. Nina recitava uma invocação voodoo para que os espíritos marcassem seu alvo. Jaxxan e Sonny, dois agentes sem poderes mas excepcionalmente treinados, cobriam o perímetro da tempestade, impedindo que o alvo conseguisse sair. James, co sua pontaria formidável, disparava, tentando incapacitar o agressor.
Um tiro feriu a criatura, que ainda assim não parou. Um segundo tiro se ouviu, e a tempestade parou. Com o peito sangrando e uma bala encravada em seu coração, Ak’een vomitava sangue em seus últimos espasmos de (não-)vida. Como sempre, James fora preciso. Mas então Nina viu. Uma estaca de gelo, dentre as tantas coisas que o monstro disparara, atingira James em cheio. Perfurara o traje protetor e, pela posição, atravessara seu pulmão.
“Rápido, peçam suporte! Nós temos que fazer alguma coisa! Não, James, não, agora não!”
O olhar dele tinha dor, mas lhe transmitia uma certa tranquilidade. Ele sempre vivera uma vida perigosa, mas era grato de ter podido se reconciliar com a irmã antes de partir. Em um esforço, colocou a arma em suas mãos.
“Herança… de família. Só você pode… usar. Se cuida.”
“Não, James, nós vamos cuidar de você, nós… vamos…”
Ela sabia que não adiantava mais. Ela estava só. Novamente.

Em algum lugar na dimensão dos tecnodemônios, 20 de junho de 2036

Eles se esconderam instintivamente. O veículo pousando, as hordas de demônios, tudo indicava que aquele lugar era por demais perigoso. Djinn já investigara nas proximidades do portal, mas não pudera chegar tão perto.
Uma hoste de demônios esperava ali, não se sabe se guardando-o, ou se aguardando para uma invasão. Ela, contudo, conseguira um vislumbre do outro lado, e pudera ver o que pareciam ser cavaleiros montados em dragões, também em posição de vigília. Ela chegou a ver, antes de ter que recuar para não ser percebida, que um homem aparecia e era cercado pelos cavaleiros, apenas para partir acompanhado de um cavaleiro de aparência sombria.
“Não sei quem era aquele pobre coitado, mas não restou muita coisa.” Bleach dizia quando ela voltou para junto do grupo.
O corpo despedaçado de um homem era carregado para dentro da nave, junto com o que pareciam ser alguns artefatos tecnológicos. Tudo sob a supervisão de um dos generais do Algoz.
“Ele!”
Era fácil reconhecer aquele homem. O louco que aprimorava os demônios e Bloods com implantes tecnológicos. O cientista que fizera experimentos com o próprio filho, e o tratara sempre como seu maior fracasso. O traidor que se vendera para o Algoz pela chance de seguir com suas experiências doentias.
Viktor Allen
Ele parecia estar estudando a fenda também, com seus equipamentos, mas o que ele estava fazendo exatamente a distância não permitia perceber.
Fragmentos de informação que eles haviam conseguido nos últimos anos davam conta de que este Viktor talvez tivesse contato com o seu equivalente no mundo de onde eles vieram. Se isso fosse verdade, e aquele portal fosse para lá, ele poderia até mesmo estar usando-o para se comunicar com seu aliado.
“Abaixem-se.” Jason sussurrava o alerta.
Juntos, ele e seu irmão James recitaram um encantamento de ocultação. Os poderes místicos dos dois, apesar de não serem muito potentes, eram muito úteis usados com sutileza.
Uma patrulha de demônios passou voando ao alto, mas não os localizou. Já era hora de recuarem, ali estava ficando muito perigoso. Eles esperavam que os dados conseguidos àquela distância fossem suficientes para Johhan fazer uma análise.
Enquanto partiam, Bleach seguia preso em seus pensamentos. Nesses últimos anos, ele sentia como se o ritmo em que sentia a drenagem houvesse diminuído. Ele ainda sentia algo de si sendo lentamente tomado, mas também se sentia mais capaz de resistir. Ele sentia que sua mente e a de Djinn estavam como que conectadas desde que haviam chegado ali, e sentia certo conforto na certeza de que eles estavam lutando juntos contra aquela influência.

Chicago, 20 de junho de 2036

“Você é competente, experiente, e já trabalhou conosco vezes o suficiente para sabermos que será uma excelente adição. Essa proposta já foi feita outras vezes, eu sei, mas eu vim aqui para repeti-la. Junte-se a nós. Nós estamos lutando por um mundo melhor, mais seguro. James acreditava nisso, ele me trouxe para cá.” Jake tentava evitar dar um peso emocional ao que falava, mas sabia que não falar no irmão de Nina naquela situação era quase impossível.
“Eu vou pensar, Shadow… Jake. Eu ainda preciso descobrir qual vai ser meu caminho daqui em diante.”
“Bom, você sabe onde nos encontrar”
Nina refletia sobre os últimos dias. Novamente a E.I.E. a convidava para integrar a Agência, e agora ela sabia que não era para trabalhar junto a James, mas para ocupar a vaga que ele deixara. Ela sentia-se compelida a aceitar, a seguir com o legado do irmão, ainda mais agora que estava treinando sua pontaria e aprendendo a usar a arma dele.
Mas ela recebera outra proposta também. Um homem batera à sua porta, identificando-se como Technomancer. Ele a convidara a ingressar para a Ankh Corporation. Lá, ele dizia, ela poderia lidar com pesquisas místicas e sobrenaturais, sua especialidade, e seus talentos seriam bem aproveitados.
Nina estava dividida. Dois grandes grupos a queriam, e ainda assim ela se sentia muito só.

Uma base escondida, 20 de junho de 2036

“Adeus, amigo.” Neal pensava. Ele pressentia que Alex estava deixando o planeta junto com a Vanguarda. Ele sempre soubera que os caminhos deles três – ele, Alex e Erik – seriam separados, ainda que eles estivessem unidos por um grande Plano.
No momento final, ele pensava, eles estariam trabalhando juntos, ainda que separados por distâncias impensáveis.
Seus pensamentos vagaram para outras paragens. Ele não conseguira nenhuma pista adicional do Soberano. Ele sabia que ele era real. Via suas sombras em toda parte. Suas forças preparando para um golpe tão violento que o mundo acabaria por se prostrar a ele. Mas ele estava oculto, muito bem oculto. Neal precisava estudar mais, treinar mais. Ele ainda não havia atingido seu Zênite. Ainda era apenas Golden Boy.
Com esse pensamento, ele se conectou novamente à máquina de treinamento. Ainda havia muito a aprender.

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